Um dos instrumentistas mais talentosos do Brasil, o violonista e guitarrista carioca Hélio Delmiro (1947-2025) fez a sua última participação em estúdio ao gravar “Certas coisas”, em 2023, com o cantor Augusto Martins. Produzido por Moacyr Luz, o lançamento da Mill Records chega agora às plataformas. As 12 faixas são assinadas por Tom Jobim, Lulu Santos, Milton Nascimento, Paulinho da Viola e Chico Buarque, entre outros compositores. 

Tudo começou com as visitas de Moacyr Luz a Augusto Martins, no fim da pandemia. “Moa vinha duas ou três vezes por semana à minha casa, a gente ficava conversando e cantando. Retomamos a antiga ideia de fazer algo juntos”, relembra Martins. “Ele sugeriu um disco com sonoridades eletrônicas, chamamos o Rodrigo Campelo e gravamos o ‘Minhas digitais’ na minha casa, onde tenho um ótimo estúdio.”

O álbum saiu em 2024. Hélio Delmiro fez algumas bases, a convite de Moacyr Luz. Os dois se conheciam há tempos, pois o violonista e guitarrista, já casado e com filhos, abrigou o jovem Moa, de 17 anos, em sua própria casa, quando a mãe do futuro sambista se mudou para o Recife.

“Essa generosidade do Hélio definiu a vida de músico do Moa”, diz Augusto Martins. O tempo passou, Delmiro tocou com estrelas da MPB, como Elis Regina, João Bosco e Djavan, e internacionais, como Sarah Vaughan. Tornou-se referência do jazz brasileiro. Os dois se reaproximaram no estúdio doméstico de Martins. 

 “Hélio Delmiro era uma lenda, tocava muito, sabia tudo. Primeiro, gravamos ‘Fotografia’ e ele veio com uma harmonia toda diferente. Cantei, ele adorou, olhou para o Moa e disse: ‘O Augusto tem baile’. A faixa ficou incrível, não cabia colocar nada eletrônico ali”, relembra Martins. 

Intimidade musical

Surgiu a ideia de um EP, que logo virou o álbum “Certas coisas”. Em um ano de trabalho, os três estreitaram a amizade. “Moa passava na casa de Hélio e o trazia para a minha casa, ficou uma coisa muito íntima. Aliás, é um disco íntimo e curioso. Fizemos um trabalho como antigamente, com tempo. O fato de eu ter estúdio em casa facilitou bastante”, explica o cantor.

Sintonia total: Moacyr Luz, Hélio Delmiro e Augusto Martins nos bastidores da gravação de 'Certas coisas'

Claudia Oliveira/Divulgação

“Hélio chegava, só sabia o tom da música e pegava a harmonia em um segundo. Não era só mudar acorde, ele mudava a levada ou fazia uma introdução completamente diferente, genial. Em ‘Sinal fechado’, ele faz, praticamente, uma melodia. Tem momentos incríveis, com introdução erudita, enfim, um negócio mágico. Hélio era tocado por Deus”, relembra Augusto. 

Insuficiência renal

Depois das gravações, o diabético Hélio Delmiro adoeceu. Nesse meio tempo, Martins lançou “Minhas digitais”. Ele e Moacyr Luz decidiram esperar que o amigo melhorasse para lançar “Certas coisas”. Porém, Delmiro teve insuficiência renal e se mudou do Rio de Janeiro, onde vivia sozinho, para Brasília, onde moram os filhos. Fazia hemodiálise três vezes por semana.

“Eu falava para ele: vamos lançar. Hélio dizia que não poderia fazer shows, mas ajudaria dando entrevistas”, conta Martins. Surgiu a ideia de convidar Marcel Powell, filho de Baden Powell, para a turnê.

Em junho de 2025, Hélio Delmiro morreu em casa, em Brasília, em decorrência de problemas renais. Tinha 78 anos. “Almoçou, ligou um jazz, foi dar uma descansada e não acordou mais. Ele estava há muitos anos sem gravar e ficou muito feliz em participar do nosso álbum. Dizia: ‘Fizemos uma coisa diferente, não parece um duo, parece mais que isso. Fiquei muito feliz com suas palavras”, comenta Martins.

A seis mãos

Construído por Hélio, Augusto e Moacyr, o repertório será apresentado na turnê do cantor com Marcel Powell. “Nunca gravei cantando em outra língua, mas agora cantei em espanhol, inglês e francês. O Hélio adorou, especialmente ‘All the way’, sucesso de Sinatra sugerido pelo Moa. Hélio fez um arranjo lindo”, conta.

Augusto Martins destaca também a inédita “Acanhado”, de Moacyr Luz e Hélio Delmiro. Outra faixa é “Fé cega, faca amolada”, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos. “Ele fez um arranjo lindo. Ficou meio etéreo, mas mantendo a mineiridade.”

A turnê “Certas coisas” começa agora em janeiro. No dia 25, Augusto Martins e Marcel Powell se apresentam no Blue Note carioca. 

FAIXA A FAIXA

“Fotografia”
De Tom Jobim

“Como vai você”
De Antônio Marcos e Mário Marcos

“Jardin d’hiver”
De Benjamin Biolay e Karen Ann Zeidel

“Certas coisas”
De Lulu Santos e Nelson Motta

“Contigo aprendi”
De Armando Manzanero

“Se alguém telefonar”
De Alcyr Pires Vermelho e Jair Amorim

“All the way”
De James Van Heusen e Sammy Cahn

“Acanhado”
De Hélio Delmiro e Moacyr Luz

“Fé cega, faca amolada”
De Milton Nascimento e Ronaldo Bastos

“Sinal fechado”
De Paulinho da Viola

“Bye, bye Brasil”
De Chico Buarque e Roberto Menescal

“De repente”
De Lulu Santos e Nelson Mota

Mills Records/divulgação
 

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

“CERTAS COISAS”


• Álbum de Hélio Delmiro e Augusto Martins
• 12 faixas
• Mills Records
• Disponível nas plataformas digitais

compartilhe