Na cena de abertura de “O agente secreto”, Marcelo (Wagner Moura) encosta seu Fusca em um posto de gasolina na entrada de Recife. Sozinho, abastece o carro, quando se depara com uma situação insólita: um cadáver, esquecido há dias, jaz ali por perto, ignorado por todos.
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Tão curiosa quanto a trama do longa de Kleber Mendonça Filho, que concorre ao Oscar em quatro categorias (Filme, Filme Internacional, Ator e Direção de Elenco), é a história por trás de suas locações.
O posto de gasolina da cena inicial, por exemplo, nunca existiu – foi construído do zero em um terreno vazio à beira da estrada, diante de um canavial.
O mesmo ocorreu com o Aeroporto dos Guararapes, recriado para o filme – o original foi desativado em 2004 – e com o Instituto Médico Legal.
Todos esses espaços nasceram da imaginação do mineiro Thales Junqueira, radicado em Recife desde a infância e responsável pela direção de arte de “O agente secreto”. Aos 38 anos, ele acumula currículo invejável.
Assinou a direção de arte de produções como “Homem com H”, cinebiografia de Ney Matogrosso dirigida por Esmir Filho; “Aquarius” e “Bacurau”, também de Kleber Mendonça Filho, o último em codireção Juliano Dornelles; e “Que horas ela volta?”, de Anna Muylaert.
Agora, Thales Junqueira prepara “No jardim do Ogro”, de Carolina Jabor, estrelado por Alice Braga; um novo longa com Esmir Filho, e um ambicioso projeto de adaptação de “Os sertões”, de Euclides da Cunha, com o diretor português Miguel Gomes.
Ruas de Recife
Em “O agente secreto”, o trabalho começou com a leitura cuidadosa do roteiro, ao lado de Kleber Mendonça Filho, que o assina. O diretor queria filmar nas ruas da capital pernambucana, algo que muitos cineastas brasileiros têm evitado pelas implicações logísticas e financeiras.
“Além de caro, é difícil, porque as cidades se transformaram muito”, afirma o diretor de arte. “Diferentemente de muitas cidades, principalmente do chamado mundo desenvolvido, o Sul global passou por um processo de modernização tardia e atropelada. As cidades se deformaram muito rapidamente”, comenta.
Foi justamente o que ocorreu com Recife. O Centro antigo, onde boa parte do filme se passa, é um local que, nas palavras do diretor de arte, “já perdeu o prestígio e o dinheiro há muito tempo”. “Por isso, a rua foi o que mais me preocupou. O filme já trazia, desde o texto, a ambição de filmar a rua de forma absolutamente natural, como se estivéssemos em 1977. Eu sabia que seria um grande desafio – o que, de fato, se confirmou –, mas topamos encarar”, afirma.
O processo de criação da direção de arte foi longo e baseado exclusivamente em referências brasileiras. Entre as principais fontes consultadas por Thales estão os clássicos “Pixote, a lei do mais fraco” e “Lúcio Flávio, o passageiro da agonia”, de Hector Babenco, além de “Iracema – Uma transa amazônica”, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna. Essas obras ajudaram a construir uma estética que refletisse a “cara do Brasil”.
Reconstituição histórica
A pesquisa para a reconstituição histórica, por sua vez, foi realizada em conjunto por Thales, Kleber Mendonça Filho e Rita Azevedo, responsável pelo figurino. Parte do material veio do documentário “Retratos fantasmas”, do cineasta pernambucano.
Além disso, Thales e Kleber visitaram uma exposição de fotos de Jorge Bodanzky, no Instituto Moreira Salles, em São Paulo, com imagens feitas durante a ditadura militar (1964-1985). “Ali existia um Brasil que a gente tinha muito interesse em colocar na tela: urbano, caótico, precário, desigual, feliz e triste ao mesmo tempo… Tudo estava ali”, conta.
A direção de arte também se beneficiou da pesquisa da equipe de figurino. Muitas das imagens reunidas eram fotografias de álbuns de famílias simples e tradicionais dos anos 1970. Elas ajudaram a orientar a construção dos espaços íntimos da época, indicando quais móveis e utensílios eram mais comuns dentro das casas.
Entre as locações históricas utilizadas estão o Cine São Luiz, construído nos anos 1950, e o Ginásio Pernambucano, fundado em 1825. O colégio – o mais antigo em funcionamento no Brasil – serviu como a repartição pública onde trabalha o personagem de Wagner Moura. Para o filme, foram realizadas intervenções pontuais que não precisaram ser submetidas a órgãos de preservação, já que o prédio é tombado.
“Eu já filmei, por exemplo, em Paraty, que é inteiramente tombada. Era um filme de época que se passava no século 19 e eu precisava pintar algumas fachadas para que elas se parecessem com São Paulo naquele período. Tivemos que usar pigmento natural, para que saísse com facilidade quando fosse lavado. E tudo foi acompanhado pelos órgãos de fiscalização”, lembra Thales, referindo-se à cinebiografia “Doutor Gama” (2021), dirigida por Jefferson De.
Embora, “O agente secreto” dialogue com a tradição do cinema de autor norte-americano dos anos 1970, a arte, o figurino e a maquiagem são essencialmente brasileiros. Ao erguer prédios que já não existem e transformar ruas deformadas pelo tempo em cenários de outra época, a direção de arte faz mais do que ambientar a história. Ela cria o chão onde essa história pode existir.
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“O AGENTE SECRETO”
(Brasil, 2025, 161 min.) Direção: Kleber Mendonça Filho. Com Wagner Moura, Tânia Maria, Alice Carvalho, Gabriel Leone, Hermila Guedes, Maria Fernanda Cândido, entre outros. Classificação: 16 anos. Em cartaz no UNA Cine Belas Artes, às 17h30; BH Shopping, às 12h40 (sáb e dom) e 21h30; Boulevard, às 15h e 20h35; Cidade, às 14h30; Contagem, às 15h; Del Rey, às 15h; Diamond, às 21h; Monte Carmo, às 14h10; Partage, às 15h35; e Pátio, às 21h10.
