Não é de hoje que o crime faz sucesso no audiovisual. Seja por assaltos ambiciosos de sagas como “12 Homens e um segredo”, seja pelas investigações assustadoras das séries de “true crime”, o gênero segue em constante atividade.


Para Bart Layton, que lança o longa “Caminhos do crime”, a resposta para esse fascínio está no rompimento do que separa o certo do errado. “Vivemos conforme a cultura e o status esperados de nós, mas há perfis que não se encaixam nesse sistema”, diz o diretor, que fez dessa noção sua assinatura.


Em “Caminhos do crime”, ele dirige perseguições mirabolantes, realizadas em locação e com carros de luxo, e reuniu um time de estrelas, como Chris Hemsworth e Mark Ruffalo. Por outro, preservou a moral duvidosa que determina os personagens de seus títulos anteriores.


“Há mais realismo e humanidade nessas figuras, ao contrário de arquétipos tradicionais”, diz Hemsworth, que interpreta o assaltante Mike Davis. “Não podemos reduzir o mundo a caixinhas, já que os códigos que nos movem são mais ambíguos do que podemos pensar.”


No filme, o protagonista surrupia malas de dinheiro sem envolver violência. Ele mantém a identidade sob sigilo, mas investigações policiais aumentam quando Lou, um detetive deprimido vivido por Ruffalo, vê um padrão entre os ataques – todos foram próximos à estrada 101, onde vidas se cruzam todos os dias.


Em tela, aliás, ora Layton registra acrobacias sobre o asfalto, ora filma coincidências que, na rodovia, antecipam os encontros do trio principal. É na junção desses dois tons que Sharon, corretora de seguros interpretada por Halle Berry, se junta ao conflito entre crime e justiça.

Convenções sociais

Decepcionada com a falsa promessa de uma promoção, ela vê o chefe privilegiar uma funcionária jovem e passa a suspeitar que as práticas da empresa são até piores que as dos ladrões no noticiário.
“Espero que mulheres que estejam nessa mesma fase de vida, na meia-idade, se vejam refletidas pela personagem”, afirma a atriz de 59 anos. “Talvez uma figura como essa possa motivá-las a não aceitar as convenções sociais dos ambientes em que se encontram.”


Enquanto Sharon considera tirar proveito de magnatas egocêntricos, Lou tenta se manter fiel às leis em que acredita. À luz de episódios recentes, o intérprete do investigador parece tão cansado quanto o seu personagem.


“Hoje, cada vez mais pessoas são levadas a tomar decisões difíceis. Tudo está moralmente mais relativo”, diz Ruffalo. Nos últimos meses, o ator se manifestou contra o ICE, órgão americano que vem perseguindo imigrantes com violência nos Estados Unidos, e condenou as ações de Israel na Faixa de Gaza, numa Hollywood de vozes cada vez menos ativas. “Hoje, a própria honestidade virou um gesto revolucionário.”


Enquanto “Caminhos do crime” espelha, mesmo que de forma indireta, a tensão das ruas americanas, a obra também reflete, nos bastidores, outro movimento – a proximidade cada vez maior entre os serviços de streaming e os estúdios de cinema.


O projeto é o segundo de uma parceria entre a Amazon e a Sony Pictures, pela qual títulos pensados para o sob demanda chegam às salas de projeção. Em janeiro, a ficção científica “Justiça artificial”, em que um homem tem sua índole analisada por inteligência artificial, inaugurou o acordo. O filme fracassou nas bilheterias e foi criticado por supostamente defender a tecnologia generativa.

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“Como vim do documentário, jamais teria feito este filme de uma forma que não parecesse a mais crível possível”, diz Layton, ao comentar sequências de ação feitas com efeitos práticos. “Se eu não seria capaz de acreditar em cenas feitas artificialmente, por que o público acreditaria?” (Folhapress

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