Na minha casa, comida sempre foi assunto e motivo para bons encontros. As conversas intermináveis sobre o cardápio do dia, os planos para a próxima refeição, as lembranças de um tio guloso, o caso de outro que colocou farinha de mandioca no macarrão e ficou para sempre estigmatizado, a amiga que fazia as piores quitandas de toda a cidade, o peru do Natal que era marinado na lata de arroz e precisava levar um tombo de madrugada para pegar direitinho o tempero. Era assunto que não acabava mais. E se acabava, a gente subia a rua para pegar o fim da refeição na casa da vizinha e continuar a prosa.
A minha mãe era cozinheira dedicada, gostava de livros e ideias novas. Dava conta da rotina de dona de casa, fazia compras, limpava a carne e tirava bifes com cuidado e economia. Quando criança, eu adorava subir num banquinho e ficar pendurada na beira da bancada observando seus gestos minuciosos. Dizem que esse banquinho foi feito para uma cozinheira da minha vó que era muito baixinha e mal alcançava o fogão.
Vovó não era muito dada a cozinha, ficava brava se a gente comia muito os regalos que ela preparava. Era especialista em pastel e pudim de pão feito com sobras guardadas em um saquinho de pano pendurado na despensa, mas não mexia com panelas e fogo. Na casa sempre tinha alguém para ajudar, Marias, Antônias, Vilmas, Cidas, Das Dores sentadas no degrau da porta cortando couve toda vida, bem fininha.
Era ela também que fazia o melhor croquete do mundo, o verdadeiro, crocante por fora e molhadinho por dentro. Sem receita, pois tinha carnes reaproveitadas de um caldo feito para o macarrão ou de uma pontinha de lagarto do almoço de ontem.
Custei a ver poesia no jeito dessas mulheres cozinharem e a apreciar essa cozinha do cotidiano, sem frescura e sem excesso, mas tão amorosa! Aquela comidinha do dia a dia, da mesa posta onde sempre cabia mais um, do esforço criativo de todo dia servir alguma coisa diferente para ninguém enjoar. E o capricho em colocar tudo bonitinho nas travessas, de enrolar o guardanapo de pano, de fazer o suco, de garantir a sobremesa e nunca esquecer da farinheira e do vidro de pimenta.
Nos fins de semana era diferente. Nunca tinha feijão, a louça e os talheres eram outros e os pratos tinham que ser extraordinários. Graças a autoras fabulosas como Helena Sangirardi, Maria Rosalina e Maria Thereza Weiss e às revistas femininas da época, o cardápio sempre tinha novidades: estrogonofe, salpicão, rosbife, suflê, mousse de pepino, pavê! Tudo isso alternado com maestria a pratos da mesa mineira que não podiam faltar. Com eles as cozinheiras ficavam à vontade e a família toda se sentia em casa.
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O lombo assado era o melhor do mundo, nem com diploma e forno combinado consigo repetir a proeza daquele lombo da minha mãe, aquele descrito por Rubem Braga em seu “Almoço mineiro”: “O lombo era o essencial, e a sua essência era sublime. Por fora era escuro com tons de ouro. A faca penetrava nele tão docemente como a alma de uma virgem pura entra no céu. A polpa se abria, levemente enfibrada, muito branquinha, desse branco leitoso e doce que têm certas nuvens às quatro e meia da tarde, na primavera. O gosto era de um salgado distante e de uma ternura quase musical. Era um gosto indefinível e puríssimo como se o lombo fosse lombinho da orelha de um anjo louro”.
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Nuh! Que delícia! Te dou um prêmio se você adivinhar qual era o acompanhamento!
