“Pontos perdidos”, primeiro romance de Deborah R. Sousa, começa com um colar que se arrebenta, espalhando miçangas para debaixo da cômoda. A narradora se abaixa, deita o rosto no chão e recolhe cada pecinha.


O ato de juntar as miçangas reflete a estrutura narrativa escolhida pela escritora, que, em capítulos curtíssimos, vai montando o retrato da protagonista Teodora Rago, avó da narradora.


Recém-lançada pela editora Impressões de Minas, a obra se constrói a partir da ausência de Teodora. Quando o colar se desfaz, a neta passa a investigar, de forma íntima, memórias familiares, histórias esquecidas e silêncios herdados pelas gerações seguintes.


“A escrita em fragmentos conversa com o fato de a avó ter demência senil”, diz Deborah. “A reconstrução da memória, afinal, é cheia de pontos perdidos. A gente não sabe nossa história inteira, a memória mente, não é linear. Ela nos fala em pedaços”, comenta.


Teodora não é uma mulher excepcional, revolucionária ou algum tipo de heroína. É uma como tantas outras, de personalidade forte. Tão forte que, aos 12 anos, “cuspiu na cara de um homem mais velho que tentou pegar, dentro do bonde, sem autorização, nas mãos de sua irmã. Aos 23, largou o noivo 13 dias antes do matrimônio para se casar com outro que amava mais… Aos 60, amoleceu e começou a se sentar no chão para brincar com os netos. Aos 80, passou a ler livros e artigos sobre feminismo. Aos 90, nos deixou”, conforme a narradora escreve.


Mesmo não tendo nenhuma atuação marcadamente extraordinária, é o que Teodora representa para a neta que faz toda a diferença, transformando “Pontos perdidos” em obra literária de densidade afetiva. O mais curioso é que a personagem ganha força à medida que sua ausência aumenta.


Bordados

A horta que ela cultivou permanece, assim como os bordados em tules e panos que continuaram a ser usados pela família e, principalmente, a lembrança de suas reações típicas em situações cotidianas. Ainda que Teodora não fale uma única palavra no livro, o leitor consegue conhecê-la muito bem pelas lentes da neta.


“Pontos perdidos” nasceu da vontade de Deborah de homenagear as avós. “As avós no sentido de mulheres de uma geração que, em sua grande maioria, trabalhavam no lar e estavam envolvidas com trabalhos manuais. Então, eu queria valorizar esse trabalho, que é tanto artesanal quanto criativo, e dialoga um pouco com o feminismo no sentido de enaltecer as mulheres”, afirma a escritora.


Com formação em psicologia, Deborah se vale de recursos dessa área para construir suas personagens. “Mas os personagens são feitos de palavras, de linguagem. Nesse sentido, eles nunca vão ser iguais aos seres humanos”, pondera. Portanto, “trazer verossimilhança e complexidade para os personagens tem mais a ver com o meu olhar para o outro, para o que está à minha volta”, completa.


Com suas personagens, Deborah tenta estabelecer um diálogo intergeracional entre a neta, que quer conhecer a avó de modo mais amplo, e a própria avó, que foi se perdendo aos poucos pela senilidade e, depois, pela morte. Trata-se de um jogo espelhado, no qual a narradora reconhece seus próprios pontos perdidos nos relacionamentos, na cidade onde vive, na relação com o corpo e nas cobranças que recebe da sociedade.


Embora seja grande admiradora de Machado de Assis, Júlio Cortázar, Clarice Lispector, Gabriel García Márquez, Lygia Fagundes Telles e dos romancistas russos (Dostoiévski, Tolstói etc.), é na literatura de Sylvia Plath, Patti Smith e Silvina Ocampo que “Pontos perdidos” estabelece paralelos mais fortes.


Assim como essas autoras, Deborah escreve a partir de um lugar muito interno. Expõe uma intimidade em carne viva, que, às vezes, incomoda. Além disso, cria uma atmosfera sensorial e emocional, na qual a morte parece estar quase sempre à espreita.


“Walter Benjamin disse que escrever é sempre reescrever. Foi justamente isso que aconteceu durante a produção deste livro”, conta Deborah, lembrando dos quatro anos dedicados ao romance.


“Nesse processo, para mim, é impossível não ser influenciada pelo que estou lendo no momento – tanto que eu cito ‘A queda do céu’, do Davi Kopenawa, que era minha leitura da época. Mas, ainda que isso aconteça, a literatura é uma arte própria. Eu nunca começo uma história tendo o desfecho pronto. As coisas vão surgindo à medida que escrevo. Além disso, a literatura tem seu próprio tempo de maturação. Você tem que deixar o texto de molho”, afirma.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia


“PONTOS PERDIDOS”
• De Deborah R. Sousa
• Editora Impressões de Minas
• 172 páginas
• R$ 65, nas livrarias ou no site impressoesdeminas.com.br

compartilhe