Marcílio de Moraes
Marcílio De Moraes
Jornalista formado pela PUC Minas em 1988, com passagem pelos jornais Diário do Comércio e O Tempo. Trabalhou em coberturas de leilões de privatização e em feiras internacionais
BRASIL EM FOCO

BC agora terá um olho na inflação e o outro no PIB

A avaliação é de que o desaquecimento econômico deve gerar um realiamento no discurso do BC que adotou até agora um tom mais rigoroso sobre a atividade econômica

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Se até agora o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central concentrou-se em fixar a taxa básica de juros (Selic) com o objetivo de trazer a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para o centro da meta, de 3%, pode ser que a partir de agora comece a pesar o ritmo da atividade econômica. Isso porque a economia brasileira mostrou resiliência com as elevadas taxas de juros por um longo período, mas agora dá sinais claros de redução de ritmo. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) de junho trouxe a confirmação do cenário que os dados setoriais do IBGE já sinalizavam: a economia brasileira sofreu uma retração de 0,6% no mês.

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O desempenho foi fortemente puxado pelo desaquecimento dos componentes internos. A indústria liderou as perdas com queda de 1,4%, acompanhada pelo setor de serviços, que recuou 0,5%. Na via oposta, a agropecuária cresceu 1,0%, destacando-se como o único grupo produtivo no terreno positivo. Na comparação com o mesmo mês do ano anterior, o indicador avançou 2,4%, sustentando uma alta acumulada de 1,5% em 12 meses.


Na avaliação do economista Matheus Pizzani, analista da Pic Pay, esses resultados ratificam o quadro de desaceleração da demanda doméstica, com foco nos segmentos mais sensíveis aos ciclos econômicos – afetados de forma direta pelo nível dos juros, pelas condições restritivas de crédito e pelo elevado endividamento de famílias e empresas.


Embora a indústria venha sentindo esse impacto de maneira mais imediata e profunda, o setor de serviços passa a dar seus primeiros sinais de perda de fôlego. Contudo, a consolidação de uma trajetória de queda no setor terciário tende a ser mais lenta, dada a sua maior rigidez histórica e a dependência da renda disponível das famílias, variável que recentemente contou com o alívio da desaceleração da inflação de bens essenciais, como alimentos. Esse alívio trouxe o IPCA de julho para 0,07% e já leva o mercado a apostar em uma deflação em agosto.


No caso da atividade agropecuária, a resiliência no mês decorre de fatores sazonais e conjunturais. Houve o efeito do encerramento da janela de escoamento das principais culturas voltadas ao mercado externo (soja e milho), somado ao desempenho expressivo do segmento de carne bovina, impulsionado pela corrida dos exportadores para o preenchimento do residual da cota de importação da China. O efeito da safra agrícola, da acomodação dos preços do petróleo e da cotação do dólar devem reduzir a pressão inflacionária até o fim deste ano.


“O panorama desenhado pelo IBC-Br de junho deve balizar a composição qualitativa do PIB do segundo trimestre, antecipando uma forte desaceleração na margem trimestral após o resultado forte do primeiro trimestre. A disparidade entre os dois períodos evidencia o caráter temporário dos impulsos do início do ano, de modo que o cenário atual retrata com maior fidedignidade o real estado da oferta e da demanda locais”, afirma Pizzani. Para ele, um recuo mais acentuado do PIB deve ser contido pelo setor externo, que se beneficia tanto dos embarques agrícolas quanto do desempenho da indústria extrativa, sustentada pela cotação do petróleo.


A avaliação é de que a confirmação do desaquecimento econômico deve gerar um realinhamento no discurso do Banco Central, que adotou até agora um tom mais rigoroso sobre a atividade econômica nos seus comunicados. “A perda de ritmo da economia, aliada a surpresas benignas na trajetória do IPCA, abre espaço para a continuidade do ciclo de ajustes na taxa básica de juros, estimando-se uma convergência da Selic para 13,50% em 2026”, afirma Pizzani. Ainda de acordo com ele, para o PIB, a equipe econômica do Picpay projeta um avanço de 1,70% no fechamento do ano, refletindo uma expansão modesta de 0,40% no segundo trimestre. Com a taxa de juros hoje em 14% ao ano e ainda restando três reuniões do comitê, as projeções são de que o BC reduzirá o ritmo de corte nos juros, uma vez que no Boletim Focus o mercado financeiro projeta a Selic em 13,75% no fim de 2026.

Consumo

R$ 1,2 trilhão

É o valor que o setor de alimentação e bebidas movimentará este ano, o que representará uma alta de 7,1%, segundo a pesquisa IPC Maps, especializada em potencial de consumo.


No campo

O volume de produção da agroindústria teve queda de 0,9% em junho deste ano, fechando o primeiro semestre com retração de 0,3% sobre igual período do ano passado, segundo dados do Índice de Produção Agroindustrial (PIMAgro) da FGV Agro. A queda foi provocada pelo recuo de 2,1% no segmento de produtos não-alimentícios. Os principais vilões, segundo o indicador, foram os insumos agropecuários e os produtos têxteis.


Nas bocas

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Os planos exclusivamente odontológicos alcançaram 36,7 milhões de beneficiários em junho de 2026, maior número da série histórica, após crescimento de 7,6% em 12 meses – 2,58 milhões de vínculos adicionais. Os dados fazem parte da 120ª edição da Nota de Acompanhamento de Beneficiários (NAB), relatório do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS). Em 20 anos, a taxa de cobertura avançou de 2,7% para 17,1% da população.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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