A inauguração na semana passada de uma microrrede de abastecimento de energia pioneiro no Brasil que congrega geração solar, sistema de baterias para armazenamento e medição inteligente em Serra da Saudade, o menor município de Minas e do Brasil, chamou a atenção não pelo porte do projeto com capacidade para 2 megawatts/hora (Mwh) e que conta com um gerador fotovoltaico e um banco de baterias para armazenamento da energia gerada. A própria concessionária de energia estuda levar esse sistema, que garante maior estabilidade para a rede elétrica do município para outras localidades, com 10 localidades já mapeadas. É uma experiência na qual um sistema de baterias entra para dar suporte à demanda nos momentos de interrupção da rede de distribuição de energia.


É um sistema em pequena escala, mas ele se antecipa ao Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP), voltado para contratar potência de novos sistemas de armazenamento em baterias, com pelo menos 30 MW de potência e capacidade de entregar energia por 4 horas contínuas. Esse será o primeiro leilão de baterias realizado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para contratação de sistema de bateria, que podem assegurar o suprimento de fontes intermitentes (solar e eólica) por um período mais longo e, no futuro, dar a essas fontes o caráter de energia firme.

 


Como será o primeiro, o leilão definirá os critérios para que empresas privadas instalem e operem grandes sistemas de baterias capazes de armazenar energia e liberá-la no momento em que houver necessidade, o que favorecerá a estabilidade e segurança do Sistema Interligado Nacional (SIN) e pode abrir um canal no setor elétrico para grandes investimentos. A estimativa da Associação Brasileira de Armazenamento de Energia (Abase) é de que esse mercado de baterias para armazenamento possa movimentar R$ 77 bilhões até 2034 e chegar a 72 Gwh de capacidade.


Hoje, com a queda dos custos dos equipamentos, acima de 40% em 2024, o armazenamento se torna uma opção viável e capaz de dar maior segurança à rede elétrica e deve ter custos ainda mais baixos no futuro com a crescente exigência de sistemas de armazenamento para a expansão das fontes renováveis. Os sistemas de armazenamento de energia são fundamentais no contexto de transição energética para compensar a intermitência de fontes renováveis. O armazenamento pode permitir ainda que fontes intermitentes não precisem ser substituídas por fontes firmes, como carvão.

 

 

Ao dar mais segurança às fontes renováveis, as baterias podem também favorecer a preservação de água nos reservatórios das hidrelétricas, responsáveis ainda por cerca de 70% da capacidade hídrica de geração de energia do país. Hoje, os reservatórios do Sistema Sudeste-Centro-Oeste estão com 43,68% da capacidade, o que está abaixo da média para o período chuvoso para o mês de janeiro. A usina de Furnas, por exemplo, que responde por 17% desse sistema está com 33,23% da sua capacidade de armazenamento de água. Hoje, a projeção para os reservatórios do Sudeste-Centro-Oeste, que respondem por 70% da capacidade de armazenamento do sistema de geração hídrica do Brasil, é fechar janeiro com menos de 50% da capacidade.

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Ainda estamos no período chuvoso e é preciso esperar pelas águas de março para ver o volume de água que as hidrelétricas do Sudeste-Centro-Oeste terão acumulado. Mas sem que eles se recuperem a um ponto acima de 70%, o consumidor terá que conviver novamente com as bandeiras tarifárias, acionadas para arcar com os custos da geração termelétrica. As térmicas entram no sistema para completar a carga nos momentos de maior demanda, permitindo segurança ao sistema e possibilitando a gestão da água armazenada nos reservatórios das hidrelétricas. Também nesse caso o armazenamento é uma ferramenta a mais para fazer a gestão das águas das usinas e uma opção para o acionamento das térmicas em períodos mais curtos.

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