No ano passado, ficou famosa na internet uma trend que nos convidava a tomarmos um café com nossa versão de 20 anos atrás. Do mesmo modo que na internet, não faltam na arte exemplos de obras que fazem interpelação parecida. A insinuação, nos dois casos, é a de que nossa versão mais jovem ficaria, de alguma maneira, decepcionada conosco pelos projetos que abandonamos, pelas escolhas que não fizemos... Mas será mesmo que nossos sonhos da juventude devem ter autoridade definitiva sobre nossa vida adulta? Será que permanecemos os mesmos?
Não se nega que tais aspirações podem servir de algum parâmetro para analisarmos nossa própria realidade, sobre isso a internet e a arte não erraram. O que quero problematizar é o fato da nossa própria experiência de vida poder transformar o que desejamos, sem que essa mudança represente necessariamente uma traição a nós mesmos. Sem que esse desvio de rota seja visto como uma traição ao jovem de vinte anos atrás, como algo que não foi contemplado no checklist da vida, mas simplesmente como uma escolha diversa daquela que ele imaginava no passado.
Sobre o que não foi contemplado, temos duas opções. A primeira, pensar que ficou devendo isso ao seu eu mais jovem, ou então compreender que as formulações do passado nasceram das possibilidades que existiam ali e que as escolhas do presente refletem as possibilidades do agora, dado as escolhas que antecederam. O fato de termos tido um desejo sincero no passado não faz com que ele necessariamente permaneça no presente e, muito menos que direcione nossa vida.
Segundo o filósofo Paul Ricoeur, nossa identidade é narrativa e vai sendo construída ao longo da nossa vida. Não nascemos com uma essência fixa e a vamos descobrindo, ao contrário, construímos nossa identidade à medida em que vivemos. Para ele, interpretamos quem nós somos ao relacionarmos acontecimentos, ações e experiências, alguns deles escolhemos, outros não. E o mais importante, é que podemos sempre rever acontecimentos, aspirações, ações e experiências. Obviamente que não se trata de inventar uma nova biografia, mas de reler o que aconteceu a partir de outros pontos de vista. Portanto, o que Ricoeur está dizendo é que nossa identidade é narrativa e isso nos permite transformação e reinterpretação de nós mesmos, inclusive em relação aos nossos desejos.
Imaginemos que quando jovem eu desejasse ser presidente de uma multinacional. E agora, ao ver o trabalho de perto, não quero mais pois, por exemplo, percebi que as renuncias que eu teria que fazer para ocupar o cargo não justificariam as perdas que eu teria. Não há dívida a ser paga a meu eu mais jovem, a maturidade – ou chamem daquilo que quiserem – me mostrou, por exemplo, que há bens mais valiosos que fama, poder ou dinheiro, que eram os bens que talvez direcionassem minha vida aos vinte anos. Eu permaneço, mas meus valores se transformam.
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Portanto, se eu me sentasse hoje para tomar um café com minha versão de vinte anos, é possível que ela não compreendesse algumas das escolhas que fiz. Também não poderia, pois minha versão do passado ainda não viveu o que eu vivi nem viu seus valores mudarem à medida que a vida acontecia. Acredito, assim, que eu não teria uma dívida a pagar ou um pedido de desculpas a fazer. Apenas teria que lhe explicar que continuo sendo ela, embora alguns de seus sonhos já não sejam mais meus.
