Eu fico impressionado como está sempre em pauta em vários segmentos a questão da redução da escala de trabalho 6x1 em que o trabalhador atua seis dias e descansa um. Esse tema é vendido como um sinal de modernidade e avanço social. Mas, há um detalhe incômodo nesse debate que muitas vezes ninguém comenta sobre ele.
Os países que discutem a redução da jornada de trabalho geralmente são muito mais produtivos que o Brasil, que tem um processo de desenvolvimento bastante lento.
Não é adequado que o país enfatize esse assunto, se ainda há tantos passos importantes a serem dados antes de chegar nesse tema tão polêmico.
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Alguns segmentos tais como o governo e sindicatos, defendem que reduzir a jornada representa a possibilidade de mais tempo para a família, para o descanso e para a própria vida. Há por parte destes, a argumentação de que os avanços da tecnologia e dos novos modelos de trabalho deveriam permitir uma distribuição mais equilibrada do tempo entre trabalho e vida pessoal.
De outro lado, estão os economistas e muitos empresários que veem essa questão de forma menos onírica, pois, observam pela lente da produtividade e da capacidade real da economia do país.
Eu chamo isso de visão onírica, porque enxergar o Brasil como um país desenvolvido, de alta produtividade e pronto a reduzir o trabalho é um erro muito grande, que pode ser prejudicial para as empresas públicas e privadas, e para os trabalhadores.
A questão é que os países que estudam o assunto, ou adotam jornadas menores geralmente conseguem produzir muito mais riqueza por hora trabalhada. Como discutir redução de jornada, num país de tão baixa produtividade média como o Brasil atual?
Os países que adotam jornadas menores geralmente conseguem produzir muito mais riqueza por hora trabalhada do que outros países que trabalham mais horas, porém produzem menos riqueza econômica.
Na Europa existem várias experiências de semana de quatro dias de trabalho. Em algumas empresas, funcionários trabalham menos e mantêm o salário.
Isto pode ser explicado por um maior acesso à tecnologia, qualificação e eficiência econômica que fazem com que o trabalho aconteça de forma mais rápida e eficiente. Sempre cito o caso dos Estados Unidos, em que cada hora de trabalho gera aproximadamente três vezes mais valor econômico do que o Brasil. Esse país, mesmo se diminuir a jornada, ainda sustenta uma economia forte.
Um empresário me perguntou o porquê dessa diferença. A resposta não é difícil. Nesses países, os trabalhadores operam com mais tecnologia, lidam com processos mais organizados e treinamentos constantes. Lá, as máquinas são mais modernas, os sistemas digitais de gestão são realmente utilizados e a logística é eficiente, sendo constantemente inovada.
No Brasil, ainda se perde muito tempo com burocracia, equipamentos defasados, pouca qualificação e muitas atividades improvisadas. O brasileiro não trabalha pouco, pelo contrário, mas a economia produz pouco por hora trabalhada. O sistema econômico transforma esses esforços em menor riqueza.
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Gosto de citar o setor de varejo e de serviços no Brasil. O atendimento é despreparado, onde muitos vendedores conhecem pouco dos produtos ou serviços, e não sabem identificar a necessidade dos clientes. Isto provoca demora, trocas, devoluções e cancelamentos de serviços. São muito marcantes as filas demoradas nos caixas, sistemas lentos de processamento de pagamentos, layouts de lojas mal planejados, tempo perdido procurando produtos, comunicação interna falha e, vários outros.
Problemas como esses são alguns dos causadores da baixa produtividade que acabam impactando negativamente no resultado das empresas e da economia em geral.
Na indústria temos muitos freios de produtividade média. Prevalecem problemas como infraestrutura deficiente, estradas precárias, portos congestionados e transporte caro.
Além disso, a logística ainda é lenta e cara, em que transportar produtos dentro do Brasil pode custar mais caro do que exportá-los. Há um excesso de tempo na busca de licenças, autorizações e obrigações administrativas, bem como sistema tributário complicado e ambiente regulatório instável. Esses são apenas alguns dos fatores de retardamento e limitação da produtividade neste setor.
Uma possível redução de jornada no Brasil traria um impacto negativo imenso nas empresas, especialmente no comércio e nos serviços, que dependem de funcionamento diário. Diminuir os dias de trabalho pode obrigar muitas empresas a ter que contratar funcionários ou pagar bem mais horas extras, elevando custos em setores da economia que já operam com pequenas margens.
O resultado seria o oposto: redução de lucros, fechamento em determinados dias, principalmente aos domingos, levaria à diminuição do quadro de funcionários e certamente ao processo de repassar preços aos produtos e serviços.
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Minha percepção é inspirada no Nobel de economia Paul Krugman, quando diz: "A produtividade não é tudo, mas no longo prazo é quase tudo". Em outras palavras, antes de discutir trabalhar menos, os países em desenvolvimento precisam aprender a produzir mais.
