Questionar o que de fato a sua empresa está fazendo pela inclusão de pessoas LGBTI+ pode soar desconfortável para algumas lideranças, mas é uma pergunta inevitável em um mundo do trabalho que exige tratamento justo a todas as pessoas e coerência entre discurso e prática. Não se trata mais apenas de marketing institucional e bandeiras coloridas no mês do orgulho (o que continua sendo válido), mas de como as organizações estruturam, no dia a dia, ambientes seguros e verdadeiramente inclusivos.

No dia 24 de março, acompanhei o lançamento do Manual de Empresas e LGBTI+, realizado pela Aliança Nacional LGBTI+, com o apoio do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+ e do Ministério Público do Trabalho, em São Paulo. A publicação integra a Enciclopédia LGBTI+ e traz um recorte fundamental: o papel das empresas na promoção de direitos e oportunidades para pessoas LGBTI+ no mercado de trabalho.

O evento reuniu organizações de diferentes regiões do país, incluindo empresas com forte atuação em Minas Gerais, como a consultoria Diversifica e a Stellantis. O manual reúne experiências concretas de empresas que vêm avançando nessa pauta. São práticas reais, já implementadas, que mostram que inclusão não é um conceito abstrato, mas uma construção organizacional intencional, feita de políticas, processos e decisões cotidianas.

Durante o lançamento, uma fala me marcou especialmente. Toni Reis, presidente da Aliança Nacional LGBTI+, trouxe uma perspectiva que conecta trajetória pessoal e transformação social: “Minha mãe, quando eu tinha 12 anos, quis me levar ao médico porque não entendia o fato de eu ser gay. Anos depois, já tinha se tornado uma grande aliada. As pessoas mudam. E tenho visto ao longo das minhas décadas de atuação no tema que as empresas também evoluem. Precisamos de cada vez mais pessoas e empresas atuando por essa evolução”.

Versão impressa do Manual de Empresas e LGBTI

Divulgação

Quer ler o manual? Ele está disponível gratuitamente neste link

Inclusão acontece na prática

Essa ideia de evolução é central. Ao longo da minha atuação como consultor e palestrante de diversidade e inclusão em empresas, tenho visto que a inclusão LGBTI+ não acontece por acaso. Ela não surge apenas de boas intenções. Ela exige estrutura. E quando falamos de estrutura, estou falando de escolhas muito práticas.

Estou falando, por exemplo, de revisar processos de recrutamento e seleção para garantir que pessoas LGBTI+ tenham acesso real às oportunidades, sem vieses ou barreiras invisíveis. Estou falando de benefícios inclusivos, que reconheçam diferentes configurações familiares e garantam às famílias LGBTI+ os mesmos direitos assegurados às famílias heterossexuais.

Estou falando também de algo ainda negligenciado em muitas organizações: o cuidado com a saúde de pessoas trans. Planos de saúde que contemplem suas necessidades específicas não são um diferencial, mas uma questão de dignidade.

Outro ponto fundamental é o investimento em desenvolvimento de carreira. Muitas empresas já possuem programas afirmativos voltados para mulheres, pessoas negras e pessoas com deficiência. Ampliar esse olhar para incluir pessoas LGBTI+ nos programas de mentoria e formação de futuras lideranças é um passo importante para enfrentar desigualdades históricas de acesso e ascensão profissional, que muitas vezes deixam as pessoas LGBTI+ apenas nas bases das pirâmides hierárquicas das empresas. E, claro, não podemos falar de inclusão sem falar de cultura organizacional. Treinamentos e ações de letramento são essenciais para ampliar o conhecimento e o respeito, mas precisam caminhar junto com políticas claras de consequência para casos de discriminação. Ambientes seguros se constroem com sensibilização e informação, mas também com responsabilidade.

Cases empresariais

O Manual reúne cases de 15 empresas, mostrando o que fazem na prática. Para Reinaldo Bulgarelli, secretário executivo do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+, “o manual coloca o tema dos direitos LGBTI+ na conversa empresarial. Isso mostra que os temas de DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão) estão presentes em muitas delas, que não abrem mão do valor da diversidade. Essas empresas engajadas anseiam por soluções, ferramentas e práticas de referência em gestão empresarial da diversidade, equidade e inclusão. Tomara que isso influencie as demais empresas do nosso país a investir mais e melhor em DEI”.

Algumas empresas que marcaram presença no evento contribuíram com a troca de experiências reais e enfatizaram a relevância do documento estar disponível para todas as pessoas. “Um manual como este é importante porque ajuda as empresas a avançarem do compromisso para a prática, com referências claras para orientar decisões, comunicação e políticas internas, contribuindo para a prevenção da discriminação, o fortalecimento da cultura de respeito e a criação de ambientes de trabalho mais seguros e inclusivos. Aqui, por exemplo, já fizemos iniciativas de mentoria e aceleração de carreira voltadas a grupos minorizados, além de benefícios que garantem respeito à identidade de gênero, como o uso do nome social nos sistemas, apoio à retificação documental e acesso a cuidados de saúde inclusivos”, explica Sílvia Rosa, gerente global de ESG & Direitos Humanos e líder do Grupo de Afinidade LGBTQIA+ da América do Sul da Stellantis.

Tenho visto, ao longo dos anos, que empresas que levam essa agenda a sério não apenas contribuem para uma sociedade mais justa, mas também se tornam ambientes mais produtivos, mais inovadores, mais diversos em pensamento e mais preparados para lidar com a complexidade do presente. Inclusão não é custo, é investimento em pessoas, em resultados e em futuro.

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No fim das contas, talvez a pergunta mais importante não seja se a sua empresa já faz algo pela inclusão LGBTI+, mas o quanto ela está disposta a evoluir nessa agenda a partir de agora. Porque, em um cenário em que referências, como esse manual, estão cada vez mais acessíveis, deixar de agir pela inclusão já não é mais uma questão de desconhecimento, é uma escolha.

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