Freire deixará comando do Cidadania e indica Alex Manente seu sucessor
"O velho líder comunista encerra sua trajetória com melancolia e perda de dimensão histórica. Seu gesto sucessório, em vez de estabilizar, implodiu a legenda"
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A literatura latino-americana já descreveu com precisão clínica o momento em que um ciclo de poder se encerra. A cena de abertura de “O outono do patriarca”, de Gabriel García Márquez, permanece como uma das metáforas mais contundentes da decomposição política: “Durante o fim de semana, os urubus entraram pelas varandas da residência presidencial, bicaram as telas metálicas das janelas e o alteio de suas asas agitou o tempo estagnado lá dentro, e na madrugada de segunda-feira a cidade acordou de sua letargia de séculos com a brisa morna e macia do grande homem morto e apodrecido…”.
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A passagem simboliza o fim do “tempo interminável” do caudilho. O que parecia eterno já estava morto – apenas ninguém ousava admitir. Guardadas as proporções entre ficção e realidade, a metáfora de Gabo ilustra a crise do Cidadania, que ultrapassa a disputa sucessória. Tornou-se existencial.
Roberto Freire anunciou no X (ex-Twitter) que deixará o comando da legenda no congresso extraordinário convocado para quarta-feira, em São Bernardo, quando pretende transferir a presidência ao deputado Alex Manente. Freire retornou ao posto por decisão judicial, mas ainda enfrenta forte resistência da maioria do Diretório Nacional, que convocou outro congresso para sexta-feira. Dois congressos. Duas legitimidades reivindicadas. Uma implosão institucional.
A trajetória centenária da legenda vem do Partido Comunista Brasileiro (PCB) ao PPS e ao atual Cidadania. Ao longo da história foi liderado por intelectuais, como Astrojildo Pereira, Heitor Ferreira Lima e Fernando de Lacerda, e os militares Luís Carlos Prestes, Giocondo Dias e Salomão Malina. A ruptura de agora atinge o núcleo dessa memória. “Pela última vez, como presidente do meu único partido em que fui filiado desde 1962…”, escreveu Freire. A frase condensa seis décadas de militância, da clandestinidade à democracia.
Mas também encerra um ciclo. A reunião que convocou o congresso contou com apenas 22 dos 102 dirigentes nacionais; 67 não participaram, em protesto pela manipulação digital da reunião virtual anterior. A maioria sustenta que não houve quórum estatutário (50%+1) para Freire convocar o congresso, com regras criadas para garantir a eleição de Manente.
A divergência é mais que política: é jurídica e simbólica. Quando dois atos convocatórios se reivindicam legítimos, a autoridade se fragmenta. Não há mais ação coletiva sustentada por consenso. Quando o consenso existencial se rompe, o poder se dissolve. O problema não está apenas na sucessão, mas na natureza da transição. Ao defender Manente, Freire não promove simples aggiornamento – atualização coerente com a identidade histórica. O que se desenha é uma ruptura transformista, argumentam os dirigentes históricos. Na ciência política, aggiornamento pressupõe continuidade identitária; transformismo é adaptação pragmática que desloca o eixo político sem debate programático explícito.
História perdida
Com base eleitoral conservadora na região do ABC, Manente representa uma inflexão à direita. Aliado de Tarcísio de Freitas, aproxima-se do campo que gravita em torno de Flávio Bolsonaro (PL). Sua proposta central é federar o partido ao Republicanos, presidido pelo bispo da Igreja Universal do Reino de Deus e deputado federal Marcos Pereira. Trata-se de deslocamento estratégico profundo para uma legenda que sempre reivindicou a linhagem da esquerda democrática e republicana.
A maioria do Diretório reagiu convocando novo congresso, remoto, com base nos eleitos em 2022. Entre os signatários estão quadros históricos, parlamentares e dirigentes que participaram da resistência à ditadura e da transição do PCB ao PPS. A ruptura não é periférica; é central. Se a sucessão já tensionava a identidade da legenda, a dualidade convocatória converte a crise em confronto aberto.
No romance de García Márquez, o palácio permanece de pé, mas o poder apodrece por dentro. No Cidadania, a implosão é ruidosa: resoluções, listas de assinaturas, disputas estatutárias. Mas o sentido profundo é semelhante: o fim do “tempo contínuo”. Em disputas dessa natureza, raramente há vencedores. É um jogo de perde-perde. Mesmo que um dos congressos prevaleça juridicamente, o custo político já está dado: possível desembarque de quadros, fragmentação da bancada, erosão da narrativa histórica.
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Freire encerra sua trajetória com melancolia pessoal e perda de dimensão histórica. Seu gesto sucessório produziu o efeito inverso ao pretendido: em vez de estabilizar, detonou a implosão. O partido enfrenta uma encruzilhada. Perdeu a oportunidade de transformar a crise num momento constituinte real, com debate aberto sobre identidade e projeto, para produzir uma nova síntese política democrática. O caminho escolhido é o da fragmentação. Como ensina a literatura, o poder não termina quando alguém sai. Termina quando já não representa o que dizia encarnar. Quando isso ocorre, os urubus não precisam arrombar as portas. Eles entram pelas varandas.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
