“O medo que vocês sentiram no segundo turno, a gente sente há 526 anos.” Não sei quem disse essa frase pela primeira vez, mas sei que ela me perturbou de um jeito difícil de explicar. Durante as últimas semanas, falamos muito sobre o medo e ele se fez presente, como tem se feito mais recentemente, até mesmo na vida dos mais privilegiados e de quem teme que suas estruturas de poder venham a ruir.
Na fila da padaria, do açougue, na manicure e em qualquer ambiente classe média: medo do resultado das urnas, do futuro, da violência, daquilo que poderia acontecer caso a democracia brasileira fosse novamente colocada em risco.
Medo de perder direitos e acessos que julgávamos conquistados. Medo de acordar em um país que não reconhecêssemos mais. E então vem essa frase, como quem abre uma janela em uma casa que estava fechada havia séculos.
Quinhentos e vinte e seis anos. O que são algumas semanas de medo diante de cinco séculos de uma existência ameaçada?
Penso no casal de anciões Guarani Kaiowá, Tito e Miguela Vilhalva, lideranças da Terra Indígena (TI) Guyraroká. Tito tem 108 anos e Miguela 101 anos. Nasceram quando o Brasil ainda engatinhava como República, atravessaram governos, ditaduras (quando, inclusive, foram expulsos de sua aldeia), redemocratizações, constituições e promessas. Viram o país mudar de presidente, de moeda, de discurso, viram o mundo descobrir tecnologias capazes de encurtar distâncias, enquanto a distância entre seu povo e o direito à própria terra continuava imensa.
Miguela e Tito não pedem um futuro extraordinário, para eles o sonho é que o território de seus ancestrais seja reconhecido e que seu povo possa viver onde sempre construiu sua história, onde os mais velhos estão enterrados e seus três filhos também: Ambrósio, Beto e Irene, assassinados por ordens de um fazendeiro local.
Imagino o que significa passar mais de um século esperando por uma coisa que nunca deveria ter sido retirada de você?
Para os Guarani Kaiowá, a terra não é propriedade. É tekoha, o lugar onde se realiza o modo de ser, onde vivem os antepassados, onde a memória encontra o presente e onde as próximas gerações podem continuar existindo. Tirar um povo de seu território não significa apenas mudar seu endereço, mas tentar interromper uma maneira de estar no mundo. E o Brasil sabe fazer isso há muito tempo. Por isso, ser contracolonial é uma urgência, penso.
Desde a invasão colonial, os povos originários enfrentam diferentes formas de expulsão, confinamento, exploração e violência. Mudam os nomes dos governos, mudam as justificativas, mudam as leis. A ideia de que o território indígena está sempre disponível para os interesses de outros, no entanto, atravessa a história com uma persistência assustadora. O que para alguns aparece como disputa fundiária é, para outros, a possibilidade de continuar sendo quem são.
Nos últimos dias, depois da eleição presidencial, notícias sobre ameaças contra comunidades indígenas no Mato Grosso do Sul voltaram a ocupar as páginas dos jornais. Entre elas, a ameaça de envenenar a água utilizada pelas famílias Guarani Kaiowá: a água.
Penso na dimensão dessa palavra. Naquilo que existe de mais elementar em abrir uma torneira, encher um copo, matar a sede de uma criança. Para muita gente, a água é um gesto automático. Para comunidades que dependem de abastecimento precário e convivem com conflitos territoriais, ela também pode se tornar um instrumento de intimidação.
Mas o que mais me perturba não é apenas o episódio recente. É perceber que ele não começa agora. A violência contra os povos indígenas não nasceu com uma eleição, nem terminará quando a indignação nas redes sociais encontrar outro assunto. Ela existe antes da República, antes mesmo de o Brasil se chamar Brasil - e que bom seria se voltasse a ser Pyndorama.
Pra mim, é por isso a frase sobre o medo seja tão difícil de esquecer. Porque nós contamos o medo em dias, eles precisam contá-lo em gerações e, ainda assim, resistem.
Miguela e Tito rezam. Miguela e Tito contam histórias. Miguela e Tito insistem na terra. Miguela e Tito guardam memórias que o Estado brasileiro tantas vezes tentou apagar. Suas existências não são apenas testemunho da violência, mas daquilo que a violência não conseguiu destruir. É nisso que gosto de me apegar, inclusive, quando penso e ouso imaginar futuros. Já falei sobre o tema numa das colunas, mas precisamos conhecer outras línguas e outras formas de existir. No entanto, ainda assim, precisamos respeitar as formas de existir dos povos originários.
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É profundamente desconcertante perceber que uma mulher pode viver 101 anos e ainda precisar esperar que o país reconheça um direito ancestral e apenas existir, que seu esposo, aos 108 anos, ainda diga: “Esta terra já foi muito explorada. Eu não estou roubando a terra. Não quero objetos. Não quero gado. Não quero cercas. Não quero casas. Quero que limpem a terra. Levem tudo. Essa é a minha proposta. Minha palavra. Quero viver em paz e também criar animais, trabalhar a terra. Para que as pessoas não digam que os indígenas são ladrões, que os agricultores são os que fornecem comida. Não. Eu sou um trabalhador.”
Quantas eleições cabem em uma vida como a deles? Quantos presidentes? Quantas promessas de justiça? Quantas vezes é possível ouvir que agora, finalmente, as coisas vão mudar?
Costumamos celebrar a longevidade como uma vitória individual, mas o que significa envelhecer esperando por justiça?
Precisamos abandonar a ideia confortável de que a democracia brasileira começou para todos no mesmo momento. A Constituição de 1988 reconheceu os direitos originários dos povos indígenas sobre as terras que tradicionalmente ocupam, mas, na prática, a gente acompanha diariamente o genocídio dos povos indígenas no país e reconhecer um direito no papel não significa garantir seu exercício na vida cotidiana.
Uma democracia não pode ser medida apenas pela possibilidade de depositar um voto na urna a cada quatro anos. Precisa ser medida também pela possibilidade de voltar para casa depois dele. De beber água sem medo de morrer. De permanecer na própria terra. De envelhecer sem precisar transformar a existência inteira em resistência.
Volto a Tito. Gostaria que seus 108 anos fossem lembrados pelo conhecimento que carrega, pelas rezas que preserva, pelas histórias que ainda pode contar às crianças de seu povo. Que Miguela, aos 101 anos, possa dormir tranquila enquanto reza para que o futuro de seus netos não seja atravessado pela violência vivida por seus filhos e antepassados. Não apenas pelo tempo que precisou lutar para que o Brasil reconhecesse aquilo que seus ancestrais já sabiam.
Talvez a maior violência de uma história que dura cinco séculos seja esta: obrigar sucessivas gerações a gastar a própria vida defendendo o direito de viver.
Quando o medo do segundo turno passou, muita gente respirou aliviada. Voltou aos compromissos, aos planos, às pequenas alegrias do cotidiano. Para os povos originários, não existe necessariamente esse dia seguinte em que o medo acaba e a vida recomeça. A vida nunca deixou de acontecer dentro dele. E é por isso que aquela frase continua ecoando em mim: o medo que vocês sentiram no segundo turno, a gente sente há 526 anos.
A questão que ela nos deixa não é apenas o que fizemos durante aquelas semanas para defender a democracia, mas o que estamos dispostos a fazer para que ninguém precise esperar mais 108 anos, ou mais cinco séculos, para finalmente vivê-la.
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*esse texto teve contribuição da fotógrafa e ativista Giulianne Martins
