Jason Segel pegou o bonde de “Falando a real” andando, mas é difícil pensar na série, cuja terceira temporada estreia nesta quarta-feira (28/1) na Apple TV, sem ele. Acostumado a interpretar tipos emocionalmente desastrados, de uma beleza cotidiana e discreta, e frequentemente falhos apesar de sempre bem-intencionados, o papel do terapeuta Jimmy caiu-lhe à perfeição.

E, apesar de o ator californiano que completa 47 anos neste janeiro e admite adorar séries de true crime ter aparecido antes em duas séries megacultuadas, “Freaks and geeks” (1999-2000) e “How I met your mother” (2005-2014), é Jimmy o personagem que melhor mostra sua elasticidade dramática, indo do cômico ao melancólico, às vezes soturno, muito rapidamente.

“Bill Lawrence e Brett Goldstein aparentemente tinham ideias paralelas para a série sobre um psicoterapeuta em luto e decidiram combiná-las. Eles ainda nem tinham um nome, acho, e me chamaram com essa ideia meio crua”, conta Segel.

Lawrence e Goldstein escreveram juntos o sucesso “Ted Lasso”, e Lawrence tem no currículo uma lista longa de comédias do tipo “feel good”, para cima. Embora “Falando a real” tenha um tom dominante positivo, ela é mais sombria que as demais obras da dupla, tocando com delicadeza, mas frequentemente, em temas áridos como morte, dificuldade de diálogo entre pais e filhos, inabilidade social e vício. Segel sabia, porém, que a carreira pregressa lhe garantia pontos com o público.

“Disse para eles de cara que eu precisava escrever o meu papel, muitas vezes. É meio desconfortável dizer isso, mas tenho noção de que alimentei muito a boa vontade da plateia, as pessoas tendem a achar que sou bem-intencionado. Isso aconteceu com este personagem, as pessoas querem o melhor para ele. Então usei esse crédito para forçar a barra o máximo possível no sentido de ele estar zoado.”

De fato, Jimmy está longe de ser bom moço. Na primeira temporada, o conhecemos em crise após a morte de sua mulher em um acidente. Atropelado pelo luto, ele recai no alcoolismo e em outras drogas, esquece a existência da filha adolescente também enlutada (a ótima Lukita Maxwell), prefere a companhia de prostitutas. É um terapeuta embevecido com o próprio sofrimento, num típico “em casa de ferreiro, espeto de pau”.

Mas “Falando a real” trata de redenção, e aos poucos Jimmy sai do fundo do poço. Em muito pela técnica de terapia ousada que passa a aplicar em seus pacientes, acompanhando-os no dia a dia e se envolvendo pessoalmente com seus problemas, tudo que o cânone condena.

Em outro tanto, pelo círculo de amigos que resiste à sua revelia: os colegas de clínica (Harrison Ford e Jessica Williams), os vizinhos (Christa Miller e Ted McGinley), o amigo de infância (Michael Urie) e o paciente que vai morar na edícula (Luke Tennie).

Neste terceiro ano, reencontramos Jimmy sempre à beira de uma recaída. Ele está bem, até que mete os pés pelas mãos. Ele parece ter superado o trauma, até que percebe que não. Isso fica evidente na relação entre pai e filha, que aparece espelhada em outros personagens e suas próprias relações.

“O enredo permite que a gente vá mais fundo aí, em todas essas histórias. Pede que as pessoas sejam honestas, profundas e soturnas sobre aquilo que sentem. A série já passou por isso antes, no fim conseguimos tirar graça disso”, aponta o ator e roteirista.

“O coração da série é (a relação entre) Jimmy e Alice. Um cara tentando escrever a relação com a filha, a expectativa que uma criança tem dos pais, de que se algo acontecer os pais vão protegê-la”, diz. “Neste caso, uma coisa aconteceu com ela (a morte da mãe) e o pai fugiu do problema. Então ele vai ficar para sempre tentando consertar a relação com ela.”

Esse laço aparece, na contramão, na relação de Jimmy com o próprio pai (Jeff Daniels, em participação especial deliciosa), e com seu mentor, o terapeuta Paul (Harrison Ford, em um de seus melhores papéis; e olha que ele fez Indiana Jones, Han Solo e o Deckard de “Blade Runner”).

É um enredo que capta o zeitgeist, já que a geração de Seigel se vê as voltas com a criação dos filhos, ainda crianças ou adolescentes, ao mesmo tempo em que precisa cuidar dos pais, ensanduichamento que vai se tornar cada vez mais comum conforme a longevidade aumenta.

Paul, aliás, vê seu enredo próprio na série crescer. O personagem de Harrison Ford, um terapeuta tão bem-sucedido quanto rabugento, sofre de Parkinson, precisa confrontar sua finitude e, antes dela, suas limitações. É uma interpretação delicada e pungente do ator acostumado a heróis inabaláveis, que ganha ainda mais camadas nas cenas com Michael J. Fox, diagnosticado com a doença neurológica ainda jovem.


“Usamos Jeff como meu pai para explorar a dinâmica entre ele e o pai real, e com Paul, o pai postiço, para ver por que ele se ampara tanto e Paul. O que ele espera de Paul que não teve de seu pai”, comenta.


Redenção

Na mesma mão que a redenção vem o perdão, um outro modo de esmiuçar a relação central da série nesta temporada, mas não só ela. Há muito, no enredo deste terceiro ano, sobre perdoar os outros e a si mesmo. Afinal, esta é a única forma de o protagonista prosseguir (atenção para a participação especial, que promete ser recorrente, de Cobie Smulders).

“Falando a real” faz isso de forma suave, com graça. Ainda que por vezes derrape em algum clichê, tem na desenvoltura entre o familiar e o provocativo sua maior virtude. 

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“FALANDO A REAL”


• Terceira temporada da série, com 11 episódios. Estreia quarta-feira (28/1), na plataforma Apple TV

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