Ziraldo na redação da revista "O Cruzeiro", no Rio de Janeiro -  (crédito: Jair Amaral/ EM/D. A Press/Gedoc/reprodução)

Ziraldo na redação da revista "O Cruzeiro", no Rio de Janeiro

crédito: Jair Amaral/ EM/D. A Press/Gedoc/reprodução

Em meio às homenagens e reverência ao talento e à memória de Ziraldo Alves Pinto, o Ziraldo, um dos expoentes da literatura infantil brasileira, falecido no último dia 6, aos 91 anos, no Rio de Janeiro, um tesouro emerge dos arquivos do Estado de Minas.

 

Testemunha dos primeiros traços do multitalentoso chargista, escritor, designer gráfico e jornalista, a Gerência de Documentação (Gedoc) do EM, em Belo Horizonte, preserva preciosidades gráficas dos primórdios da trajetória do mestre, que novamente será lembrado no próximo dia 27 em sua terra natal, Caratinga, no Leste de Minas.

 

 

A homenagem é mais um reconhecimento da obra que ganhou destaque nacional pelas páginas das extintas revistas “O Cruzeiro” e “A Cigarra”, dos Diários Associados, e se propagou por décadas em outras publicações, nos cartazes de eventos, nas telas do cinema e na grande admiração dos brasileiros.

 

Nos arquivos do Gedoc estão desenhos originais de personagens que se popularizaram nas duas publicações e marcaram gerações, como o Pererê e sua turma, cujos integrantes receberam nomes de amigos do autor.

 

 

Detalhe do desenho de Ziraldo em que ele "posa" com seus personagens

Detalhe do desenho de Ziraldo em que ele "posa" com seus personagens

Jair Amaral/EM/D.A Press/reprodução/Acervo Gedoc

 

 

Na coleção de 1959, Ziraldo, com sua turma, está ao lado de importantes nomes da época: o mineiro de Curvelo Alceu Penna (1915-1980), famoso pela coluna semanal “Garotas do Alceu”; os pernambucanos Péricles (1924-1961), sucesso com o “Amigo da Onça”, e Carlos Estêvão (1921-1972); e Vão Gogo, personagem do carioca Millôr Fernandes (1923-2012), dono da coluna Pif-Paf (depois revista quinzenal).

 

Leia também: Inhotim abre sua primeira mostra dedicada a Paulo Nazareth

 

Em seus traços, além do Pererê, Ziraldo apresentava outro personagem, o Robô, que, em uma das tirinhas, surgia enferrujado e, ao ver uma lata de óleo de motor, sorvia todo o conteúdo com um canudinho.

 

Em desenhos a lápis, com marcações do editor para o diagramador da revista “O Cruzeiro”, dá para observar nitidamente que os personagens que ali ganhavam forma seriam atemporais. Os traços retratam situações que seguem atuais, sempre com pegada criativa e original, esbanjando bom humor e elegância gráfica. Ressoava ali a lição “a ideia vem primeiro, a forma, depois”, ensinada por Ziraldo.

 

A Turma do Pererê, criação de Ziraldo

A Turma do Pererê, criação de Ziraldo, encantou várias gerações de crianças brasileiras

Jair Amaral/ EM/DA Press/Reprodução/Acervo Gedoc

 

 

O mesmo tratamento se vê nas edições da revista “A Cigarra”, com a seção “A Cigarrinha”, para o público infantil. Numa edição de 1963, mostrando aos leitores “Como se faz o Saci Pererê”, o cartunista posa, no seu próprio traço, entre a turma de amigos, e escreve o nome de toda a equipe responsável pela produção dos quadrinhos. Tudo isso veio acompanhado de uma explicação simpática: “Porque, no fundo, apesar de ser quase um capetinha, o Saci era um molecote sempre risonho, e suas maldades eram mais engraçadas do que cruéis”.

 

Originalidade que deixou admiradores e discípulos

 

A atualidade, originalidade, suavidade e elegância preservadas no traço do artista mostram por que a notícia de sua morte comoveu o país e explicam as reverências à sua memória e obra, que serão retomadas em sua terra natal. A homenagem “Abraço, Ziraldo!”, em Caratinga, em 27 de abril, nasce no coração dos amigos, admiradores e discípulos do criador de “O Menino Maluquinho”, conta o cartunista e publicitário Camilo Lucas, de 61 anos.

 

Embora com 30 anos de diferença na idade, os dois tiveram convivência intensa, pois as famílias de ambos eram amigas. “Eu me tornei cartunista seguindo os passos de Ziraldo, que conheci aos 14 anos, aqui em Caratinga. Era meu mentor”, conta Camilo, que, em 2022, visitou, com a esposa Ana Karolina, o amigo em sua residência no Rio.

 

Ao ouvir Camilo Lucas e outros admiradores, o tempo e as lembranças se tornam aliados para iluminar os caminhos artísticos trilhados por Ziraldo desde a infância. “Era o Mestre Maior, com letras maiúsculas”, afirma o designer e quadrinista carioca Ricardo Leite, autor do livro “Ziraldo em Cartaz”.

 

Leia também: Mostra de Grada Kilomba em Inhotim expõe a arqueologia da vergonha

 


Ricardo Leite conta que a obra surgiu de um pedido do mineiro. “Imagine meu ídolo me pedindo para escrever um livro!”, revela o carioca que, desde a adolescência, não tirava os olhos do trabalho de Ziraldo e decidiu conhecê-lo da redação do jornal “O Pasquim”, no Rio.

 


Para Ricardo, Ziraldo figura entre os grandes nomes das artes gráficas no mundo. “Sem dúvida, um dos maiores. Era também diagramador, ilustrador, enfim, um Monstro, também com maiúscula.”

 

 

Cartaz criado por Ziraldo

Cartaz criado por Ziraldo

Reprodução

 

 

 


Ricardo trabalhou com Ziraldo na revista “Bundas”, publicada no fim da década de 1990 e início dos anos 2000, e com a turma do velho “Pasquim”. Responsável pelo projeto gráfico da publicação semanal, o designer guarda boas lembranças dos tempos de convívio. “Ele tinha uma visão estética impressionante, estava realmente acima da média.”

 


Ao falar sobre o tempo em que conheceu Ziraldo no Rio, Ricardo guardou uma lição jamais esquecida. “Adolescente, eu só queria saber de desenho, de quadrinhos, e ele me mandava ler. Dizia que arte é uma atividade cerebral, intelectual, e que ‘a ideia vem primeiro, depois, a forma’. Com o tempo, fui conhecendo a família dele, vendo seu jeito de trabalhar. Era um homem surpreendentemente seguro de si, dono de uma energia sem limites, uma pessoa que desconhecia timidez.”

 

Sobre a personalidade de Ziraldo, Ricardo cita os tempos da revista “O Cruzeiro”, onde, no fim da década de 1950, o mineiro despontou nacionalmente. “Ele já tinha feito alguns trabalhos, inclusive em Belo Horizonte, mas, naquela época, o Rio de Janeiro, capital federal, era um ‘tambor’ do Brasil. E Ziraldo veio para conquistar seu espaço. O primeiro emprego dele foi em 'O Cruzeiro', então a publicação mais importante do país.”

 

Com jeito extrovertido e comunicativo, o multitalentoso mineiro Ziraldo foi além da redação da revista mais importante de sua época. Tornou-se também um “cicerone de autoridades”, recebendo na redação de “O Cruzeiro”, no Rio, personalidades do mundo político, celebridades, artistas e outros famosos.

 

Parceria com dom Hélder

 

Em uma dessas visitas, conta o designer e quadrinista carioca Ricardo Leite, autor do livro “Ziraldo em Cartaz”, o artista conheceu o arcebispo dom Hélder Câmara (1909-1999), que inaugurava em 1961, no Rio, a Feira da Providência, um dos principais eventos socioculturais da capital fluminense.

 

A interação entre os dois foi forte, tanto que, desde a abertura da feira, Ziraldo fez todos os seus cartazes. Está no “Guinness Book” como o artista que assinou a maior quantidade de cartazes de um mesmo evento.

 

Cartazes de Ziraldo para a Feira da Providência, no Rio de Janeiro

Ziraldo criou cartazes para várias edições da Feira da Providência, no Rio de Janeiro

Youtube/reprodução

 


Admirador confesso do criador de personagens antológicos – a exemplo de Jeremias, o Bom, Supermãe, Pererê, que resultou em revista – e autor do livro infantil “Flicts”, publicado em 1969, ano em que ganhou o Oscar Internacional do Humor, na Bélgica, Ricardo Leite destaca outros sucessos de Ziraldo. Entre eles, o famoso Galo, símbolo do Festival Internacional da Canção, na década de 1960, cartazes de inúmeros filmes e de peças de Chico Anysio e Jô Soares, de quem era amigo.

 

Talento múltiplo e sem fronteiras

 

Em seu livro “Ziraldo em Cartaz”, Ricardo Leite conta um pouco sobre a trajetória profissional do artista gráfico. “No início da década de 1950, Ziraldo deixou Caratinga, em Minas Gerais, pequena demais para que pudesse exercer plenamente seu talento artístico, e partiu para Belo Horizonte. Depois, viria para o Rio e, anos mais tarde, alcançaria projeção internacional.”

 

Em Belo Horizonte, Ziraldo trabalhou, ainda muito jovem, na revista “Alterosa” e no jornal “Folha de Minas”. Criou anúncios para as agências de publicidade McCann Erickson e Standard.

 

“Desenhou aqui e ali, experimentando a ilustração publicitária e dando seus primeiros traços no cartum. Na revista ‘Graphis’, a ‘bíblia’ das artes gráficas, descobriu o cartaz, admirando os trabalhos de Raymond Savignac, Herbert Leupin, George Giusti, entre outros designers e cartazistas europeus.” Na primeira metade da década de 1950, em Belo Horizonte, Ziraldo decide seguir esse ofício, então chamado “affichiste”.


Ziraldo participa, então, de seus primeiros concursos de cartazes. Entre eles, a proposta elaborada para o II Congresso Nacional de Professores Primários. O cartaz ganhou o concurso, mas o exemplar impresso não sobreviveu ao tempo, apenas seu estudo.

 

“Pode-se verificar que, ainda jovem, Ziraldo já dominava completamente os elementos formais e simbólicos da construção da mensagem. O conceito estava inteiro, no simples risco de giz: a professora traçando o caminho e conduzindo o aluno pela vida.”

 

Desenho de dois elefantes feito por Ziraldo

Ziraldo sabia equilibrar, como poucos, forma, mensagem e humor

Jair Amaral/EM/D.A Press/reprodução/Gedoc

 


Em 1957, Ziraldo vai à Europa numa viagem comemorativa por sua formatura na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Na volta ao Brasil, poucos meses depois, consegue emprego nas revistas “O Cruzeiro” e “A Cigarra”, “coroando seus esforços para trabalhar no Rio de Janeiro”.


Naquele momento, escreveu Ricardo Leite, tais revistas de notícias e variedades eram muito influentes no Brasil.

 

“A popularidade de ‘O Cruzeiro’ era tamanha que estava sendo preparado o lançamento da sua edição internacional. Com seu desenho de humor ainda em formação, e sob forte influência de Saul Steinberg, André François, Ronald Searle e outros desenhistas estrangeiros, Ziraldo conquistou seu espaço como cartunista”, revela o autor.