Grada Kilomba acrescenta "Ato III" à exposição "O barco", exibindo a videoinstalação "Opera to a Black Venus" - (crédito: Instagram/reprodução)
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“O que o fundo do oceano diria para a humanidade caso fosse esvaziado de água?” Foi esta pergunta que a artista portuguesa Grada Kilomba se fez ao desenvolver o trabalho “O barco”, imaginando o mar como sepultura de milhares de pessoas, sobretudo africanos que atravessaram o Atlântico na condição de escravizados ao longo dos séculos.
Em cartaz na Galeria Galpão do Instituto Inhotim desde 2024, a exposição de Kilomba guarda paralelos profundos com outro trabalho exposto no museu há dois anos: “Esconjuro”, do mineiro Paulo Nazareth. Ressignificando materiais do cotidiano, ele aborda ancestralidade, território, religiosidade e a história do Brasil.
As duas mostras rompem com a ideia de exposição estática. Foram concebidas como organismos vivos, que se transformam com o tempo. Ambas receberam ontem as últimas intervenções dos autores, que poderão ser conferidas até o final deste ano.
Coreografia
“O barco”, de Kilomba, incorpora a videoinstalação “Opera to a Black Venus” (2024) e exibe agora o “Ato III”. A gravação da artista, executando coreografia como se fosse a própria Vênus Negra, conta histórias de memória e resistência, lamentando as mortes no fundo dos mares.
A mostra reúne 134 blocos de madeira queimada, cuja disposição desenha o fundo de uma embarcação. Dezoito peças, que estão na área central, trazem os versos “Um barco, um porão/ Um porão, uma carga/ Uma carga, uma história”, do poema “O barco”, de Kilomba.
As madeiras de reflorestamento utilizadas pela artista não eram mais utilizadas.
A queima é quase performance – afinal, ao ser consumida pelo fogo, a madeira perde a própria “pele”.
“Grada é artista importantíssima para pensarmos a contemporaneidade”, diz a diretora artística do Instituto Inhotim, Júlia Rebouças. “É uma pensadora de primeiríssima ordem, seu trabalho fala de memória, história e, sobretudo, de processos de cura que apontam para o futuro”, acrescenta.
De acordo com a diretora de Inhotim, que assina a curadoria da exposição de Grada Kilomba ao lado de Marilia Loureiro, a autora não está apenas resgatando história e memória, “mas situando sua obra em um futuro”.
Em 2024, a portuguesa inaugurou “Ato I” em Inhotim, com performance protagonizada pelo Ensemble Lisboa, grupo composto por coralistas, percussionistas e bailarinos de diferentes diásporas africanas. O coletivo abordou a escravização por meio de movimentos, sons e cantos.
No ano seguinte, Kilomba reuniu o Ensemble Lisboa com artistas de Minas Gerais em nova performance, com diferentes gestualidades e repertórios. Foi o “Ato II”.
“Esconjuro”, de Paulo Nazareth, conecta Inhotim às mutações da natureza
Leandro Couri/EM/D.A Press
Estações do ano
“Esconjuro”, exposição de Paulo Nazareth, é desenvolvida em etapas. Inaugurada em abril de 2024, na Galeria Praça, com curadoria de Beatriz Lemos e Lucas Menezes, a mostra vem se modificando ao longo das estações. O que se viu no primeiro trimestre de 2024 já não era o mesmo em setembro, com a chegada da primavera. E assim sucessivamente.
O artista mineiro levou para Inhotim cachaça, banana e o pedalinho em formato de pato, colocado em um dos lagos do museu. Nazareth construiu um espaço de alvenaria que exalava a aguardente, batizado de “Casa de Exu”, responsável por abrir caminhos “para essa encruzilhada, esse Quadrilátero Ferrífero, as Minas Gerais”, disse ele ao Estado de Minas na época.
Por fim, foi plantado um bananal em um dos jardins do museu de arte. A fruta carrega múltiplos significados – pode representar o alimento de um ano inteiro ou remeter à expressão “república de bananas”, usada para ridicularizar o Brasil.
Também está ligada à vida íntima de Paulo Nazareth, cuja mãe costumava dizer que é nos bananais que os espíritos se escondem.
“O Paulo plantou bananas e agora plantou melancias. O artista vai mobilizar a instituição em um tempo mais dilatado”, ressalta Júlia Rebouças. “Nesse desafio das transformações da exposição, ele pensa o tempo da natureza e do plantio, algo fortemente engajado no projeto do Inhotim”, explica.
Para concluir o ciclo de “Esconjuro”, Nazareth levou o verão à mostra. Nesta última etapa, ele propõe uma experiência de síntese dos encontros entre memórias, vestígios e aprendizados ao longo de dois anos em cartaz no Inhotim.
O artista Paulo Nazareth na Galeria Praça do Inhotim
Leandro Couri/EM/D.A Press/2024
Véu da memória
A renda branca passa a revestir o espaço interno da galeria, como um véu que guarda a memória do que ocorreu ali. Paulo Nazareth também aproveita a arquitetura para transformar o local em uma espécie de oratório, no qual ritos e afetos se sobrepõem.
“São dois artistas contemporâneos importantes, que situam de maneira aguda e necessária as discussões do presente”, conclui Júlia Rebouças.
GRADA KILOMBA E PAULO NAZARETH “Ato III” (exposição “O barco”) e “Verão” (mostra “Esconjuro”). Em cartaz, respectivamente, nas galerias Galpão e Praça do Instituto Inhotim. O museu funciona de quarta a sexta, das 9h30 às 16h30, e nos fins de semana e feriados, das 9h30 às 17h30. Ingressos: R$ 50 e R$ 25. Entrada franca às quartas-feiras e no último domingo de cada mês.Informações: www.inhotim.org.br.