Juraciara Vieira Cardoso
Juraciara Vieira Cardoso
Professora da UFMG, graduada em Direito, mestre em Direito Constitucional e doutora em Filosofia do Direito
VITALidade

O preço de caber

Quando a harmonia depende de que alguém se encolha, a separação pode ser o caminho para voltar a existir

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Em um dia desses em que a gente não espera, fui convidada por uma antiga amiga para um café da tarde. No telefone, ela parecia bastante aflita, o que fez com que o encontro acontecesse já no dia seguinte. Quando cheguei, ela me disse, aos prantos, que estava se divorciando do marido depois de 14 anos de casamento. Mas o inquietante na situação é que ela dizia que ainda o amava profundamente, apesar de não ver mais possibilidade de conciliar a vida a dois ao lado dele.

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Numa cultura que é educada para o amor romântico, isso parece um paradoxo, pois, nessa lógica, casamentos só terminam por traição ou quando o amor acaba. Parece que algo dentro de nós rejeita o fato de que duas pessoas se separem quando ainda há amor.

Mas, por mais que recusemos tal hipótese, a vida real é muito mais complexa do que as histórias de folhetins podem nos ensinar. E a história da minha amiga é um indício de que é sim possível que uma relação termine e a convivência se torne inviável, ainda que o afeto permaneça. 

Em seu livro "A arte de amar", Erich Fromm nos alerta para uma confusão para a qual costumamos não atentar. Acreditamos que o maior desafio do amor é sairmos para o mercado de afetos e encontrarmos alguém que corresponda ao nosso ideal de objeto amado.

Mas o autor nos lembra que o desafio mais decisivo é justamente desenvolver a nossa própria capacidade de amar, já que o amor não vem pronto. Assim concebido, o amor é verbo ativo, que inclui cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento do outro. Amor é faculdade a ser aprendida e não simplesmente sorte ou acaso.

Para Fromm, um amor maduro acontece quando é possível que a relação exista e que, ao mesmo tempo, a integridade de ambos seja mantida. Em uma relação madura não há a anulação de uma das partes em benefício da outra. Uma relação que só sobrevive porque um dos dois desaparece é uma união simbiótica.

Muitas pessoas, para manterem-se em um relacionamento, começam a apagar gradualmente os próprios desejos, aceitando viver à sombra dos projetos do outro. Seja por medo do abandono ou por uma ideia bastante equivocada sobre doação, um dos parceiros vai encolhendo sua vida, muitas vezes, de modo a não se reconhecer mais no espelho depois de algum tempo.

Não sou ingênua a ponto de achar que é possível amor sem renúncias. Quando nos relacionamos, precisamos aceitar que nem sempre é possível fazer o que se deseja e isso, por si só, não significa que alguém está se anulando.

O problema surge exatamente quando essa renúncia, que recai sempre sobre a mesma pessoa, passa a ser a única maneira pela qual os desacordos são resolvidos entre o casal. Isso acaba fazendo com que essa pessoa, aos poucos, deixe de dizer o que sente ou pensa, pois sabe que seu desejo não será levado em consideração. 

Em alguns relacionamentos, como no da minha amiga, as crises se tornam evidentes justamente quando a pessoa decide voltar a participar das decisões que a afetam. O outro, acostumado que está com a dinâmica antiga, pode passar a interpretar a mudança como falta de amor.

Ele não consegue perceber que a convivência tranquila só era possível porque existia ali alguém que se anulava. Rever esse modo de se relacionar, permitindo que dentro da relação os dois tenham espaço e consigam manter sua personalidade, é um desafio que exige uma desconfortável mudança de posição, a fim de permitir que o outro também seja uma individualidade – e não somente alguém para satisfazer nossos desejos narcísicos.

No entanto, se apenas um está disposto à mudança, a continuidade da relação fica dependente de que aquele que tentou mudar aceite voltar para o lugar do qual pretendia sair, renunciando a parte de quem é em nome da relação. Minha amiga não aceitou. Repetiu várias vezes, naquela tarde, que ainda o amava, e eu não duvido.

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Contudo, entendeu que, por mais difícil que fosse se separar, era ainda mais difícil permanecer em uma dinâmica na qual, para caber, precisaria renunciar àquilo que lhe era essencial.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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