Há poucos dias, uma amiga de muitos anos, Kit Andrade, de Belo Horizonte, publicou em suas redes sociais um texto sobre o envelhecimento. Somos amigos desde a adolescência. Crescemos, amadurecemos e seguimos caminhos diferentes, mas algumas amizades têm o dom de atravessar o tempo.

Li o texto de uma só vez. Depois reli. Não porque falasse de mim, mas porque falava dela. Falava do envelhecer sob o olhar de uma mulher. Mas, enquanto lia, fiquei pensando que talvez existisse uma continuação. Não para corrigir ou complementar suas palavras, mas para olhar a mesma paisagem por outro ângulo.

Kit escreveu:

"Envelhecer não é fácil. A velhice se esconde atrás da vergonha de estar envelhecendo... O nosso recheio é maravilhoso... A casca é ilusão, tem validade."

Quando terminei a leitura, pensei que os homens também envelhecem com medo. Só que fomos ensinados a esconder esse medo.

Desde cedo aprendemos que homem não chora, não demonstra insegurança, não pode fraquejar. Crescemos acreditando que nosso valor estava na capacidade de produzir, resolver problemas, sustentar a família, proteger quem amamos. A identidade masculina, muitas vezes, foi construída sobre a ideia da força.

Até que um dia a força começa a mudar de endereço.

Existe um momento simbólico no envelhecimento masculino: aquele em que você percebe que já não é o mais jovem da equipe. Que o profissional recém-contratado poderia ser seu filho. Que, em determinados assuntos, é você quem precisa aprender com ele.

O curioso é que nós quase nunca falamos sobre isso.

Enquanto muitas mulheres compartilham entre si as transformações do corpo e da vida, nós costumamos esconder nossas fragilidades atrás do bom humor, do trabalho ou do silêncio. Fingimos que está tudo bem. Rimos da própria idade antes que alguém faça a piada. Compramos um tênis novo, voltamos para a academia, planejamos mais um projeto. Não porque queiramos parecer jovens, mas porque, no fundo, temos receio de deixar de ser necessários.

Talvez esse seja um dos grandes medos masculinos: não o de envelhecer, mas o de perder relevância.

Com o tempo, porém, descubro que envelhecer também tem suas recompensas.

Hoje sinto menos necessidade de provar que sou competente. Escuto mais do que interrompo. Escolho melhor minhas batalhas. Aprendi que coragem não é esconder a vulnerabilidade, mas aceitá-la sem vergonha.

Percebo que a força que admirei durante toda a juventude era apenas uma das formas possíveis de ser homem. Existe outra, mais silenciosa e talvez mais difícil: a de continuar sendo quem somos, mesmo quando o corpo muda, os cabelos embranquecem e a velocidade diminui.

A Kit termina seu texto lembrando que a casca tem prazo de validade.

Concordo com ela.

Só acrescentaria uma frase: talvez envelhecer seja justamente o momento em que deixamos de gastar energia tentando parecer quem esperam que sejamos para, finalmente, descobrir quem realmente somos.

Talvez homens e mulheres envelheçam de formas diferentes. Carreguem medos diferentes. Sintam perdas diferentes. Mas existe algo que nos aproxima: todos estamos aprendendo, dia após dia, a trocar aparência por essência, velocidade por presença e força por sabedoria.

No fim das contas, envelhecer continua não sendo fácil.

Mas talvez seja a fase da vida em que temos a melhor oportunidade de nos tornar, enfim, quem passamos tantos anos tentando esconder.

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