'A viola caipira está em expansão no Brasil', comemora Roberto Corrêa
Instrumentista prepara disco em que a música medieval de origem europeia dialoga com a tradição violeira da cultura popular da Região Central do país
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Mineiro radicado em Brasília, Roberto Corrêa afirma que a viola está em expansão nos centros urbanos brasileiros. “Há uma espécie de movimento cultural da viola se espalhando pelo país”, assegura. Prova isso é o disco que ele vai lançar em fevereiro, em parceria com o grupo Música Antiga, vinculado à Universidade Federal Fluminense (UFF). O álbum une a tradição europeia, renascentista e medieval com as raízes musicais da Região Central do Brasil. “O resultado revela-se ao mesmo tempo singular e harmônico, explorando novos caminhos para a cena atual da música brasileira”, adianta Corrêa nesta entrevista.
O Brasil urbano se esqueceu da viola caipira?
Acredito que não. A viola caipira está em expansão no Brasil, principalmente, nos centros urbanos, com escolas de ensino do instrumento e orquestras de viola. O que observamos é uma espécie de movimento cultural da viola se espalhando pelo país. O mesmo acontece com as demais violas brasileiras: a de cocho, a machete baiana, a repentista, a caiçara e a de buriti. Esse movimento acontece tanto na música tradicional como na música popular, e mesmo com alguns trabalhos junto ao que podemos chamar de música erudita.
Cantores sertanejos que flertam com o pop estão deixando a viola, seduzidos pela guitarra e o som eletrônico. Isso é culpa do mercado fonográfico?
Esta pergunta, de certa forma, complementa a primeira. A viola caipira teve grande importância dentro do mercado da música com o sucesso das duplas caipiras. Entre as várias alterações no estilo dessas duplas até os dias atuais está a troca da viola por outros instrumentos. São transformações no mercado musical como um todo, uma cena cultural mutante, que envolve grandes gravadoras, produtores de shows, modismos, referências no mainstream internacional. A cena cultural da música de viola, assim como de outros estilos, como o choro, por exemplo, está viva no trabalho de músicos, pesquisadores e artistas talentosos que se voltam para as nossas tradições para criar uma música atual, contemporânea, mas com essa inspiração. São nichos, mas estamos fortes, vivos, e fazemos um trabalho novo e vibrante.
Como e quando a viola te encantou?
Ainda criança, observando grupos de catira e as visitas das companhias de reis às casas de minha cidade natal, Campina Verde, em Minas Gerais. Mas foi em Brasília, em 1977, que comecei a tocar o instrumento.
Você tem estudos e discos elogiados pela crítica. Ainda te falta reconhecimento?
Tenho a alegria de ter meu trabalho acolhido pela crítica sempre de forma elogiosa. Entendo isso como um grande reconhecimento. Tive também reconhecimentos institucionais como o da Câmara Legislativa do Distrito Federal, que me concedeu o título de cidadão honorário de Brasília em 2007. No ano seguinte, o Ministério da Cultura e governo federal me homenagearam com a Ordem do Mérito Cultural.
Tenho também, claro, o reconhecimento de meu público, que acompanha e prestigia meus trabalhos artísticos. É natural que, como artista, esteja sempre querendo falar com mais pessoas, atingir um público cada vez maior. E desejoso de que a beleza e a mensagem que minha música carrega façam sentido para as pessoas, as encantem, e contribuam para a forma como elas veem o Brasil e a cultura caipira. Tenho muitas coisas a dizer com o meu trabalho criativo e sigo fazendo.
Dos grandes violeiros do passado, quais destacaria? Badia Medeiros é um deles?
Com certeza, o Badia Medeiros é um deles. Posso ainda citar outros violeiros com quem convivi no início de minha trajetória musical: Zé Coco do Riachão, João Souza e Zé Mulato. São violeiros com forte ligação com a tradição que muito me ensinaram.
Há políticas públicas para divulgar e preservar a beleza da cultura caipira de raiz?
A cultura é um sistema vivo, que se preserva enquanto se transforma. Fico otimista em ver universidades e escolas abrindo cursos de viola, luthiers construindo violas cada vez melhores, instrumentistas se interessando pelas violas. Cuidar da nossa cultura é cuidar da nossa identidade. Políticas públicas de apoio à cultura nacional, com foco em memória e patrimônio, são importantíssimas para mantermos essas referências vivas.
Quais são seus projetos para 2026?
No fim de fevereiro, vou lançar um disco que está belíssimo, chamado “Viola nova – Roberto Corrêa e Música Antiga da UFF”. É um projeto que venho desenvolvendo há mais de um ano com o grupo musical mantido pela Universidade Federal Fluminense. O Centro de Artes da UFF é apoiador do projeto. O álbum é resultado do projeto que conecta a força musical da tradição europeia, renascentista e medieval com as raízes musicais da Região Central do Brasil. São composições minhas arranjadas para flautas, alaúde, violas da gamba, vozes, percussão e violas do Brasil interiorano. O disco “Viola nova” propõe novo olhar para a música regional e, no contexto do trabalho camerístico do Música Antiga da UFF, a leitura de obras de um compositor contemporâneo vivo. O resultado revela-se ao mesmo tempo singular e harmônico, explorando novos caminhos para a cena atual da música brasileira.
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O brasileiro está se esquecendo de suas origens?
Tem pessoas que vivem conectadas com modismos de sua geração e não se interessam por questões culturais e identitárias. No entanto, ainda tem pessoas ligadas a suas origens, buscando conexões com seu passado, com sua gente. Não tenho dúvidas de que a mudança social e cultural de um povo está fundamentada na educação, na leitura, no conhecimento e também na arte. Penso que o indivíduo deve fazer sua demarcação cultural, ou seja, cuidar e proteger o que é seu, sua origem e sua cultura dos modismos globalizantes. Podemos fazer uma analogia com o campo. Enquanto o agro aponta para o lado da monocultura – você já viu o que está acontecendo como nosso bioma, o cerrado? –, a gente aponta para o outro, trabalha como o pequeno agricultor, cultivando a diversidade de espécies, cuidando do cerrado, das nossas matas e rios. Não é tão lucrativo, isso precisa de apoio e incentivo. Mas é o que garante nossa permanência neste planeta. É assim que vejo a minha arte e o trabalho de tantos outros artistas como eu.