Marcilio Alves
Marcilio Alves
VAMOS REFLETIR?

Top 10 bares de Belo Horizonte no 'Guia Marcelan'

Costumo dizer que toda marca deveria sonhar menos em entrar para um guia e trabalhar mais para entrar na conversa das pessoas

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Outro dia, pedimos um carro de aplicativo, como sempre fazemos quando saímos para algum bar ou restaurante. Imagino que você também tenha esse hábito. O que eu e minha esposa não imaginávamos era encontrar um motorista que entendia de bares tanto quanto muito crítico gastronômico. Não deu cinco minutos de conversa e ele perguntou:

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– Vocês estão indo no bar do fulano? Lá é muito bom, tradicional. Gosto demais.

Antes mesmo que eu respondesse, veio outra pergunta:

– E o do ciclano? Já foi?

A partir dali, iniciou-se um verdadeiro passeio pelos bares de Belo Horizonte. Sem consultar mapa, sem abrir aplicativo, sem pesquisar avaliações. Enquanto seguia o GPS rumo ao nosso destino, ele mostrou que conhecia a cidade pela mesa, pelo balcão e pelo copo. Falava das especialidades de cada casa, comentava o atendimento, lembrava de histórias, comparava petiscos, tipo de público que frequentava e ainda sugeria qual era o melhor dia para visitar cada lugar. Nesta conversa, passamos por praticamente todas as regionais da cidade. Alguns, claro, eu já conhecia muito bem e alguns eu sequer tinha ouvido falar.

Em determinado momento, brinquei:

– Você deveria lançar o “Guia Marcelan”!

Ele riu, e nós também.

A conversa com o Marcelo ficou refletindo na minha cabeça durante dias. Todo ano surgem novos guias, novos prêmios e novos selos prometendo apontar quais são os melhores bares e restaurantes da cidade, do estado, do país ou do mundo. Me parece que, atualmente, estar em guia gera ainda mais prestígio que na época dos irmãos Jean e Pierre Troisgros na França. Mas, junto com os guias, vêm também as inevitáveis polêmicas. Quem ficou de fora? Quem entrou sem merecer? Quem deveria estar melhor posicionado?

Na verdade, essa é uma discussão que parece nunca ter fim. Claro, esses guias cumprem um papel importante. Eles ajudam a dar visibilidade, estimulam o turismo gastronômico, valorizam profissionais e adicionam prestígio às casas selecionadas. Não há dúvida de que aparecer em uma publicação reconhecida é motivo de orgulho para qualquer empreendedor. Mas também acredito que existe um peso que, muitas vezes, atribuímos a essas listas de forma exagerada. Estar em um guia não garante casa cheia. Assim como ficar de fora não condena ninguém ao fracasso.

Recentemente, por exemplo, um importante guia gastronômico no Brasil publicou sua seleção de restaurantes e, entre os escolhidos, havia estabelecimentos que já tinham encerrado suas atividades. Sim, isso mesmo. Restaurantes fechados, inclusive de Belo Horizonte, figuravam entre os destaques. Ou seja, reconhecimento institucional e sustentabilidade do negócio nem sempre caminham lado a lado. Porque, no fim das contas, quem mantém um restaurante aberto não são os jurados. Também não são os influenciadores, muito menos os algoritmos.

Quem sustenta um negócio são dezenas, centenas ou milhares de pessoas comuns. Gente que frequenta, volta, leva amigos, faz happy hour, celebra aniversários, indica para colegas de trabalho, recomenda para familiares e faz o boca a boca, a propaganda espontânea; como o Marcelo, que enquanto dirigia, promovia bares da cidade para passageiros que talvez nunca mais encontrasse. Não havia comissão, parceria comercial, publipost ou contrato de publicidade. Existia apenas algo muito mais poderoso: a confiança, resultado da própria experiência.

Quando alguém recomenda um restaurante porque realmente gosta dele, essa indicação carrega um valor que nenhuma campanha consegue vender.

É por isso que costumo dizer que toda marca deveria sonhar menos em entrar para um guia e trabalhar mais para entrar na conversa das pessoas. Afinal, bons bares e restaurantes não vivem apenas nas listas, vivem nas lembranças e nas histórias que são contadas de forma espontânea. São essas conversas que fazem alguém atravessar a cidade para conhecer um bar e convencem outra pessoa a voltar inúmeras vezes.

No branding, costumamos falar muito sobre lembrança de marca e, na gastronomia, talvez tenha uma tradução ainda mais simples: ser aquele lugar que imediatamente vem à cabeça quando alguém pergunta “onde vale a pena ir hoje?”. Esse tipo de reconhecimento não se conquista com uma lista, mas com uma mesa de cada vez, pela experiência que você proporciona ao seu cliente.

Por isso seu negócio não precisa disputar mais um ranking, precisa de mais “Marcelos”, pessoas apaixonadas pelos lugares que frequentam e que fazem, sem perceber, o marketing mais eficiente que um restaurante pode receber.

Ah... ficou curioso para conhecer o top 10 do Marcelo? Não revelo nem por um casal de cabritos, como diria um amigão lá de Caratinga.

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