“O flow é do pântano, o milagre é do peixe e o mestre é o Milton”. Tais versos, de Criolo, estão em “Poeta fora da lei”, faixa de encerramento de “Fragmentado” (2025), álbum de Xamã. Reaparecem agora em nova roupagem, abrindo “Criolo, Amaro & Dino”. Recém-chegado às plataformas, o trabalho reúne, em 12 faixas, o cantor paulistano com o pianista pernambucano Amaro Freitas e o português de ascendência cabo-verdiana Dino D’Santiago.
“Não tem como não homenagear o mestre de todos nós, né?”, afirma Criolo, de 50 anos, a respeito da canção “E se livros fossem líquidos (Poeta fora da lei)”, que traz a celebração a Milton Nascimento.
Na gravação, os mesmos versos aparecem sob sonoridade jazzy classuda, conduzida pelo piano de Amaro.
Homenagem
Parceiros musicais que se conheceram por meio de Milton – foi ele quem sugeriu Amaro para gravar o piano em “Cais” e “Não existe amor em SP” no EP que lançou em 2020 com Criolo –, os dois intensificam a relação em um trabalho que celebra a amizade. “Não sabíamos o que íamos cantar, o tema, nada. O importante era a gente se ver, porque a gente se faz bem”, afirma Criolo.
Com capa assinada pelo artista plástico Vik Muniz, o álbum, bancado pelo trio, nasceu da forma mais natural possível. Voltando de Sevilha, onde esteve no Grammy Latino 2023, Criolo fez uma parada em Lisboa. Conheceu Dino por meio de um amigo comum. A conexão foi imediata. “Parecia que estava conversando com um irmão meu, que não via há muito tempo.”
No retorno ao Brasil, bastaram 10 dias para que Criolo ligasse para Dino falando do projeto dedicado ao samba do qual queria que ele participasse. Pegou um voo para Lisboa, levando na bagagem o computador onde faz beats.
“No quarto dia, fiz o refrão de ‘Esperança’. Cantei para ele no estúdio. Ele disse: ‘Vamos parar tudo, porque isso é muito forte, especial. Também quero participar’”, contou o artista português.
Lançado em maio de 2024, o single “Esperança” uniu o trio pela primeira vez e motivou o álbum. A colaboração concorreu a Melhor Canção em Língua Portuguesa no Grammy Latino daquele ano. No entanto, não está no disco.
As 12 faixas foram gestadas, em 2024, no Rio de Janeiro, Recife, São Paulo e Lisboa sempre que a agenda dos três permitia. “O que pautava nossos encontros era a nossa amizade e carinho. Isso, naturalmente, se traduziu em música”, acrescenta Criolo.
O álbum vai para várias frentes. Suave, com refrão fácil, “Anoitecer” começa com uma pergunta: “Amaro, cadê o Dino?” A dupla brasileira estava em estúdio no Recife, sem o companheiro do além-mar.
“Amaro estava em um teclado Yamaha bem antigo fazendo umas coisas. Daí eu comecei: ‘Teu sorriso no amanhecer, nosso amor no entardecer e anoitecer no teu beijinho’. Era a última coisa que fazíamos no dia, fui dormir com aquilo e, quando acordei, achei que precisava de uma pulsão.”
Foi no Recife que Criolo gravou com Maciel Salú a música “Menina do coco de carité”, com o sotaque regional/universal que só as rabecas têm o poder de proporcionar. A faixa contou ainda com as Clarianas, trio de cantoras negras do Campo Limpo, em São Paulo.
“Acho mágica essa junção de histórias da periferia de Recife (a origem de Amaro) com a periferia de São Paulo”, comenta Criolo.
Dino evoca o passado em “No vento de nós”, que conta com um belo trabalho vocal. Também a voz dele conduz a percussiva “Seka”. “Por mais que a gente encontre os assuntos e as histórias no olho no olho, nem sempre carregamos paz na mochila. É necessário um momento para desaguar nossas questões, um lugar seguro para saber quem se é”, poetiza Criolo, para falar da conquista que foi fazer o álbum no tempo e da maneira como o trio queria (e podia) trabalhar.
Mesmo que a reunião em estúdio tenha redundado em criação prolífica, no palco os três estiveram juntos uma única vez. No início de dezembro, apresentaram-se na festa de dois anos do bar Matiz, no Centro de São Paulo. Por ora, o primeiro grande show deverá ser em 13 de junho, no festival Primavera Sound, no Porto, em Portugal. Não haverá clipe por agora. “Custa caro”, afirma Criolo.
Simples e grandioso
Como será o show, ele não tem a menor ideia. “Esse trabalho é para a gente ser feliz. Vai ter tour? Não sei. Vão ser quantas pessoas no palco? Também não sei. Ele é tão grandioso que se a gente colocar uma big band, funciona. Ao mesmo tempo, tem uma simplicidade tão grande que se quisermos podemos fazer em formato hip-hop. Precisamos sentar e ver qual formato deixa a gente mais feliz.”
Sentar para conversar é outro processo, pois cada qual segue com a carreira individual. Criolo fechou 2025 com agenda cheia, “foram 80 pontes aéreas”, diz. No momento, pensa em novo disco de rap (seu álbum solo mais recente é “Sobre viver”, de 2022). “Vamos ver o que vai acontecer. Tenho um respeito tão grande pelo rap que não forço, deixo ele vir. Meus discos demoram, né?!”, finaliza.
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“CRIOLO, AMARO & DINO”
• Álbum de Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago
• Criolo Produções
• 12 faixas
• Disponível nas plataformas digitais
