A Editora Scriptum lançou, no último sábado (7/3), mais um volume de sua coleção Interditos, organizada por Welbert Belfort e Faustino Rodrigues, editor que assina a orelha do livro “Entre o cair e o despertar: um fim de análise”, do psicanalista Domenico Cosenza.
Domenico é psicanalista em Milão e professor na Universidade de Pavia e no Instituto Freudiano de Milão, e membro da Scuola Lacaniana di Psicoanalisi (SLP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP).
Publicou “Clínica do Excesso: derivas pulsionais e soluções sintomáticas na psicopatologia contemporânea” (Scriptum, 2024), “A recusa da anorexia” (Scriptum, 2018), entre outros, que são importantes por tocarem em modos de sintoma atuais e frequentes.
O excesso é uma forte característica de nosso tempo, onde tudo é demais. Os efeitos do enfraquecimento da figura paterna e dos limites legais necessários para a saúde mental se mostram evidentes: informação, consumo, diversão e a busca intensa de felicidade provocam o gozo sem ponto de basta.
Tanto quanto soluções sintomáticas como as toxicomanias, o alcoolismo, a violência, a corrupção, as anorexias, as bulimias e muitas outras. Trata-se de uma leitura atualíssima e importante na clínica contemporânea.
Domenico participa de um interessante projeto na Universidade Federal de Minas Gerais: Janela da Escuta. Também contemplado com uma coletânea de mesmo título da Coleção Interditos pela Editora Scriptum, na qual vários autores se debruçam sobre uma clínica dos excessos com pacientes adolescentes.
Esse trabalho com a escuta na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), foi inaugurado pelo respeitado Dr. Roberto Ferreira de Assis, hoje sob coordenação da psicanalista Cristiane Grillo.
Nesse novo livro, que apresento hoje, relata o percurso de sua análise e a singularidade dessa experiência pessoal até o passe. Ou seja, de conclusão da análise, experiência única e, segundo o autor, irrepetível.
O passe é um mecanismo de transmissão das conclusões das análises, proposto por Jacques Lacan em sua Escola e, nas palavras do editor Faustino Rodrigues, Cosenza o aborda, não como formalidade institucional ou confirmação de percurso, mas como um momento de ruptura, em que o real se impõe, derrubando identificações, garantias, e saberes acumulados.
Nesse momento, de conclusão, algo precisa cair para surgir o desejo, e um sujeito dividido, porém livre da imposição de seus fantasmas, suas máscaras, ideais e narrativa ficcional prenhe da consistência fálica.
A queda das imposturas até que soçobre um sujeito em um caminho melhor fora do sonho da repetição, nas palavras de Sergio Mattos, que apresenta o livro. E nos indica que, dessa queda, não surge um puro nada, mas o Sinthoma, que não permite colapsar a estrutura, trata-se, antes, de promover um despertar em que a sustentação estrutural deixa de ser imaginária ou fantasmática. Esse Sinthoma, descreve Mattos: não restaura o chão perdido, mas cria um modo de se manter em pé sem chão.
E é esse percurso que Cosenza percorre em dois momentos de sua análise, numa leitura leve que envolve o leitor, levando-o a avançar com entusiasmo. Apontando para a experiência de cair fora do próprio inconsciente, com clareza e precisão. E, principalmente, demonstra que a experiência é original, construção e desconstrução, singular e própria de cada sujeito.
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De um “cair” que de fato se repetiu durante toda a sua vida, com fraturas e rompimentos, se deslocou para o “cair na análise”. Cair torna-se o significante central que lhe permitiu acesso ao seu programa inconsciente, sua pré-história familiar, e a saída da solução sintomática de salvar o “Outro” para a pacificação de tornar-se desejante. Bonito relato, que transmite com clareza o valor de uma análise.
