Na cena de abertura de “O agente secreto”, Marcelo (Wagner Moura) encosta seu Fusca em um posto de gasolina na entrada de Recife. Sozinho, abastece o carro, quando se depara com uma situação insólita: um cadáver, esquecido há dias, jaz ali por perto, ignorado por todos.


Tão curiosa quanto a trama do longa de Kleber Mendonça Filho, que concorre ao Oscar em quatro categorias (Filme, Filme Internacional, Ator e Direção de Elenco), é a história por trás de suas locações.
O posto de gasolina da cena inicial, por exemplo, nunca existiu – foi construído do zero em um terreno vazio à beira da estrada, diante de um canavial.

O mesmo ocorreu com o Aeroporto dos Guararapes, recriado para o filme – o original foi desativado em 2004 – e com o Instituto Médico Legal.


Todos esses espaços nasceram da imaginação do mineiro Thales Junqueira, radicado em Recife desde a infância e responsável pela direção de arte de “O agente secreto”. Aos 38 anos, ele acumula currículo invejável.


Assinou a direção de arte de produções como “Homem com H”, cinebiografia de Ney Matogrosso dirigida por Esmir Filho; “Aquarius” e “Bacurau”, também de Kleber Mendonça Filho, o último em codireção Juliano Dornelles; e “Que horas ela volta?”, de Anna Muylaert.

No Globo de Ouro, onde conquistou a estatueta de Melhor Ator em Filme de Drama, Wagner Moura apostou em look da grife Maison Margiela Amy Sussman/Getty Images via AFP
No almoço dos indicados da 98ª edição do Oscar, Wagner Moura ousou no look. Com um monocromático marrom, o ator vestiu Zegna Kevin Winter/Getty Images via AFP
Na Noite dos Indicados do The Hollywood Reporter, em Los Angeles, na Califórnia, Wagner Moura chegou ao tapete vermelho com terno azul escuro Leo Bennett/Getty Images via AFP
Em Nova York, o protagonista de 'O agente secreto' surge em look todo branco para o New York Film Critics Circle Awards Cindy Ord/Getty Images via AFP
Fugindo dos tons escuros, Moura marca presença no 41º Annual Santa Barbara International Film Festival, em Santa Barbara, na Califórnia, com diferentes tons de azul claro Kevin Winter/Getty images via AFP
No 31º Annual Critics Choice Awards, em Santa Monica, na California, Wagner Moura investe em um look todo preto, com camisa que remete ao estilo de um quimono Frazer Harrison/Getty Images via AFP
Wagner Moura marcou presença no desfile da coleção de inverno masculina da Dior, na Semana de Moda de Paris. Ele apostou em um terno cinza e uma camisa com detalhes em xadrez Bianca Cruz/AFP
Wagner Moura aposta em terno preto, com um toque de cintilante, no Astra Film Awards, em parceria com o The Hollywood Creative Alliance em Beverly Hills Frazer Harrison/Getty Images via AFP


Agora, Thales Junqueira prepara “No jardim do Ogro”, de Carolina Jabor, estrelado por Alice Braga; um novo longa com Esmir Filho, e um ambicioso projeto de adaptação de “Os sertões”, de Euclides da Cunha, com o diretor português Miguel Gomes.


Ruas de Recife


Em “O agente secreto”, o trabalho começou com a leitura cuidadosa do roteiro, ao lado de Kleber Mendonça Filho, que o assina. O diretor queria filmar nas ruas da capital pernambucana, algo que muitos cineastas brasileiros têm evitado pelas implicações logísticas e financeiras.


“Além de caro, é difícil, porque as cidades se transformaram muito”, afirma o diretor de arte. “Diferentemente de muitas cidades, principalmente do chamado mundo desenvolvido, o Sul global passou por um processo de modernização tardia e atropelada. As cidades se deformaram muito rapidamente”, comenta.


Foi justamente o que ocorreu com Recife. O Centro antigo, onde boa parte do filme se passa, é um local que, nas palavras do diretor de arte, “já perdeu o prestígio e o dinheiro há muito tempo”. “Por isso, a rua foi o que mais me preocupou. O filme já trazia, desde o texto, a ambição de filmar a rua de forma absolutamente natural, como se estivéssemos em 1977. Eu sabia que seria um grande desafio – o que, de fato, se confirmou –, mas topamos encarar”, afirma.


O processo de criação da direção de arte foi longo e baseado exclusivamente em referências brasileiras. Entre as principais fontes consultadas por Thales estão os clássicos “Pixote, a lei do mais fraco” e “Lúcio Flávio, o passageiro da agonia”, de Hector Babenco, além de “Iracema – Uma transa amazônica”, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna. Essas obras ajudaram a construir uma estética que refletisse a “cara do Brasil”.


Reconstituição histórica


A pesquisa para a reconstituição histórica, por sua vez, foi realizada em conjunto por Thales, Kleber Mendonça Filho e Rita Azevedo, responsável pelo figurino. Parte do material veio do documentário “Retratos fantasmas”, do cineasta pernambucano.


Além disso, Thales e Kleber visitaram uma exposição de fotos de Jorge Bodanzky, no Instituto Moreira Salles, em São Paulo, com imagens feitas durante a ditadura militar (1964-1985). “Ali existia um Brasil que a gente tinha muito interesse em colocar na tela: urbano, caótico, precário, desigual, feliz e triste ao mesmo tempo… Tudo estava ali”, conta.


A direção de arte também se beneficiou da pesquisa da equipe de figurino. Muitas das imagens reunidas eram fotografias de álbuns de famílias simples e tradicionais dos anos 1970. Elas ajudaram a orientar a construção dos espaços íntimos da época, indicando quais móveis e utensílios eram mais comuns dentro das casas.


Entre as locações históricas utilizadas estão o Cine São Luiz, construído nos anos 1950, e o Ginásio Pernambucano, fundado em 1825. O colégio – o mais antigo em funcionamento no Brasil – serviu como a repartição pública onde trabalha o personagem de Wagner Moura. Para o filme, foram realizadas intervenções pontuais que não precisaram ser submetidas a órgãos de preservação, já que o prédio é tombado.


“Eu já filmei, por exemplo, em Paraty, que é inteiramente tombada. Era um filme de época que se passava no século 19 e eu precisava pintar algumas fachadas para que elas se parecessem com São Paulo naquele período. Tivemos que usar pigmento natural, para que saísse com facilidade quando fosse lavado. E tudo foi acompanhado pelos órgãos de fiscalização”, lembra Thales, referindo-se à cinebiografia “Doutor Gama” (2021), dirigida por Jefferson De.


Embora, “O agente secreto” dialogue com a tradição do cinema de autor norte-americano dos anos 1970, a arte, o figurino e a maquiagem são essencialmente brasileiros. Ao erguer prédios que já não existem e transformar ruas deformadas pelo tempo em cenários de outra época, a direção de arte faz mais do que ambientar a história. Ela cria o chão onde essa história pode existir.

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“O AGENTE SECRETO”
(Brasil, 2025, 161 min.) Direção: Kleber Mendonça Filho. Com Wagner Moura, Tânia Maria, Alice Carvalho, Gabriel Leone, Hermila Guedes, Maria Fernanda Cândido, entre outros. Classificação: 16 anos. Em cartaz no UNA Cine Belas Artes, às 17h30; BH Shopping, às 12h40 (sáb e dom) e 21h30; Boulevard, às 15h e 20h35; Cidade, às 14h30; Contagem, às 15h; Del Rey, às 15h; Diamond, às 21h; Monte Carmo, às 14h10; Partage, às 15h35; e Pátio, às 21h10.

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