‘Tributo ao Rei da Jovem Guarda’ foca na fase roqueira de RC
Cesar Kiles revisita a carreira de Roberto Carlos, com repertório concentrado na produção dos anos 1960, em show nesta sexta-feira (20/2), no Palladium
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Em 17 de julho de 1967, Elis Regina, Jair Rodrigues, Geraldo Vandré, Edu Lobo e Gilberto Gil – que se arrependeu depois – lideraram a Frente Única da MPB em São Paulo, no intuito de defender a “pureza” da música brasileira, contra a influência do rock britânico e norte-americano.
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A manifestação entrou para a história como “Marcha contra a guitarra elétrica”. No entanto, o alvo ia além do instrumento musical, era a Jovem Guarda que estava na mira dos representantes da MPB.
Não houve contra-ataque formal nem resposta organizada. Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa seguiram fazendo o que já faziam: shows, programas de TV e lançamentos de discos que continuavam ocupando as paradas de sucesso. O público, por sua vez, não abandonou a Jovem Guarda. Ao contrário, manteve seus ídolos no topo, enquanto o debate fervia fora dos palcos.
É nesse contexto que está inserido o show “Tributo ao rei da Jovem Guarda”, de Cesar Kiles e banda, que será realizado nesta sexta-feira (20/2), no Grande Teatro do Sesc Palladium. Tudo na apresentação remonta a década de 1960. O cenário conta com elementos do Teatro Record, onde o Rei gravava o programa “Jovem Guarda”; a banda emula o tradicional RC7; o figurino é o mesmo das apresentações da época e o repertório transita pelos álbuns lançados entre 1961 e 1969.
Reconstituição
“A gente quis trazer justamente essa fase revolucionária e rock and roll do Roberto”, afirma Cesar, lembrando que divide a direção do show com Thiago Gentil. “Tentamos fazer uma espécie de reconstituição do Teatro Record, baseado nas poucas imagens que existem do programa. Não queríamos nada moderno. A ideia era voltar às origens”, acrescenta.
Cesar e Thiago Gentil já estão acostumados com esse tipo de projeto. Eles integram a banda cover dos Beatles Hey Jude, na qual tocam, há 10 anos, caracterizados como integrantes do conjunto britânico. A familiaridade com o repertório dos Fab Four, aliás, ajudou na montagem do setlist de “Tributo ao rei da Jovem Guarda” e na execução das músicas, devido à enorme influência que os Beatles exerceram sobre Roberto Carlos.
“A gente vê isso, principalmente, nos discos que o Roberto lançou em 1966 e 1967 [respectivamente, ‘Roberto Carlos’ e ‘Roberto Carlos em ritmo de aventura’]”, aponta Cesar. “A própria capa do álbum de 1966 é muito semelhante à de ‘With the Beatles’. Sem contar que a musicalidade também guarda certas semelhanças. Os Beatles bebiam muito da música barroca, o que a gente nota em ‘Roberto Carlos em ritmo de aventura’”, compara.
Inspiração
Existiram também outras fontes de inspiração. Entre elas, Elvis Presley, Little Richard, Chuck Berry e Rolling Stones, da qual o guitarrista de Roberto usou efeito semelhante ao de “(I Can't Get No) Satisfaction” em “Você não serve pra mim”, do disco “... em ritmo de aventura”.
As músicas da Jovem Guarda eram simples. Não havia a ambição harmônica que caracterizou a bossa nova, tampouco as letras metafóricas da chamada MPB. O que havia eram temas ingênuos, como namoro, ciúme e carros conversíveis vistos em canções como “Namoradinha de um amigo meu”, “Eu sou terrível” e “Quero que vá tudo para o inferno”, todas presentes no repertório do show de hoje.
“A Jovem Guarda veio de uma inocência muito grande. Tem esse lado puro, tanto musical quanto cultural. Mas isso não quer dizer que Roberto, Erasmo e os demais não sabiam fazer música. Pelo contrário, eles incorporaram elementos brasileiros à sonoridade estrangeira que servia de referência para eles”, diz Cesar.
“O Roberto mesmo curtia muito bossa nova e música brasileira em geral, que o influenciaram lá atrás. Acho que ele foi misturando isso com o que tinha de novidade na época. Por exemplo, em muitas canções ele usa violão de nylon, característico do samba e da música popular brasileira”, cita.
A disputa que opunha “pureza” e “influência estrangeira” soa anacrônica hoje. A guitarra, antes vista como ameaça, tornou-se parte indissociável da música brasileira – Gil, inclusive, passou a defendê-la com entusiasmo depois da manifestação de 1967. Os músicos brasileiros continuaram incorporando influências estrangeiras em suas canções. E Roberto… Bem, Roberto continua sendo rei.
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TRIBUTO AO REI DA JOVEM GUARDA
Nesta sexta-feira (20/2), às 21h, no Grande Teatro do Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro). Ingressos à venda por R$ 260 (plateia 2 / inteira) e R$ 220 (plateia 3 / inteira), na bilheteria ou no Sympla. Meia-entrada na forma da lei. Informações: (31) 3270-8100.