As incertezas serão fator decisivo no pleito presidencial. A eleição será novamente polarizada entre Lula de um lado e direita e extrema direita, de outro. Pesquisa Meio/Ideia, com tipologia do politólogo Christian Lynch, identificou 35,5% que se dizem de esquerda, 16,1%, de direita e 9,7%, de centro-direita. O campo de direita teria então 25,8%. Se a autodefinição prevalecer, este voto já está definido. Por quem os candidatos competirão? Pelos 22, 6% que se dizem de centro. Seria o espaço para a terceira via, com Eduardo Leite, que Kassab desprezou.
Pela primeira vez, desde a eleição de 1989, que elegeu Collor para seu efêmero mandato presidencial, a direita aparece múltipla e dividida. Collor compartilha com Jair Bolsonaro a condição de ex-presidentes condenados, em prisão domiciliar por terem saúde frágil. Logo eles que ostentavam sua virilidade machista. Bolsonaro será lembrado por seu comportamento desumano na pandemia, zombando dos moribundos.
Os três candidatos correm no veio das paixões tristes e da rejeição raivosa a Lula. Portanto, dividirão os votos de eleitorados-chave nos campos conservador e extremista. Caiado fundou a União Democrática Ruralista (UDR) e pode atrair fatia expressiva do voto e do dinheiro do agro, em Goiás e no restante do Centro-Oeste. Talvez divida com Flávio redutos ruralistas em São Paulo, no Sul e no Norte. O eleitorado anti-Lula em Minas Gerais deve votar mais em Zema. Lula é forte no Nordeste e em Minas.
Os três direitistas desprezam a democracia e querem anistiar os golpistas. Compartilham o negacionismo delirante que não viu o golpe de Bolsonaro. Lula pode, na ausência de uma terceira via, se aproveitar e tentar conquistar eleitores de centro que condenam o golpe bolsonarista. No total, beiram os 60%. Dá para inferir que a maioria do centro também condena o golpe.
O presidente encontrará obstáculos na corrida pela reeleição. Sua popularidade está baixa. A rejeição é alta. A disputa mais importante será pela captura dos eleitores de centro. Lula pode se beneficiar com o golpismo dos adversários, mas está com a popularidade baixa e os fatores de incerteza global podem prejudicar a avaliação de seu desempenho. Todavia, ele tem mais habilidade para buscar o centro.
Uma zona de incerteza é geopolítica. A campanha de Israel em Gaza e no Líbano para cumprir o objetivo de Netanyahu de expansão territorial e extermínio dos palestinos. Os ataques dos EUA e Israel contra o Irã, muito subestimado pelos dois. A invasão russa à Ucrânia também para realizar a ambição territorial de Putin. Todas afetam a economia global. Não sabemos quando cessarão os conflitos. No Irã, o acordo para acabar a guerra é incerto. Não se sabe se ele será mesmo fechado e, caso seja, quanto tempo resistirá antes que um dos lados volte às hostilidades. Netanyahu é o menos confiável e pode furar o acordo.
São variáveis que afetam o setor energético e a produção agrícola que depende de insumos do Oriente Médio. A demonstração pelo Irã de que pode fechar o Estreito de Ormuz adicionou um grau superior de risco à economia política global. O impacto do fator geopolítico na oferta de energia fóssil e de fertilizantes reduz o crescimento e pressiona para cima a inflação. De positivo fica o estímulo a investir em energia zero-carbono, o que tem sido tendência nas crises do petróleo. São fatores que podem ter influência negativa na votação de Lula.
Outra zona de incerteza é política. A escalação das chapas presidenciais não fechou. As peças no tabuleiro podem mudar. Estou considerando que os três ficarão na disputa e dividirão os 25,8% da direita. Lula não terá concorrência pela esquerda e centro-esquerda.
As pesquisas de intenção de votos não retratam ainda o quadro real. São uma medida do grau de reconhecimento dos pré-candidatos e da proporção de eleitores que lembram o nome deles, o que se mede melhor na espontânea. Intenção de voto só depois de fechadas as chapas. No retrato de hoje, apenas Lula e Flávio são lembrados. Na pesquisa Meio/Ideia, Lula tem 32.6% de menções e Flávio 19,4%. Zema e Caiado não chegam a 5%. A espontânea de Lula quase alcança os 35,5% da esquerda. Os candidatos que negam o golpe e querem anistiar os golpistas sofrerão com a relembrança da invasão das sedes dos poderes em 2023? Talvez sim.
A terceira zona de incerteza é o impacto das informações saídas de investigações de corrupção. Flávio será prejudicado por novas evidências de rachadinha, da lavanderia na loja de chocolates, dos imóveis comprados além de sua capacidade financeira? A quem o escândalo do Banco Master atingirá? O eleitor está com fadiga eleitoral de Lula? Lula vai largar na frente e é bom de campanha. Resta saber se manterá a pole position até a chegada nas urnas. A surpresa do voto é fator de segurança democrática. A prática do voto direto faz bem ao eleitor. A incerteza é indicador de democracia. Resultados garantidos previamente só em autocracias, como a Rússia. Esperemos outubro chegar.
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