A política da economia no mundo
"Em eleições (…) escolhas com impacto distributivo de renda ganham aparência de necessidade técnica. Seja para cortar ou para expandir"
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Paul Samuelson, laureado já no segundo ano de existência do Nobel de Economia — quando a fila era muito mais longa do que hoje —, escreveu o livro-texto que dominou mundialmente a formação de economistas na segunda metade do século 20. Segundo relatos confiáveis, ele entendia seu poder e gracejava: “Pouco me importa quem escreve as leis de uma nação, se eu puder escrever seus manuais de economia”.
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Ele nunca poderia imaginar que montar um instituto de pesquisa e manipular dados políticos e econômicos nos levaria ao mundo em que vivemos hoje. Antigamente, formar o olhar e as práticas de gerações para as ações do Estado significava influenciar quais perguntas merecem resposta, quais políticas contam como possíveis e quais argumentos parecem respeitáveis.
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Esse poder tenta reaparecer todo dia nos telejornais: “minha fonte junto aos economistas”; “os economistas apontam”, “muitos economistas avaliam”, “economistas demonstram”. Frequentemente, essas fórmulas são usadas para vestir afirmações com um manto místico de respeitabilidade incontestável. Também é bastante frequente que nem se diga com clareza a que “economistas” se referem. A palavra por si só é usada tal qual um espantalho graduado.
Em eleições, o recurso se intensifica: escolhas com impacto distributivo de renda ganham aparência de necessidade técnica. Seja para cortar ou para expandir. E há sempre a relevante circulação entre lado privado e lado público feita por economistas engajados. Trump já seguiu o conselho dos seus: prometeu US$ 5 mil para todos os americanos se vencer as eleições de novembro para o Parlamento.
No centro da economia global — EUA, Europa Ocidental, Japão e, cada vez mais, a China — a circulação é mais teórica, ocorre mais entre universidades e o poder que as financia. Nos países pobres a circulação é mais prática e ocorre entre sistemas de crédito e poder político. Os EUA popularizaram ambos os modelos. No Brasil há um pouco dos dois. Quem tem boleto a receber é governista, quem tem a pagar é oposicionista.
Em Washington, no início do mês de outubro, economistas e outros cientistas sociais de ponta e gestores públicos projetaram crescimento mundial de 3,2% em 2026 e 3,1% em 2027; enquanto os Estados Unidos cresceriam 2,3% e 2,2%; a Área do Euro, 0,9% e 1,1%; e o Brasil, 2,0% e 1,4%. Vejam que o Brasil cresce o dobro dos principais países da União Europeia neste 2026. E a expectativa de 1,4% para 2027, que ainda segue acima do crescimento europeu.
Há exemplos dessa circulação entre universidade e poder. Projeções dependem de premissas, inclusive geopolíticas, e as Universidades são melhores do que os governos quando querem pensar livremente. O mapa do crescimento acompanha disputas por energia, equilíbrio climático, mercados e domínio tecnológico.
Parte muito relevante do capital internacional enxerga o Brasil com mais entusiasmo do que parte barulhenta do capital nacional, à qual só parece interessar ganhos de curto prazo que não demandam investimento. Quanto mais a renda do país se eleva por habitante, mais difícil fazer tal país crescer.
Enquanto países atrasados podem crescer adaptando tecnologias existentes, quando se aproximam da fronteira, precisam inventar para sair da periferia. Para inventar melhor precisam de divergir menos sobre política e se educar melhor para investir em ciência e tecnologia. Pantanal, Cerrado e Caatinga, por exemplo, três biomas brasileiros, estão à beira do ponto sem retorno. Vão virar deserto. Alguém já viu a política se interessar por isso?
A convergência com o mundo rico é uma condicional para o crescimento dos países em desenvolvimento. Depende de reconfigurações políticas capazes de calibrar inconformismos desnecessários. Depende de educação política mais do que educação básica e fundamental. Depende de mais dinamismos do que apego às estruturas. Depende de respeito às instituições, boas regras e investimentos.
Os EUA seguem crescendo com a única coisa que sustenta crescimento se você quer ficar e se manter rico: respeito ao conhecimento e inovação sem se deixar contaminar pela política. Por lá, tanto democratas quanto republicanos investem tubos de dinheiro público nisso. A IA é uma nova variável importante nessa trajetória de convergência da renda.
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Para o Brasil viabilizar infraestrutura precisa também formar profissionais, desenvolver fornecedores, conectar empresas menores e ampliar pesquisa. Se por um lado nossa energia limpa é vantagem, usar tecnologia importada sem aprendizagem profunda e transbordamento local pode é reforçar dependências e a dificuldade de se manter entre as 8 maiores economias do mundo, que é onde o Brasil deve sempre estar.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.