Vocês já se perguntaram por que uma pessoa considerada complicada e, até mesmo desagradável em certos momentos, pode mobilizar a admiração pública? O paradoxo da pergunta está justamente no fato de sempre imaginarmos que o afeto coletivo se dirige com mais facilidade aos afáveis e aos que sabem manter uma boa imagem de si. Os reality shows despertam tanto interesse porque eles podem ser uma boa amostra de como nós somos e agimos sob pressão. O público projeta expectativas éticas sobre os participantes e, uma vez que eles correspondem, encontra neles uma referência que sente faltar no mundo aqui fora da tela.
Ana Paula, a participante mais cotada para vencer o BBB-26, é considerada “difícil” porque não facilita e não suaviza suas posições para agradar ou fazer média com os demais. Ela provoca e não dá vida fácil aos participantes. A doçura, sem sombra de dúvidas, não é seu principal atributo. Ao seu lado na casa há participantes mais simpáticos, porém, também mais oportunistas. E o público, curiosamente, anda preferindo alguém de convivência mais áspera, mas coerente. Para aqueles que a admiram, Ana Paula representa algo que parece estar em falta no mercado: uma pessoa com disposição para sustentar suas convicções, mesmo quando isso gera conflito ou exige um preço a ser pago.
O favoritismo da participante pode ter uma relação direta com o mundo em que vivemos, já que muitas de nossas interações são marcadas pelo cálculo e pela diplomacia estratégica, nem sempre acompanhadas de coerência com a nossa própria história de vida. O que assistimos na vida social são posições se alternando com facilidade e discursos se ajustando conforme o público. Nesse cenário, a coerência ética da participante Ana Paula, ainda que acompanhada de certa rudez nos modos, é percebida como virtude.
Mesmo os que não gostam dela são forçados a reconhecer a integridade de seu comportamento. Enquanto na casa todos se movem segundo cálculos e conveniências, ela parece agir segundo um critério relativamente simples: atuar conforme aquilo que acredita ser correto. Recusa-se a participar do jogo de ambiguidades e traições. Em vez disso, observa esse jogo, o pontua e sustenta os embates que ele produz. O preço que Ana Paula paga por essa postura é visível, já que afirma ter emagrecido mais de dez quilos desde o início do programa.
Como dito, Ana Paula não é simpática, e isso não é problema para o público, que está muito mais preocupado com sua integridade. Enquanto a simpatia é uma disposição social, a integridade é um compromisso conosco, que resiste à pressão externa. É de Hannah Arendt a observação de que a integridade moral se manifesta entre aquilo que uma pessoa diz ser e aquilo que ela efetivamente faz. A admiração, para Arendt, não se relaciona à simpatia que nutrimos por alguém, mas a uma forma particular de fidelidade àquilo que ela acredita, ainda que isso signifique prejuízo no jogo da vida.
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Ana Paula não se importa com os prejuízos e já aprendeu, inclusive, a não reclamar demais deles. Suas palavras e ações apontam consistentemente para uma mesma direção. E ainda que não gostemos da participante, é preciso reconhecer que sua postura e disposição para sustentar suas convicções, sem negociar a própria coerência em troca de aprovação, é justamente algo que falta ao debate público atual.
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Ana Paula vem fazer frente a essa escassez e a admiração que ela desperta é sintoma de uma carência coletiva. Em sociedades marcadas pela fluidez moral e pela constante negociação de posições, sua negativa em jogar o jogo social é vista como esperança de consistência moral numa época em que ela se tornou rara. Ana Paula nos revela que a coerência, mesmo que imperfeita, é algo que ansiamos no mundo aqui fora da casa também. .
