Algumas falas lançadas nas redes sociais e na política não podem ser ignoradas e desprezadas, porque se tornam rumores que alimentam preconceitos e disseminam ignorância. Infelizmente, em nosso país, isso costuma ganhar corpo sólido e reforçar retrocessos. Episódios dão notoriedade a pessoas que nunca tiveram relevo no mundo político. Elas passam a contar com visibilidade, principalmente daqueles que desejam conservar o mundo como na era do patriarcado, que tanto lutamos para superar.
Por esse motivo, insisto: esses rumores precisam contar com respostas esclarecedoras e politicamente corretas, sob risco de petrificarem espíritos menos iluminados. É o que não nos falta se observarmos, por exemplo, o aumento do feminicídio no Brasil, especialmente em Minas Gerais.
Lembrem-se de que Jair Bolsonaro, em 2003, ganhou ampla repercussão na mídia por seu valor negativo, ofendendo a colega deputada Maria do Rosário (PT-RS), com um insulto misógino. Disse que ela não merecia nem ser estuprada, por ser feia e não fazer parte de seu gênero. Foi obrigado pela Justiça a se retratar publicamente. Ainda assim, ganhou notoriedade inédita, amealhando aqueles que têm valores patriarcais.
É inacreditável que um político desponte por esses valores e chegue à Presidência do país, o que indica que grande parte da população concorda com ele. Este foi apenas um episódio, e o cito para enfatizar que certas ideias lançadas ao vento, por piores e mais nefastas que sejam, encontram simpatias e amealham ignorâncias, misoginias, machismo e, por incrível que pareça, votos...
Por isso, não devemos nos esquecer de onde viemos para não perdermos a direção. Quem não sabe de onde veio não sabe para onde vai. A declaração misógina de Paulo Figueiredo, até então o pouco reconhecido neto de João Figueiredo, último presidente da ditadura brasileira, precisa ser repudiada. Uma sementinha que não pode frutificar.
Isso é apenas efeito dos bastidores a que estamos familiarizados, outra ilustração do processo de localização e referência ao que passou, mostrando falta de fundo. Devemos continuamente introduzir ideias opostas, de luz e altura.
A mulher esteve sob o jugo do homem e submissa até meados do século 19. O Iluminismo abriu campo para movimentos de libertação feminina, dando-nos o direito de aprender a ler, estudar, ter profissão e liberdade.
No início do século 20, tivemos o movimento feminista e sufragista no Brasil, apesar da resistência masculina. Eles não desejavam perder poder e o domínio sobre todas as esferas da sociedade. Acreditavam que as mulheres não deveriam votar por agirem com a emoção, ao contrário dos homens, que votariam com lógica. Ainda está lá a mentalidade de Paulo Figueiredo.
“Mulher vota estatisticamente muito mal, principalmente mulheres solteiras. Mulheres casadas em geral tendem a acompanhar o voto do marido”, afirmou o neto do general-presidente.
Custo a entender como no século 21 alguém, como Paulo Figueiredo, tenha coragem de expor a misoginia tão abertamente, apesar de tantos movimentos feministas e conquistas em favor da igualdade civil entre homens e mulheres. É um espanto e um retrocesso absurdo. O voto é direito histórico inegociável, este senhor precisa ser informado disso.
Por causa dessa misoginia, ainda paira nas mentes obtusas e pouco esclarecidas a ideia de que as mulheres não podem desejar e também não podem deixar de desejar, fato que justifica as altas estatísticas e a onda de feminicídio em nossa sociedade.
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Ainda há homens descontentes que, se pudessem, voltariam no tempo, colocando a mulher “em seu lugar”, isto é, sem direitos, opinião, liberdade e submissa. Isso alimentaria o ego dos inseguros, cuja virilidade não pode ser afrontada. E é sustentada pelo desejo feminino, sem esse perdem a “macheza” e pensam em recuperá-la com sangue, como se fosse “crime de honra” (vide o primeiro julgamento do assassino de Ângela Diniz).
