Com algum atraso, o Grupo dos Dez, criado em 2009 em Belo Horizonte, lança agora o projeto que marca seus 15 anos. Surgida a partir de provocações de João das Neves (1935-2018) e de sua companheira, a cantora Titane, a companhia abriu as comemorações no mês passado, no Acre, onde o diretor e dramaturgo construiu parte importante de sua carreira. A festa chega à capital mineira neste domingo (1º/3), com a sessão de “Madame Satã” às 20h, no Sesc Palladium, com ingressos esgotados.

Aprovado pela Lei Federal de Incentivo à Cultura, o projeto Grupo dos Dez – 15 Anos de Teatro Negro prevê cerca de 60 apresentações em sete estados, reunindo espetáculos de repertório, ações formativas e a estreia de “Afroapocalíptico”, em 16 de março, no Palácio das Artes. A nova peça parte da cosmovisão do congado mineiro para construir experiência artística imersiva, sensorial e política.

Terceiro espetáculo do Grupo dos Dez, “Madame Satã”, com direção de João das Neves e Rodrigo Jerônimo, um dos fundadores da trupe, estreou no final de 2015 e seguiu até 2019 com apresentações em várias capitais, com grande sucesso de público e crítica.

Também fundadora da companhia, Bia Nogueira diz que voltar agora ao cartaz faz parte de dupla comemoração. Concebido em 2014, no Oficinão do Galpão, o projeto demorou a ser concretizado, mas se tornou marco na história do grupo.

“João das Neves dizia que estava passando o bastão do teatro dele para o Grupo do Dez e dividiu a direção de 'Madame Satã' com Rodrigo. Além disso, foi a primeira vez que assinei uma direção musical, então é muito simbólico. O grupo ganhou projeção, o espetáculo foi muito premiado”, diz.

Homofobia e racismo

A montagem se vale da biografia de um dos mais peculiares personagens da cultura negra brasileira, João Francisco dos Santos, o Madame Satã (1900-1976), para dialogar com questões atuais, que permeiam a crítica à homofobia e ao racismo. Rodrigo Jerônimo destaca que devido à conexão com o tempo presente, o texto sofreu mudanças, convidando à escuta atenta.

“Ao acompanhar a trajetória de Madame Satã, o público é confrontado com tensões que não pertencem apenas ao passado, mas seguem estruturando o presente. A cada apresentação, temporada ou reflexão sobre o espetáculo, percebemos a necessidade da atualização da dramaturgia”, diz.

Direitos ameaçados

Bia Nogueira concorda. “Vivemos um momento em que os direitos civis de pessoas trans, negras e mulheres estão sendo ameaçados, o que reafirma a importância desse debate”.

Num dado momento do enredo, atores reproduzem falas reacionárias e discursos de ódio atuais. “O espetáculo é um documento vivo. Infelizmente, temos de seguir mudando o texto, porque esse tipo de coisa continua sendo dita. Achávamos que, passados 10 anos, não teríamos mais de bater nessa tecla, que as conquistas estariam garantidas. Mas não, esta montagem ainda é espaço de luta e resistência, apesar de ser cheia de música, beleza e alegria”, ressalta.

Três atores se revezam no papel de Madame Satã: Samuel Lucas, Denilson Tourinho e Evandro Nunes. “Madame Satã era o malandro, era aquela figura que se travestia de mulher para fazer shows e também era capoeirista. Quisemos marcar bem cada um desses aspectos, então é uma polifonia de corpos e vozes fazendo essa figura complexa e multifacetada”, destaca Bia Nogueira.

Novos passos

O projeto Grupo dos Dez – 15 Anos de Teatro Negro inclui a quarta montagem da companhia, “Dandara para todas as mulheres”, dirigida e estrelada por Bia Nogueira. Já a estreia de “Afroapocalíptico” se limitará, a princípio, a BH.

“O espetáculo será encenado em uma galeria, espaço que representa o bunker pós-apocalíptico onde estão guardados tesouros da cultura mineira, com foco no congado. As pessoas vão poder, ao longo de uma semana, visitar a exposição, mesmo com o espetáculo sendo apresentado em algumas datas específicas. É uma aventura do Grupo dos Dez pelas artes visuais, permeada pela performance”, diz Bia.

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A outra novidade é a peça “A feira”, sobre a questão agrária no Brasil, prevista para o final do ano.

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