O carnaval, gostemos ou não, é tempo de alegria e de uma certa suspensão temporária de algumas regras morais. Alguns dizem que se trata de um tempo coletivo necessário para aliviar as tensões acumuladas ao longo do ano, como se a vida ordinária fosse pesada demais sem esse intervalo.
Mas o mais interessante é que, nesse tempo, o desejo é autorizado a existir sem que nele esteja atrelado qualquer promessa de futuro. É como se, por alguns dias, desejássemos sem projeto, apenas encontros de corpos e olhares, sem expectativa de continuidade: vive-se apenas o momento e a intensidade basta.
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Não há mal nenhum que assim aconteça, pois, sem sombra de dúvidas, há algo profundamente honesto nessa experiência. A época do carnaval nos ensina a aceitar o caráter efêmero de certas relações, sem dar-lhe o nome de fracasso, carência ou imaturidade. Nem tudo o que atravessa o nosso caminho foi feito para durar e admitir isso é sinal de discernimento.
Ao permitir que o desejo aconteça sem muitas promessas futuras, a festa valida algo que deveríamos reconhecer na vida, qual seja, que nem tudo é feito para ser sustentado no tempo. Assim, parece haver certa sabedoria quando se admite que alguns encontros se esgotam em si mesmos e que forçá-los seria algo ruim.
É importante frisar que não há que se falar que não existe verdade no efêmero, ela existe, só que sem a promessa de duração para lhe justificar. Tanto existe que o carnaval está aí para nos provar que uma experiência passageira pode ser experimentada como algo pleno e autêntico, sem que isso signifique necessariamente uma irresponsabilidade ou uma proteção indevida.
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E essa lógica só funciona tão bem porque é uma exceção e nós todos sabemos que na quarta-feira de cinzas retornaremos às nossas vidas ordinárias, com suas exigências de continuidade e responsabilidade. O problema acontece quando seguimos dentro da mesma lógica, apesar do fim das festividades, ou seja, quando nos blindamos contra qualquer possibilidade de desdobramento do encontro.
Do ponto de vista existencial, perdemos algo profundamente humano com essa lógica, pois quando nos fechamos previamente, seja por medo de sofrer ou por hábito, diminuímos muito nossa disposição de sermos afetados. Todas as relações que perduram no tempo implicam certa dose de risco para os envolvidos, seja o risco de que nossas certezas sejam deslocadas ou o risco de não sermos amados na medida em que gostaríamos.
Mas implica também uma grande possibilidade de transformação, na medida em que a relação amorosa nos ensina muito sobre partilha, doação, acolhimento e cuidado com o outro.
A vida vivida com intensidade é radiante, no entanto, a realidade não acontece apenas nela (creio que nem aguentaríamos). Somos seres estruturados pela ideia de continuidade: seja da relação amorosa ou de amizade, no trabalho ou naquilo que nos move rumo aos nossos objetivos. Só é possível construir a própria narrativa por meio dos encontros que nos acontecem ao longo da vida, pois somos seres-com-os-outros.
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Se começarmos a viver toda aproximação sob a lógica da ausência de promessa, certamente viveremos relações intensas, mas sempre de pouca profundidade. Em um primeiro momento, a superfície pode até parecer brilhar mais, no entanto, é só na profundidade que construímos as relações que realmente nos sustentam pela vida.
