O Brasil envelheceu. Mas boa parte da tecnologia continua se comportando como se isso não tivesse acontecido.
Nos últimos anos, quase tudo migrou para o ambiente digital. Bancos, consultas médicas,
documentos, transporte, compras e serviços públicos passaram a depender de aplicativos,
senhas, códigos e reconhecimento facial. A promessa era simplificar a vida. Nem sempre foi isso que aconteceu.
Recentemente, deparei-me com uma situação aparentemente banal. Durante um processo de
reconhecimento facial, a orientação era simples: "Por favor, retire os óculos"". A pergunta que veio em seguida foi igualmente simples: sem os óculos, como a pessoa vai acompanhar todas as instruções necessárias para concluir o procedimento? Em muitos sistemas, essas orientações continuam sendo predominantemente visuais, o que pode criar barreiras para quem depende dos óculos para leitura ou possui alguma limitação visual.
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Parece apenas um detalhe de usabilidade. Mas talvez seja o retrato de uma sociedade que
envelheceu sem que parte da tecnologia percebesse.
O Brasil tem mais de 33 milhões de pessoas com 60 anos ou mais e a maioria delas já utiliza smartphones, aplicativos e redes sociais. Muitos aprenderam a usar a tecnologia por necessidade, sem cursos, sem treinamento e sem escolha.
Letras pequenas, excesso de etapas, mensagens pouco claras, reconhecimento facial que
falha, ausência de atendimento humano e sistemas que exigem rapidez constante transformam tarefas simples em obstáculos diários.
A aproximação das eleições torna essa discussão ainda mais relevante. Aplicativos como o e-Título representam avanços importantes na digitalização dos serviços públicos. Mas também ajudam a evidenciar uma questão cada vez mais presente em uma sociedade longeva: os sistemas digitais estão sendo projetados para todas as idades?
A segurança é necessária. A proteção contra fraudes também. O desafio está em encontrar
soluções que conciliem segurança e acessibilidade. Afinal, quando um recurso criado para proteger começa a dificultar o acesso de uma parcela da população, vale perguntar: que alternativas estão sendo oferecidas?
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Quando alguém depende de terceiros para acessar um benefício, marcar uma consulta, utilizar um aplicativo bancário, validar sua identidade ou exercer plenamente seus direitos de cidadão, a discussão deixa de ser tecnológica. Passa a ser social.
Essa é uma das razões que motivam o trabalho da Juventude Reversa na área de
acessibilidade digital. O problema não está na tecnologia. O problema surge quando a
tecnologia é desenvolvida sem considerar a diversidade de quem vai utilizá-la.
Uma sociedade verdadeiramente moderna não é aquela que transforma tudo em aplicativo. É
aquela que garante que ninguém fique para trás durante a digitalização.
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A tecnologia veio para conectar pessoas. Não pode ser a mesma tecnologia que as exclui.
