Guilherme Arantes se define como um operário da música. “Sou compositor. Nasci para fazer isso”, diz ele, que acaba de lançar “Interdimensional”, seu 29º disco – considerando também os registros ao vivo e “Moto Perpétuo” (1974), álbum da banda homônima que marcou sua estreia.
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Aos 72 anos, com cinco décadas de carreira solo, o músico desacelerou a rotina de shows depois de enfrentar uma série de problemas de saúde. Durante a pandemia, sofreu uma braquialgia grave e, com o uso prolongado de corticoides, desenvolveu necrose avascular na cabeça do fêmur, o que o levou a cirurgias no quadril. Também precisou passar por um procedimento cardíaco. A reclusão forçada, no entanto, foi decisiva para a concepção do novo trabalho.
Ao longo de 15 faixas, “Interdimensional” apresenta harmonias sofisticadas, modulações suaves e um piano que remete a Tom Jobim, Johnny Alf e João Donato. “Sempre fui apaixonado pelo piano bar. O Jobim fazia muito piano bar e eu era fascinado. Um dia, nós nos encontramos, ele chegou no meu ouvido e falou: ‘Você faz parte do nosso time. Seja bem-vindo!’ ´Dá para imaginar o quanto aquilo foi uma realização para mim?”, diz.
A influência da bossa nova é sutil – embora constante – nas canções do disco. Ela se manifesta de forma mais explícita em “O prazer de viver pra mim é você”, originalmente composta para Claudette Soares, mas que ganhou outro rumo ao longo do processo criativo. Segundo Guilherme, a música “acabou se tornando um portal criativo, abrindo a janela para um universo mágico de sonho”.
“Um sonho delicado de brasilidade moderna”, ele afirma. “A audição recorrente de elementos dos anos 1950 e 1960, como Julie London, Chet Baker e João Gilberto, se somou ao prazer de sentar ao piano para estudar e tocar Tom Jobim, Johnny Alf e João Donato, mergulhando na riqueza do piano brasileiro, do samba-canção e da bossa nova, que marcaram minha infância. Havia ali algo de renascimento”, conta.
Clube da Esquina
Se “O prazer de viver pra mim é você” dialoga com a bossa nova, “Libido da alma” traz referências ao Clube da Esquina, outro movimento musical decisivo na formação de Guilherme Arantes. Ele considera Lô Borges seu “pai musical” – ainda que a diferença de idade entre eles seja de apenas um ano – e diz que a obra do mineiro representou um modelo estético e emocional a seguir. Essa admiração evoluiu para amizade, a ponto de Lô convidá-lo a participar do disco “Os Borges” (1980), que contou ainda com Elis Regina e Milton Nascimento.
O Clube da Esquina surgiu para Guilherme Arantes como “uma bomba que explodiu na cabeça”. O impacto da voz, da figura e da música de Bituca foi arrebatador e decisivo, revelando um caminho possível de música brasileira livre, poética, harmônica e progressiva – capaz de misturar a toada do interior com estruturas sofisticadas e compassos pouco usuais.
Além disso, o papel dos letristas do movimento, como Fernando Brant, Ronaldo Bastos e os irmãos Borges, representou uma liberdade poética que influenciou diretamente sua forma de escrever as letras.
Essa mesma liberdade estética aparece em “O espelho”. A canção, que inicialmente se chamaria “Dos Descartes”, é um eletropop que dialoga com clássicos do próprio artista, como “Cheias de charme” e “Planeta água”. A letra parte da figura humana diante do espelho e do próprio envelhecimento.
“É o processo gradual de se acostumar à própria metamorfose sem jamais perceber a truculência do tempo”, explica o compositor no encarte do disco. Há ainda uma leitura narcisista da autoimagem projetada, como num espelho retrovisor, em que a vida e o mundo se tornam voláteis, reduzindo-se a um nada na estrada da existência.
Outra faixa de viés filosófico é a balada “Intergaláctica: Missão”, cuja letra é, segundo Guilherme, “uma declaração de amor que se expande até se tornar um diálogo com a instância máxima da criação”. Já “Sob o sol” resgata o rock em sua essência, com sonoridade próxima à de “A desordem dos templários” (2021), álbum anterior do artista.
Também se destacam “50 anos-luz”, que celebra sua trajetória; “A vida vale a pena”, única parceria do disco, com Nelson Motta; e “Berceuse”, canção de ninar composta para Alaíde Costa e gravada em “O que meus calos dizem sobre mim” (2022).
Fica claro que “Interdimensional” é um caleidoscópio rítmico, cujas faixas não obedecem à lógica do algoritmo e do streaming. “As músicas têm o tempo que precisam ter”, diz Guilherme Arantes. Ainda assim, há um elemento que atravessa todo o álbum e funciona como elo entre as canções: o amor, em suas múltiplas formas, como sentimento fundamental da experiência humana.
FAIXA A FAIXA
. “A vida vale a pena”
. “No mel dos seus olhos”
. “Minúcias”
. “Libido da alma”
. “Intergaláctica: Missão”
. “Enredo de romance”
. “O prazer de viver para mim é você”
. “Luar de prata”
. “Sob o sol”
. “O espelho”
. “Puro sangue (Libelo do perdão)”
. “Toda felicidade”
. “50 anos-luz”
. “Berceuse”
. “O prazer de viver para mim é você” – Instrumental
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“INTERDIMENSIONAL”
• Álbum de Guilherme Arantes
• 15 faixas
• Disponível nas plataformas digitais
