Quarenta e cinco anos depois de lançar o disco “14 Bis”, que marcou a estreia da banda homônima, Cláudio Venturini revisita histórias que ajudam a entender a dimensão do grupo mineiro na música brasileira.
O músico foi o convidado do programa “EM Minas”, da TV Alterosa e Portal UAI, exibido no último sábado (10/1). Na conversa, o vocalista e guitarrista do 14 Bis abordou os primeiros passos do grupo, a convivência criativa entre os integrantes, os bastidores de sucessos como “Bola de meia, bola de gude” e a relação fundamental com Milton Nascimento.
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O primeiro grande sucesso da história do “14 Bis”, o disco homônimo da banda, está completando 45 anos. Naquela época, tinha baixado a bossa nova, surgido os tropicalistas, os cantores solo, e as bandas começaram em bailes, não foi isso?
Só existia o Roupa Nova. Depois veio a gente. Fomos a primeira banda na [gravadora] Odeon. Todos os discos foram gravados lá. Inclusive, aquele estúdio foi inaugurado pelo príncipe Charles, hoje rei Charles.
Tinha uma placa com o nome dele de todo o tamanho lá dentro. Ali gravaram Milton Nascimento, Beto Guedes, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Cazuza, Barão (Vermelho)… Deus e o mundo.
Quando a banda se formou, seu irmão, Flávio Venturini, era o vocalista principal?
É, mas o 14 sempre teve vocal. A primeira voz era do Flávio, mas eu, o (Sérgio) Magrão e o Vermelho (José Geraldo de Castro Moreira), fazíamos vocal. Até hoje a gente tem uma primeira voz com um vocal em cima.
A banda também tinha influência do rock progressivo…
Em todos os discos, a primeira música era sempre um instrumental de uns 10 minutos.
“Bola de meia, bola de gude” é um dos maiores sucessos da banda. Qual a história dessa música?
Fomos produzidos pelo Milton Nascimento no primeiro disco. A gente gravou uma versão em inglês de “Canção da América” chamada “Unencounter”. No segundo disco, a gente tinha ido assistir ao Grupo Corpo (espetáculo “Maria, Maria”, cuja trilha foi assinada por Milton Nascimento e Fernando Brant) e escutamos essa música.
Ela não tinha letra, era só assovio. Fomos pedir ao Bituca pra gravar, e ele mandou a gente conversar com o Fernando Brant. O Brant ficou meio assim, porque teria que colocar muitas palavras de uma vez. Por fim, ele colocou sete palavrinhas que eu considero um lema de vida: amizade, palavra, respeito, caráter, bondade, alegria e amor.
Na década de 1980, vocês eram uma das maiores bandas do país. Vocês viviam fazendo televisão…
Fizemos até novela como atores. Se não me engano, em “Coração alado” (Globo). A novela tinha uma banda, que foi o 14 Bis. O líder dessa banda era o filho do Tarcísio Meira, o Tarcisinho. Puseram ele para tocar um pandeiro (risos).
Nesses 45 anos, vocês nunca brigaram?
De vez em quando, tem desavenças, mas nunca houve briga. A gente descobriu que é melhor não ficar no mesmo andar no hotel. E, se possível, nem morar na mesma cidade. Aí vai dar tudo certo.
Qual foi o ponto alto da carreira do 14 Bis?
Na década de 1980, a gente estava no Rio gravando e viemos fazer um show aqui em BH, no Minascentro. Quando chegamos, estava tudo lotado.
Naquela época, os ingressos eram vendidos só no dinheiro, e a gente guardava o dinheiro em caixa de sapato. E olha que loucura: eu lembro do nosso empresário passando no meio da multidão com a caixa de sapato lotada de dinheiro, indo e voltando.
Outro sucesso é “Linda juventude”. Ela é dedicada ao Milton Nascimento?
É. O Márcio Borges, na época, tinha tido alguma treta com o Bituca. Ficaram meio chateados um com o outro. Aí, eu lembro que o Flávio (Venturini) fez essa canção e mandou para o Márcio, que fez a letra, uma homenagem clara.
A música iria se chamar “Nascimento”, mas achamos que a referência ficaria muito óbvia. É uma homenagem ao Bituca, porque “zabelê, Zumbi e besouro” são os três negros. O zabelê é o pássaro negro, o Zumbi é o Zumbi dos Palmares e o besouro é negro também.
O que foi Milton Nascimento para o 14 Bis?
Foi fundamental. Quando Milton estava fazendo turnê nacional no final dos anos 1970, Flávio saiu d’O Terço. O Bituca pegou o Flávio e o Beto Guedes, gravou uma música do Beto e “Nascente”, do Flávio. E ainda fez uma turnê nacional com os dois.
A gravadora EMI disse que queria gravar um disco solo de cada um. O Beto fez “A página do relâmpago elétrico”. Já o Flávio falou: “Não, eu quero gravar com minha banda”. A gravadora não quis, mas, como o Milton topou produzir, eles aceitaram.
Nesse disco, o Bituca nos deu a famosa “Unencounter”, que é a “Canção da América”. No segundo, ele nos deu “Bola de meia, bola de gude” e, no terceiro, “Bailes da vida”. Todas inéditas.
Seu irmão esteve aqui com a gente também e falou da criação de “Mais uma vez”, com o Renato Russo. Teve alguma outra relação com a Legião Urbana? Vocês chegaram a fazer alguma coisa juntos.
Dividimos o palco algumas vezes. Tem uma história muito interessante que o Renato Russo contava. No nosso primeiro show em Brasília, quem é que estava abrindo? Um sujeito chamado Renato, com a banda Aborto Elétrico.
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O povo vaiava, queria tirar eles do palco de qualquer maneira para o 14 Bis entrar. O Renato ficou bravo com aquilo e depois me disse: “Sabe por que eu cantava com aquela voz (grave)? Porque vocês vinham com aquelas vozinhas de anjo, aquele negócio horroroso. Mas, hoje, eu entendo”. Ele até passou a cantar “Nascente”, do Flávio, nos shows da Legião.
