Na semana passada saí com uma amiga inteligente e informada, que me disse não gostar do movimento feminista pois, segundo ela, os homens estariam à mercê de mulheres aproveitadoras, para as quais, tudo é violento. Não resta dúvida que há um feminismo estereotipado e barulhento, no entanto, a recusa a esse estereótipo não pode servir como álibi para ignorar a violência cotidiana que estrutura a experiência feminina. Os noticiários nos mostram que as mulheres são expostas às mais variadas formas de abuso: morte, estupro, abraços excessivamente apertados, apalpadelas em lugares “estratégicos” do corpo, que acontecem de uma forma tão sútil, que as vezes fica impossível deter o assediador.
Para aqueles que, como minha amiga, ainda acreditam que o movimento feminista tem como finalidade punir homens bem-comportados, o programa Big Brother Brasil da semana passada foi uma pequena mostra do que vive as mulheres no país. Um participante - dito cidadão de bem e casado – apertou o botão de desistência do jogo após tentar assediar uma participante na frente de todos os que assistiam em casa. Ele a acompanhou até a dispensa e, num movimento brusco, apertou seu pescoço e tentou beijá-la à força. Questionado sobre o ocorrido, disse que já fazia dias que estava se segurando para não cobiçar as mulheres da casa como um todo, mas especialmente a participante assediada que, segundo ele, era parecida com sua esposa. As palavras literais do participante desistente foram: “acabei caindo nisso: olhei para ela, desejei ela e achei que ela tinha me dado moral também mas, pelo que vi, era apenas coisa da minha cabeça.”
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O evento ganhou dimensão nacional por ter sido televisionado e pela perplexidade que tomou conta de todos nós: se na frente das câmeras há homens que agem assim, vocês já conseguiram imaginar o que muitos deles não fazem quando não há câmera e, por isso mesmo, há pouco risco de serem pegos em flagrante? Essa violência silenciosa e não televisionada que as mulheres sofrem todos os dias aparece na forma de uma invasão disfarçada de afeto ou de uma leitura propriamente masculina, que transforma desejo em autorização. Ela está nas brincadeiras repletas de intenções, que é muitas vezes interpretada como “excesso de sensibilidade” das mulheres. Em razão disso, essa brutalidade cotidiana encontrava dificuldade em ser nomeada, denunciada ou até mesmo reconhecida.
O problema revelado pelas feministas era a recusa social em levar a sério os abusos, isso quando as vítimas conseguiam denunciar. Foi exatamente o feminismo que ofereceu linguagem e categorias para nomear aquilo que antes ficava escondido debaixo do tapete das boas maneiras sociais. Elas transformaram um problema individual doméstico em um movimento político, rompendo o silêncio que confinava a violência ao espaço privado. Foram elas que nos mostraram que as experiências femininas de opressão configuravam, na verdade, uma estrutura social que reduzia as mulheres a coisas pertencentes aos homens e, por isso mesmo, sujeitas a toda sorte de brutalidade.
Foram também as feministas que interpretaram o assédio, não como um episódio isolado ou fruto de um temperamento feminino difícil, mas como algo que deveria ser analisado como prática recorrente, na maioria das vezes, sustentada por relações assimétricas de poder. Foi o feminismo que permitiu que mulheres como eu pudessem perceber que suas relações estavam permeadas por práticas abusivas, as quais eu nem percebia. Nós mulheres vivemos debaixo de tanta violência, real e simbólica, que é mesmo muito importante que a sociedade reconheça que nós não somos histéricas ou exageradas quando falamos de nossa vulnerabilidade frente aos inúmeros assediadores que cruzam nossos caminhos todos os dias, em qualquer lugar, inclusive na casa mais vigiada do Brasil.
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