A Alfaiataria Americana foi um dos locais registrados pelo fotógrafo Chichico Alckmin nos anos 1920; no centro, João Antônio Ribeiro, com a fita métrica em volta do pescoço -  (crédito: Chichico Alkimin/Acervo IMS)

A Alfaiataria Americana foi um dos locais registrados pelo fotógrafo Chichico Alckmin nos anos 1920; no centro, João Antônio Ribeiro, com a fita métrica em volta do pescoço

crédito: Chichico Alkimin/Acervo IMS

Quando a mostra “Chichico Alkmim, fotógrafo” foi inaugurada, em novembro de 2019, na Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard do Palácio das Artes, uma imagem feita pelo fotógrafo de Bocaiúva (SP) radicado em Diamantina ocupava posição de destaque: a fachada da então Alfaiataria Americana, de João Antônio Ribeiro, na cidade histórica mineira.


A foto da década de 1920 mostra as três portas do casarão onde funcionava a alfaiataria, com seis manequins vestindo costumes masculinos e mais 10 pessoas, entre clientes, funcionários, crianças e o próprio João Antônio Ribeiro, no centro da imagem, com uma fita métrica em torno do pescoço.


O semblante austero do alfaiate, orgulhoso de seu empreendimento, esconde uma verve delicada e sensível que seus conterrâneos conheceram, mas que acabou se apagando ao longo do tempo. João foi também poeta e membro da Academia Diamantinense de Letras, mesmo sem contar com educação formal (ele estudou até o que seriam hoje os primeiros anos do ensino fundamental).

 


Seus poemas chegaram a ser publicados em jornais da cidade e da capital mineira, entre as décadas de 1960 e 1970, mas nunca foram reunidos em livro. Até agora. Com apoio do cantor e compositor César Lacerda, neto de João Antônio Ribeiro, os poemas do Poeta Alfaiate, como João era conhecido por seus amigos, estão no livro “Folhas ao vento”, que será lançado nesta quarta-feira (13/3), pelo selo Mahin, da Editora Malê.


“Meu avô nasceu em 1894, seis anos depois da abolição da escravidão, e morreu em 1979, oito anos antes do meu nascimento. A presença dele, no entanto, sempre foi muito marcante. Seja pelas recordações carinhosas da nossa família, pelo prestígio que ele alcançou na cidade através das suas atividades ou por sua personalidade fraternal, evidenciada no testemunho daqueles que o conheceram”, conta Lacerda.


“Mas, para mim, meu avô esteve presente, sobretudo, através dos seus poemas”, comenta o músico, lembrando que João Antônio criou sonetos que versam sobre Diamantina, religiosidade e sensações íntimas que o atormentavam.


‘BARBAS DE ALGODÃO’

 

É nestas últimas que João se destaca, aliás. Sua sensibilidade se mostra com maior facilidade ao colocar no papel a confissão de um "Destino de barbas de algodão, / com um vaso humano a pulsar na mão / me pôs no peito: o coração vazio”, conforme escreveu em “Destino”. Ou então ao lembrar o fatídico dia em que, do campanário, ouvia “ o som de um sino, grave, funerário, / que da minha mãe anunciava o fim”, como registrou no poema “Minha mãe”.


Também é difícil ficar insensível diante de “Saudade”, quando “(o) gênio triste da saudade veio sentar comigo em minha porta; e me disse, talvez com bem maldade: / ‘Eu vim ficar contigo, não se importa?’”.


“Esses poemas mais intimistas são os meus preferidos”, diz Lacerda. “Mas não foi isso que guiou a escolha da disposição dos textos. Preferi fazer uma divisão por temática. Os primeiros poemas são homenagens que meu avô fez para Diamantina, depois vêm os textos com uma pegada mais religiosa e, por fim, esses mais intimistas. Acho que assim segue uma lógica mais coerente do que se tentasse fazer de alguma outra forma.”


Para ele, o livro é mais do que uma ferramenta para mostrar a produção poética de João Antônio, é também uma maneira que encontrou de tentar construir a imagem do avô, combinando “toda uma diversidade de fragmentos biográficos e afetivos que, seguindo o fio de sua própria poética, como ‘folhas ao vento’, chegaram a mim”.


“Recolho essas folhas e as observo. Busco compreender o fazer artístico ali para abrigar em mim seu ímpeto criativo. Tento conectar tudo isso que se apresenta diante de mim e percebo que isso também me constitui. Aos poucos, compreendo que, se esses versos chegaram até aqui, não foi por mero acaso ou sorte: a poética de meu avô me ensina que escrever é a busca pelo encontro”, afirma Lacerda.


O desejo da família de publicar os poemas de João não é recente. Lacerda lembra que, desde criança ouvia a mãe (a pianista e ex-diretora do conservatório de música de Diamantina Maria Eunice Ribeiro de Lacerda) falar sobre a produção do pai, que estava guardada pela família, mas nunca tinha sido publicada. Não por falta de tentativa. Foram vários esforços no intuito de editar o livro, mas nenhum bem-sucedido.


“Acho que já foi mais difícil publicar do que hoje em dia, apesar de o letramento no Brasil ainda ser uma questão”, pondera o músico. “Hoje tem mais editoras, com suas especificidades e características. No caso dessa edição, é interessante porque é um selo dentro de uma editora que só publica autores negros. Então, acho que essa maior diversidade que temos hoje facilita a publicação de diferentes autores”, observa.


No evento de lançamento, amanhã, Lacerda e a mãe, Maria Eunice, vão se apresentar gratuitamente no Teatro Santa Izabel, em Diamantina.


TURNÊ DE “DÉCADA”

Em paralelo ao processo de organização do livro “Folhas ao vento”, César Lacerda está em turnê com o show “Década”, comemorativo aos seus 10 anos de carreira.

 

O artista já teve suas músicas gravadas por Maria Bethânia, Gal Costa, Zezé Motta, Lenine, Maria Gadú, Filipe Catto e Ceumar, entre outros.

 

Ele assina parcerias com Ronaldo Bastos, Chico César, Paulo Miklos e Jorge Mautner. Ele se apresenta em BH no dia 19 de maio, no Cine Theatro Brasil Vallourec. Ingressos ar R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia), à venda no site e na bilheteria do teatro.


“FOLHAS AO VENTO”
• João Antônio Ribeiro
• Organização: César Lacerda
• Editora Mahin (78 págs.)
• R$ 38,40

LANÇAMENTO
• Nesta quarta-feira (13/3), às 19h30, em Diamantina, no Teatro Santa Izabel (Praça Dom Joaquim, 166, Centro). Entrada franca.