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Luiz Carlos Azedo

Breve história da política brasileira, de Carneiro Leão a Lula da Silva

A reeleição não pode depender apenas da frente formada por PT, PSB e outros partidos de esquerda, precisa de setores conservadores e velhas oligarquias

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O apoio do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva vai além das conveniências eleitorais da Paraíba. Reproduz o pacto entre o poder central e as oligarquias regionais, pelo qual interesses contraditórios se acomodam em torno da governabilidade e da preservação do poder. É a recidiva da velha “política de conciliação” incorporada ao projeto eleitoral de Lula.


José Honório Rodrigues analisou esse fenômeno em “Conciliação e reforma no Brasil: um desafio histórico-político” (editora Civilização Brasileira), escrito depois do golpe militar de 1964. Discípulo de Capistrano de Abreu, o mestre via a conciliação de maneira crítica: “os poderes dominantes tiveram sempre força para conter as aspirações profundas de mudança e reverter os movimentos de modo a sustentar seu sistema e seus privilégios”.


Para José Honório, a Independência, as revoltas do período regencial, a República e as crises de 1930, 1945, 1961 e 1964 revelavam uma característica recorrente da formação Brasil: as estruturas do patronato brasileiro demonstram extraordinária capacidade de sobrevivência. “O povo brasileiro é uma vítima, um derrotado no processo histórico”.


Essa contradição atravessou a República. É a raiz da “modernização pelo alto”, capaz de incorporar demandas sociais sem romper necessariamente com estruturas tradicionais. Como insistia Luiz Werneck Vianna, o Brasil se transforma sem abandonar o antigo: A revolução passiva (Revan). Modernizou a economia, urbanizou-se, democratizou instituições e ampliou direitos sem o moderno na política dominante: preservou o patrimonialismo, o fisiologismo, as desigualdades e o poder das elites regionais.


A matriz histórica dessa característica da política brasileira está no Império. Em 1853, Honório Hermeto Carneiro Leão, o Marquês do Paraná, organizou o Gabinete da Conciliação, aproximando conservadores, os “saquaremas”, e liberais, os “luzias”. O conselheiro Nabuco de Araújo, conservador, havia perdido as eleições em Pernambuco, mas aceitou participar do gabinete de maioria liberal, porém, sem abandonar seus aliados provinciais.


Surgia ali a célebre “ponte de ouro” narrada por Joaquim Nabuco no monumental “Um estadista no Império” (Topbooks). Ao contrário de Capistrano e Honório, Nabuco enxergava virtudes nessa engenharia. Para ele, o reformador brasileiro “detém-se diante do obstáculo; dá longas voltas para não atropelar nenhum direito”. Era uma concepção gradualista: mudar sem destruir as pontes com aqueles que controlavam parcelas importantes do poder.


Pacto de poder


O fato é que governos reformistas estabeleceram alianças com forças conservadoras para governar. Juscelino Kubitschek construiu uma ampla composição política para executar o Plano de Metas. Fernando Henrique Cardoso aliou o PSDB ao PFL de Marco Maciel, Antônio Carlos Magalhães e Jorge Bornhausen garantiram sustentação parlamentar ao Plano Real e às reformas constitucionais.


Lula fez movimento semelhante nos dois primeiros mandatos, em aliança com o ex-presidente José Sarney e as oligarquias regionais representadas no Congresso. Dilma Rousseff, porém, entrou em conflito com parcelas importantes desse sistema, perdeu sua base parlamentar e acabou afastada pelo impeachment.


No terceiro mandato, contingenciado pela correlação de forças, Lula reencontrou essa estrutura ainda mais poderosa. O fortalecimento do Congresso por meio das emendas parlamentares e a ascensão do Centrão reduziram a autonomia do Executivo. A aproximação com PP e Republicanos foi uma resposta pragmática a essa realidade. A eleição de Hugo Motta para a presidência da Câmara aprofundou o processo. É nesse contexto que seu apoio à reeleição de Lula adquire significado histórico.


Formalmente, o Republicanos permanece neutro na eleição presidencial. Politicamente, abriu espaço para que suas lideranças façam escolhas conforme as circunstâncias estaduais. Tarcísio de Freitas preserva em São Paulo sua identidade conservadora e a ligação com o eleitorado bolsonarista, enquanto Motta apoia Lula na Paraíba. Não demora muito será a vez do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), se reaproximar de Lula em razão das eleições no Amapá; no rastro, do PP de Ciro Nogueira. É o velho pacto dos “luzias” e “saquaremas”.

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Lula conhece profundamente esse mecanismo. Sua candidatura à reeleição não pode depender apenas da frente formada por PT, PSB e outros partidos de esquerda, precisa de setores conservadores que controlam governos estaduais, prefeituras e bancadas. Mudaram os partidos e os personagens, mas o velho pacto perverso atravessou o Império, sobreviveu à República e chegou à eleição de 2026. Mas há um preço para esse transformismo: a conciliação é eficiente para estabilizar o sistema político, porém, à custa da participação popular e das reformas estruturais.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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