Duas notícias que ocuparam nossa atenção nos últimos dias dão uma ideia de como o Brasil se move desconjuntado rumo a incerto futuro. A condenação dos mandantes do assassinato de Marielle Franco foi um avanço no atraso na luta para acabar com a impunidade no país. Especialmente a enorme quantidade de feminicídios. O trágico desastre em Juiz de Fora, mostra que as cidades brasileiras estão em uma armadilha urbana à mercê de eventos climáticos extremos. Um atraso que se projeta no tempo a indicar mais tragédias à frente.

 

 

O julgamento foi histórico e tardio. Condenou os irmãos Brazão, mandantes do assassinato de Marielle no atentado que vitimou também Anderson Gomes, a penas justas e proporcionais aos crimes cometidos. Um avanço no atraso. Não ter deixado impune esse brutal crime de feminicídio político é um avanço. Mas, são muitos os crimes impunes. A condenação dos mandantes é importante porque a Justiça não ficou restrita aos executores diretos. Pune-se também um dos braços no estado do Rio de Janeiro da rede de poder e corrupção que lidera, acoberta e protege criminosos no Brasil.

Não faltou emoção no julgamento. A ministra Cármen Lúcia, em voto memorável, mostrou indignada emoção e tristeza. Eu entendo a ministra. É um dia de emoção para as mulheres e, em especial, para as mulheres negras. A violência e a impunidade dos crimes contra a mulher no Brasil estão fora dos limites civilizatórios. Imagino a emoção da família de Marielle Franco vendo a justiça alcançar os mandantes e os principais envolvidos na trama assassina. O Tribunal do Júri já havia condenado os dois executores diretos, Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, em outubro do ano passado. Mas, faltava quem mandou matar Marielle. Agora não falta mais. Quem mandou está condenado e preso.

O julgamento não alcançou toda a rede criminosa à qual este crime pertence. Há muitas marielles assassinadas no Brasil, cujos assassinos não foram alcançados pela lei e pela Justiça. Há uma rede criminosa que domina territórios, corrompe e mata, por trás de muitos crimes impunes, como a matança de jovens negros nas periferias. O controle de territórios por facções e milícias tem ramificações no poder público. Todos os condenados neste julgamento eram agentes públicos. Felizmente, no caso, a Justiça foi exemplar, ainda que tardia.

 

 

 

A tragédia de Juiz de Fora, como muitas outras, poderia ter sido evitada. As cidades brasileiras não estão preparadas sequer para se proteger de eventos recorrentes de mesmo grau de intensidade. E já passamos desse ponto. Estamos na fase de eventos novos e mais severos. Não basta se preparar para a mesma força dos eventos climáticos. Os eventos climáticos extremos aumentarão, e com maior gravidade. Não bastam investimentos para prevenção de desastres – modestos, diga-se. É preciso investir – e muito – em adaptação, isto é, na preparação para eventos cada vez mais extremos. 

Não é opinião. É evidência copiosa gerada pela observação da mudança climática pela ciência. A gente fica sabendo pelos boletins do tempo que os temporais deste verão se devem ao fato do Atlântico estar mais quente. Pois é, a ciência alertou que aconteceria. Os oceanos todos do mundo estão mais quentes, absorvem mais calor e evaporam maior quantidade de vapor d’água. O fenômeno novo, dos últimos 3 anos, é estarem todos mais quentes ao mesmo tempo. Os desastres do socioclimáticos estão associados a anomalias causadas pela mudança climática. Não são eventos fortuitos. São esperados. Imprevisível é onde, quando e com que intensidade acontecerá o próximo. Mas é certo que ele virá. 

Esses desastres não são climáticos. São socioclimáticos e têm um forte componente político. A indiferença política global negligencia a necessidade urgente de ações concretas de adaptação do à mudança climática. Nenhuma surpresa. A política não agiu para mitigar o aquecimento global. O ambiente construído com vasta ocupação territorial inadequada e irregular está à mercê dos eventos extremos. Os que moram e trabalham nele estão em uma armadilha, serão inevitavelmente atingidos, perderão tudo e muitos morrerão. 

 

 

A receita da adaptação é cara, porém é mais barata do que conta dos desastres. O mais urgente é eliminar a ocupação das áreas de risco já definidas e mais as que se tornarão vulneráveis com o aumento inevitável dos eventos climáticos e de sua intensidade. Implica em construir habitações  em lugar seguro e realocar parcela significativa da população. Recompor matas ciliares e eliminar construções que estreitam o vão dos rios. Acabar com áreas impermeabilizadas para permitir melhor drenagem da água. Reestruturar a ocupação do território urbano e devolver áreas ao ambiente natural. É o básico. 

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Ninguém está fazendo o mínimo dever de casa no Brasil. Investimentos em prevenção são cortados. Zema reduziu em 96% as verbas para prevenção em Minas, em 3 anos. Investir em adaptação, nem pensar. Quantos desastres serão precisos para cair a ficha? Sem renovação da elite política a ficha não cairá.

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