O amor não tem prazo de validade: o desafio de recomeçar aos 40
A maturidade traz marcas inevitáveis, mas também oferece lucidez. Depois dos 40, a tolerância para jogos emocionais tende a diminuir
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Há uma cobrança que acompanha o amadurecimento feminino: a ideia de que o amor tem idade certa para acontecer. Como se apaixonar fosse um privilégio exclusivo da juventude e o desejo tivesse prazo de validade estipulado pela biologia ou pelas convenções sociais. Depois de uma separação, com filhos crescidos e uma vida inteira reorganizada, amar novamente ainda pode ser visto como ousadia.
Mas os números e os novos comportamentos mostram que o calendário do afeto está mudando. Em tempos de relações mais fluidas e trajetórias menos lineares, é preciso voltar o olhar para quem não está em uma relação, mas atravessa o complexo processo de reconstruir a vida afetiva depois de ter amado, perdido e precisado ser forte por tempo demais.
Para quem olha de fora, o recomeço pode parecer apenas o fluxo natural da vida. Para quem o vive, é uma travessia desafiadora. O fim de uma relação longa desmonta rotinas, abala a autoestima e impõe perguntas difíceis: quem sou eu agora, fora do papel que ocupei por tanto tempo? Ainda sou interessante? Ainda posso ser desejada?
Os dados recentes do IBGE ajudam a reforçar essa mudança de comportamento. Em 2023, o Brasil registrou 440.827 divórcios, alta de 4,9% em relação ao ano anterior. Em 2024, houve queda de 2,8%, após três anos de alta, mas os registros continuam revelando uma sociedade em transformação. Outro dado chama atenção: em 2024, uma em cada quatro mulheres que se casaram tinha 40 anos ou mais, proporção bem superior à observada duas décadas antes. O amor, o casamento e o recomeço afetivo já não cabem nos mesmos calendários sociais de antes.
Para a arquiteta Marina, de 43 anos, recém-divorciada após quase duas décadas de união, o maior choque não foi a casa vazia, mas a imagem no espelho. “Percebi que não sabia mais como era ser olhada com desejo”, relata. A frase revela uma dor que vai além da falta de um companheiro, revela a dificuldade de se reconhecer como mulher depois de anos submersa nos papéis de esposa e mãe. Marina não perdeu a capacidade de amar. O que muitas perdem, nesse processo, é a confiança de que podem ser amadas sem precisar se anular.
Segundo o psicanalista João Alvarenga, especialista em saúde emocional, o recomeço amoroso depois dos 40 começa muito antes de um primeiro encontro. “Muitas chegam à clínica com a sensação de que precisam provar que ainda têm valor”, explica. “Mas o caminho saudável não está na urgência de ser escolhida, e sim na reconstrução da autoestima, no reconhecimento dos limites e na possibilidade de escolher.”
A maturidade traz marcas inevitáveis, mas também oferece lucidez. Depois dos 40, a tolerância para jogos emocionais tende a diminuir. Exige-se reciprocidade, presença e verdade. Busca-se companhia, não dependência; afeto, não controle. Para muitas mulheres, recomeçar não significa apenas encontrar alguém, mas recuperar uma parte de si que ficou silenciada durante anos de adaptação, cuidado e renúncia.
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Essa transição ganha profundidade sob a ótica da psicanálise. No clássico “A arte de amar”, Erich Fromm defende que amar não é encontrar a pessoa certa ao acaso, mas desenvolver a própria capacidade de amar. O amor exige cuidado, responsabilidade e conhecimento de si e do outro. Essa premissa desmonta a crença de que o tempo de ser escolhida acabou. Se o amor é também aprendizado, ele pode se tornar mais consciente depois das perdas.
Recomeçar não significa apagar a história vivida, mas usar o passado para reconhecer padrões e cuidar das feridas. Nem toda mulher deseja um novo amor, e essa solitude é legítima. Contudo, para as que desejam dividir a jornada novamente, a pergunta central deixa de ser “será que ainda dá tempo?” e passa a ser “como eu quero amar agora?”.
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Falar de afeto nessa fase é falar de coragem. É voltar para si mesma antes de abrir a porta para o outro. É garantir que o próximo amor não chegue como resgate, mas como escolha. Porque o amor que vale a maturidade não é aquele que nos devolve ao que fomos. É aquele que nos permite ser, finalmente, quem nos tornamos.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
