Sérgio Abranches
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Campanha para audiência fria

A pesquisa Quaest encontrou, na espontânea, 51% do eleitorado indeciso. Eu acrescentaria, desmotivado, indicando provável índice elevado de alienação eleitoral

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Escrevo logo após quatro dias em Paracatu, MG, para o Fliparacatu. Foram dias intensos de festival literário, mesas com alguns dos principais expoentes da literatura brasileira contemporânea e o angolano Mia Couto, debates sobre temas relevantes, sobre o Brasil que escrevemos e o que queremos. Focado nos livros, passou longe da campanha. Auditório lotado e atento. Ao final do dia, revia as entrevistas dos candidatos no “Jornal Nacional”, que contraste. Perguntas e respostas passaram longe dos grandes temas nacionais e internacionais. A pesquisa Quaest encontrou, na espontânea, 51% do eleitorado indeciso. Eu acrescentaria, desmotivado, indicando provável índice elevado de alienação eleitoral, que soma brancos nulos e não-comparecimento.

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Lula teve que responder a insistentes perguntas sobre o filho e quase nada sobre políticas públicas. Um caso em investigação e que gira em torno apenas da amiga de Fábio Luís e do chefe de gabinete da Presidência. O presidente disse que seu auxiliar direto errou e terá que pagar pelos malfeitos. Flávio Bolsonaro mentiu a entrevista toda. Ele negou que exista mudança climática. Essa negação é ignorância ou falsidade. A mudança climática é um risco existencial para a vida no planeta. O tempo para impedir que atinja um grau catastrófico encurta com a omissão dos governos.


Ronaldo Caiado mostrou não ter noção do que fazer, fora anistiar os condenados pela tentativa de golpe do 8/1 de 2023. Zema, como Caiado, mostrou não ter ideia de políticas para o país, nem da viabilidade de algumas de suas vagas ideias sobre o que fazer. Defendeu a anistia aos golpistas e negou ter havido golpe. É autoritarismo maquiado para iludir eleitores. Se o golpe fosse consumado, os que foram condenados por tentar executá-lo estariam no poder e não na cadeia. O crime é tentar, não consumar o golpe.


O destaque das entrevistas foi a defesa de anistia aos golpistas, ameaças às instituições de freios e contrapesos democráticos e ameaças à democracia sempre veladas. Lula ficou isolado na defesa da democracia. Da perspectiva do eleitor as entrevistas em nada ajudaram na escolha do melhor candidato para cuidar do Brasil. Só o presidente Lula tinha visão de políticas públicas para a gestão, embora sem apresentar novidades. Parece estar apostando na aprovação do projeto de fim da jornada 6x1 como a política de impacto para um um quarto mandato. Aposta na PEC da segurança para atender a uma preocupação da maioria dos eleitores.


Os debates foram esvaziados pela ausência dos principais candidatos. Esse modelo esgotou. A inclusão de candidatos sem chance, promove o desfile de nulidades e propicia nebulosas alianças entre candidatos que nada têm a perder para ajudar o filho 01 de Bolsonaro que tenta clonar o pai, até agora sem sucesso. O modelo dos Estados Unidos parece ainda ter alguma relevância, mas é um sistema bipartidário e o debate é organizado por um pool, que dá continuidade e uniformidade aos confrontos entre os dois candidatos. Candidatos independentes ou apoiados por terceiros partidos não participam.


Não é difícil entender a falta de empolgação do eleitorado. É bastante evidente que todos querem mudanças. O presidente Lula não tem mudanças para propor. Apenas a continuidade que, diante da inconsistência das propostas de novas políticas dos vários candidatos de oposição, tende a ser atraente ao eleitor. A garantia de respeito à democracia e defesa das instituições o diferencia dos demais candidatos.


O horário gratuito não ajudará muito a informar ao eleitor. Mas, na pesquisa Quaest, 30% dizem ainda se informar pela TV. É um indicador de que os spots de propaganda eleitoral inseridos ao longo da programação podem ter mais impacto do que as entrevistas e os debates. As redes digitais controladas por plataformas privadas são fonte de informação de outros 30%. Nelas está a aposta da campanha de Flávio Bolsonaro, porque o bolsonarismo está organizado como partido digital, em campanha permanente. O PT ainda usa as redes com uma estratégia analógica. Não há ainda um meio ágil e preciso para avaliar o grau de influência que o partido digital terá além da militância petista e do lulismo que é maior que o petismo.


Na eleição de 2018 e, em menor grau, no pleito de 2022 o partido digital teve alcance para além do bolsonarismo na mobilização para sua eleição porque ele é motivo do bolsonarismo. O filho 01 não tem os mesmos atributos do pai e sua tentativa de imitá-lo não parece convencer os não bolsonaristas. Aumenta a rejeição entre os eleitores independentes que se afastaram de Bolsonaro por sua comprovada liderança na tentativa de golpe.

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A questão da democracia continuará na agenda eleitoral por causa dos ataques que ela sofre detodos os candidatos da direita. O tema da corrupção também. No momento, só se fala do filho doLula. O presidente não está envolvido no inquérito. O caso Vorcaro compromete o Bolsonaro 01 eestá sob o manto do segredo de justiça pelo relator, ministro André Mendonça.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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