Poucas franquias de games conseguem atravessar gerações inteiras sem perder relevância. Menos ainda conseguem redefinir constantemente a própria indústria. Ao completar 40 anos neste sábado (21), The Legend of Zelda longevidade, mas acima de tudo, influência.

Criada pela Nintendo, a série estreou em 21 de fevereiro de 1986 no Japão e chegou à América do Norte no ano seguinte, apresentando ao mundo uma proposta incomum para a época, por ser um jogo que não guiava o jogador pela mão. Em vez disso, convidava à descoberta. Explorar cavernas, errar caminhos, aprender a passar fases com ‘detonados’ e compartilhar segredos com amigos virou parte da experiência, algo que ajudou a moldar a cultura gamer como conhecemos hoje.

Quatro décadas depois, Zelda permanece como um raro exemplo de franquia que evoluiu sem abandonar sua essência. Cada geração trouxe mudanças técnicas, narrativas e visuais, mas sempre preservando o mesmo sentimento central: a aventura nasce da curiosidade.

De experimento ousado a patrimônio cultural dos games

Criador de The Legend of Zelda, Shigeru Miyamoto ajudou a transformar os videogames em experiências de aventura e exploração.

Nintendo/Divulgação

A origem da série está diretamente ligada às memórias de infância de seu criador, Shigeru Miyamoto, que explorava florestas e cavernas nos arredores de Kyoto. Essa sensação de descoberta virou o DNA da franquia.

Enquanto outros jogos dos anos 1980 buscavam partidas rápidas inspiradas nos arcades, Zelda apostou no oposto: progressão longa, mundo interconectado e liberdade de exploração. Foi também pioneiro ao permitir salvar o progresso diretamente no cartucho, algo revolucionário para consoles domésticos.

Nos anos seguintes, a série estabeleceu padrões que seriam replicados por toda a indústria: narrativa ambiental, resolução de puzzles integrada ao combate e mundos que recompensam observação. A transição para o 3D no fim dos anos 1990 redefiniu jogos de aventura, enquanto as décadas seguintes mostraram uma franquia disposta a assumir riscos, seja mudando o estilo visual, experimentando controles por movimento ou reinventando completamente sua estrutura.

Mais recentemente, Zelda voltou às próprias origens ao priorizar liberdade total de exploração, influenciando o design moderno de jogos de mundo aberto e reafirmando seu papel como uma das bases criativas da indústria.

Os jogos essenciais para conhecer The Legend of Zelda

A lista abaixo não representa necessariamente os melhores jogos da franquia, mas sim aqueles que consideramos indispensáveis para quem deseja compreender o peso histórico, criativo e cultural da série ao longo de seus 40 anos.

1. The Legend of Zelda (1986) - NES

The Legend of Zelda revolucionou o NES com exploração livre e salvamento interno, criando as bases dos jogos de aventura modernos.

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O ponto de partida de tudo. O primeiro Zelda apresentou um conceito quase inexistente nos consoles da época, que era de exploração não linear. Nele, você poderia seguir diferentes caminhos desde o início, descobrindo segredos sem instruções claras.

Além disso, foi um dos primeiros jogos domésticos com sistema de salvamento interno, permitindo aventuras longas em um período dominado por experiências curtas, função que se tornou cada vez mais essencial nas décadas seguintes.

2. A Link to the Past (1991) - SNES

A Link to the Past definiu o Zelda clássico no SNES, introduzindo a Master Sword e o conceito de mundos paralelos.

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Considerado por muitos como a definição do “Zelda clássico”, refinou a fórmula em 2D praticamente à perfeição. Introduziu elementos que se tornariam pilares da franquia, como a Master Sword e o conceito de mundos paralelos.

O equilíbrio entre exploração, narrativa e progressão transformou o jogo em referência estrutural para títulos posteriores, tanto dentro quanto fora da Nintendo.

3. Link’s Awakening (1993) - Game Boy

Link’s Awakening levou Zelda ao Game Boy com narrativa emocional e atmosfera única fora de Hyrule.

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Provou que uma aventura épica cabia em um console portátil. Ao abandonar Hyrule e apostar em uma história mais intimista e surreal, o jogo trouxe maior foco narrativo e personagens incomuns para narrativas da época e cheios de personalidade.

Seu tom melancólico mostrou que Zelda podia contar histórias emocionalmente complexas mesmo com limitações técnicas da geração. Dada a sua importância e carisma, o game recebeu um remake completo para o Nintendo Switch em 2019, com um novo estilo visual em 3D.

4. Ocarina of Time (1998) - Nintendo 64

Ocarina of Time redefiniu jogos 3D no Nintendo 64 e segue como um dos games mais influentes da história.

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Um divisor de águas para toda a indústria. A adaptação da franquia para o 3D estabeleceu padrões que permanecem até hoje, como o sistema de mira em combate e a estrutura moderna das aventuras tridimensionais.

Até hoje lembrado como um dos jogos mais influentes já produzidos, The Legend of Zelda: Ocarina of Time redefiniu expectativas sobre narrativa e imersão nos videogames e permanece como o título mais bem avaliado da história no site agregador de críticas Metacritic, com nota 99, um feito que nunca foi superado pela crítica especializada até a data desta publicação.

5. Majora’s Mask (2000) - Nintendo 64

Majora’s Mask inovou com ciclo temporal e clima sombrio, tornando-se um clássico cult da franquia Zelda.

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O experimento mais ousado da série. Utilizando um ciclo temporal de três dias, o jogo construiu uma atmosfera densa e inquietante, abordando temas raros para games da época, como perda e ansiedade.

Inicialmente divisivo, tornou-se um clássico cult justamente por provar que Zelda também podia ser estranho, sombrio e profundamente humano.

6. The Wind Waker (2002) - GameCube

The Wind Waker destacou o cel-shading e a exploração marítima, criando um dos visuais mais atemporais de Zelda.

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Alvo de críticas iniciais por seu visual mais cartunesco em cel-shading, hoje é lembrado como um dos estilos artísticos mais atemporais da franquia. A navegação em alto-mar ampliou o senso de aventura e escala.

O jogo ajudou a humanizar Link por meio de expressões e narrativa mais emocional, mostrando que mudanças radicais também poderiam preservar a identidade da série.

7. Twilight Princess (2006) - GameCube / Wii

Twilight Princess trouxe tom realista e Link lobo, marcando a transição da série para o Wii.

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Resposta direta ao desejo dos fãs por uma abordagem mais realista. Trouxe tom mais sombrio e introduziu mecânicas como a transformação em lobo.

Também marcou a chegada da franquia à era dos controles por movimento, funcionando como ponte entre o público tradicional e a nova audiência do Wii.

8. Skyward Sword (2011) - Wii

Skyward Sword revelou a origem da Master Sword e inovou com controles por movimento no Wii.

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Cronologicamente o início da linha do tempo da franquia, apresentou a origem da Master Sword e aprofundou a mitologia da série.

Apesar de divisivo, serviu como laboratório de ideias que seriam fundamentais anos depois, especialmente na interação física com o mundo e no gerenciamento de estamina.

9. Breath of the Wild (2017) - Wii U / Switch

Breath of the Wild reinventou Zelda com mundo aberto e liberdade total no Nintendo Switch.

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Uma reinvenção completa. O jogo abandonou estruturas tradicionais para recuperar a liberdade do título original de 1986, agora em escala moderna.

Seu sistema baseado em física e experimentação transformou cada jogador em autor da própria jornada, influenciando diretamente o design contemporâneo de mundos abertos.

10. Tears of the Kingdom (2023) - Switch

Tears of the Kingdom expandiu Hyrule com construção e exploração aérea, elevando a criatividade da série.

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Expansão criativa do conceito de Breath of the Wild, ampliando o mundo para os céus e o subsolo. A mecânica de construção permitiu soluções praticamente ilimitadas para desafios.

Mais do que sequência, consolidou Zelda como uma das franquias mais inovadoras da indústria atual.

Menção Honrosa: Echoes of Wisdom (2024) - Switch

Echoes of Wisdom coloca Zelda como protagonista jogável e aposta em puzzles criativos com mecânica de ecos.

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Pela primeira vez na linha principal da franquia, a Princesa Zelda assume o protagonismo jogável. A mudança não foi apenas simbólica: ao abandonar o combate direto tradicional, a jogabilidade baseada na criação de “ecos” transformou a resolução de puzzles no centro da experiência, propondo uma nova forma de interação com o mundo de Hyrule.

O título também marca uma mudança perceptível na própria postura da Nintendo em relação ao protagonismo feminino. Nos últimos anos, personagens historicamente coadjuvantes passaram a ocupar o centro das narrativas, como aconteceu com Princess Peach: Showtime!, que colocou a princesa Peach como heroína absoluta de sua própria aventura, e com a releitura moderna da personagem em The Super Mario Bros. Movie, onde Peach assume papel ativo na condução da história.

Nesse contexto, Echoes of Wisdom representa mais do que uma novidade dentro de Zelda: simboliza uma quebra de paradigma dentro de uma empresa tradicionalmente associada a heróis masculinos. O jogo demonstra que a chamada “fórmula Zelda” não depende necessariamente de Link empunhando uma espada e que a própria lenda continua evoluindo junto com seu tempo.

Menção desonrosa: trilogia do Philips CD-i

Os jogos Zelda do Philips CD-i viraram exemplo de fracasso e reforçaram o controle criativo da Nintendo.

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Os jogos lançados para o console Philips CD-i nos anos 1990 permanecem como o capítulo mais estranho da história da franquia. Produzidos sem supervisão direta da Nintendo, ficaram marcados por animações bizarras, controles imprecisos e descaracterização dos personagens.

Apesar de não serem considerados canônicos, serviram como lição definitiva sobre o controle criativo que a Nintendo passaria a exercer sobre suas propriedades intelectuais dali em diante.

Uma lenda que continua sendo escrita

De 1986 até hoje, The Legend of Zelda segue reinventando os videogames e provando que inovação e aventura nunca saem de moda.

Nintendo/Divulgação

Celebrar os 40 anos de The Legend of Zelda é reconhecer uma franquia que nunca se acomodou no próprio sucesso. Ao longo de quatro décadas, a série provou que inovação não significa abandonar o passado, mas revisitá-lo sob novas perspectivas.

Entre espadas lendárias, ruínas esquecidas e mundos que convidam à exploração, Zelda permanece como algo raro nos videogames: uma história que evolui junto com quem joga. E, ao que tudo indica, essa aventura ainda está longe do fim, inclusive, com série anunciada para 2027.

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Para muitos fãs, inclusive para quem vos escreve , Link deveria ocupar o posto de mascote oficial da Nintendo, com todo o respeito à importância histórica de Mario. Afinal, poucas figuras representam tão bem o espírito da descoberta, da coragem silenciosa e da eterna sensação de aventura que ajudaram a definir gerações inteiras de jogadores.

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