Um dia para celebrar o legado de um mestre. São lembrados nesta quarta-feira (25/2) os 130 anos de nascimento do pintor e professor Alberto da Veiga Guignard (1896-1962), fluminense que viveu quase duas décadas em Minas.
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Natural de Nova Friburgo, Guignard teve uma trajetória de ensino em Belo Horizonte, onde faleceu no Hospital São Lucas, e paixão por Ouro Preto, cidade que se tornou sua “última morada”: está sepultado na Igreja São Francisco de Assis.
Guignard chegou a BH em 1944, para organizar e dirigir o curso livre de desenho e pintura, vinculado ao então recém-criado Instituto de Belas Artes. Ali, nasceu a Escolinha do Parque. Com o tempo, Guignard se tornou figura emblemática para uma geração – nas palavras de quem o conheceu, era não só competente e criativo, como também humilde, inteligente, bem-humorado.
O artista tem cerca de 3 mil obras contabilizadas, a maioria atualmente em coleções particulares de São Paulo. Antes da vinda para Minas, a convite de JK, era professor da Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, onde tivera dois importantes ateliês para formação de novos artistas.
Na época, Guignard já era consagrado e considerado pela crítica um dos quatro maiores nomes da pintura modernista brasileira, ao lado de Cândido Portinari (1903-1962), Di Cavalcanti (1897-1976) e Pancetti (1902-1958).
A escola de arte criada no Parque Municipal Américo Renné Giannetti impulsionou, nos anos seguintes, a criação de cursos voltados às artes plásticas, dando origem à Escola Guignard, incorporada à Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg).
Aula inaugural
A aula inaugural do curso sob orientação de Guignard ocorreu em 30 de março de 1944. Eram aproximadamente 40 alunos, com aulas no prédio da Escola de Arquitetura, no Centro de BH. Depois, a iniciativa migrou para um antigo grupo escolar no Parque Municipal.
Quem conhece essa história é a artista plástica mineira Maria Helena Andrés, de 103 anos, que se refere a Guignard como seu único mestre. “Vi ocorrer a ruptura entre o academicismo e o modernismo, que tinha Guignard à frente. Foi um momento fundamental”, lembrou ela, em 2024. “No meu caso, especificamente, o mestre conseguiu despertar o que havia dentro de mim.” Segundo ela, Guignard praticava um “ensino libertador para captar a essência de cada um”.
Maria Helena Andrés foi professora e diretora da Escola Guignard. No Parque Municipal, a escola ficava perto do lago, cercada de vegetação. “O espaço recebia muitos intelectuais e artistas. Passaram por lá Cândido Portinari (1903-1962), Santa Rosa (Tomás Santa Rosa Júnior, 1909-1956) e Roberto Burle Marx (1909-1994). Era uma síntese das artes, com os artistas trabalhando com os jovens”, cita ela.
O clima de efervescência mudou o cenário de BH. “Havia, em todos nós, o entusiasmo de criar algo novo na cidade, então muito tradicional. Era o despertar de uma energia nova”, diz Maria Helena, que teve entre os colegas artistas do quilate de Mário Silésio (1913-1990), Amilcar de Castro (1920-2002), Nelly Frade (1913-1988), Marília Giannetti (1925-2010) e Célia Laborne, e também como professor o escultor Franz Weissmann (1911-2005). Um verdadeiro desfile de talentos, unido em torno do nome do mestre.
Cidade inspiração
Tão logo chegou a BH, Guignard tratou de visitar as cidades históricas, que tiveram papel muito importante na sua obra. Passava longas temporadas em Ouro Preto – a “cidade amor inspiração”, conforme definia, e onde fez muitos amigos.
Por volta de 1960, diante de problemas pessoais, recebeu apoio decisivo de um grupo que criou a Fundação Guignard. Como primeira iniciativa, os amigos lhe conseguiram um contrato com a hoje extinta Petite Galerie, do Rio de Janeiro, algo então não muito comum.
O grupo de amigos conseguiu realizar o velho sonho do pintor – ter uma casa, cedida pelo advogado e político Pedro Aleixo (1901-1975). Em Ouro Preto, já desligado da Escolinha do Parque, Guignard aproveitava a residência perto da Escola Normal para pintar, tomar sol e retratar as moças que passavam, principalmente as futuras professoras.
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Muitas histórias do homem que contribuiu como artista e educador, explorando paisagens, pessoas e movimentos culturais, atravessam o tempo. Algumas bem espirituosas. Quando a pessoa que acabara de retratar dizia que o quadro não se parecia com ela, o artista comentava simplesmente: “Daqui a 100 anos, quem vai saber?”.
