Vim contar uma história sobre quando uma mulher usa o próprio corpo, sua visibilidade e suas escolhas para deslocar referências - e quando essa influência não termina nela, mas alcança outras mulheres, outros corpos, outras cidades, outros trabalhos e outras famílias.O que acontece quando um corpo ocupa um espaço e, junto com ele, outros corpos começam a se mover também.
“Entrei no Big Brother Brasil vestindo história e não roupas”. Essa foi a frase da jornalista Ana Paula Renault, durante o painel na SP2B que mais me marcou na sexta-feira (14) no painel “O efeito multiplicador: histórias que impulsionam histórias” com empresários de diferentes estados e cidades.
Fui seduzida. Não só pela Ana Paula Renault desde 2016, mas pela proposta de influenciar, que convida as marcas a não apenas focarem nos resultados financeiros imediatos de vendas - tratando influenciadores como afiliados comerciais - mas em criar comunidades com histórias que façam sentido para aquele público e nicho.
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De uma fila com fãs - que há rumores, chegaram ainda pela manhã - e aguardam animadas e ansiosas a entrada de Ana Paula (ao som de Rita Lee) no palco, tal qual uma diva pop, a empresários e empreendedores interessados em como pequenas marcas se desenvolveram a partir da aparição diária no reality show, o público acompanhou atento e elogioso as intervenções de Ana Paula, que atuou numa mediação ativa, conduzindo a conversa e oferecendo palco e visibilidade aos parceiros que a vestiram. Inclusive, fez questão de anunciar que chegou ali usando uma peça de cada um: Daniela Lima, da Nega Lora Acessórios, Julia Maria, da Ser’Tão Encantado, Cristiano Bronzatto, da Louloux Shoes, e Juliana Detilio, da Fitlegs. Na plateia, Kamilla Santana, da marca de roupas de linho, RS Hype, foi convidada a conversar com o público e contar da experiência ao vestir a jornalista durante o programa por 100 dias.
Tem uma imagem muito bonita na fala de Kamilla: ela chama Ana Paula de uma espécie de “anjo que caiu do céu” e conta que a repercussão virou uma “chuva de amor”, que chegou à equipe inteira e fez todo mundo trabalhar junto para atender aquela comunidade.
Gosto da expressão “chuva de amor” porque ela parece meio cafona até a gente entender o que aconteceu depois dela. Não foi apenas carinho de fã. Foi gente trabalhando mais. Foi produção aumentando. Foi contratação. Foi marca pequena tentando dar conta de uma demanda que nunca tinha imaginado. Foi dinheiro chegando a lugares que não estavam necessariamente no centro da economia da influência. Foi uma comunidade inteira se mexendo. Talvez seja isso que um corpo em movimento faça: ele não se move sozinho. Quando um corpo ocupa um espaço, outros corpos podem se mover junto.
Ana Paula trouxe diversidade não apenas como estética, mas como circulação de dinheiro, histórias de pertencimento e inspiração. Diversidade sem dinheiro continua sendo vitrine. É bonito colocar corpos diferentes na campanha, é bonito falar de representatividade, é bonito dizer que determinada comunidade importa. Mas a pergunta que me interessa é outra: quem está faturando? Quem está contratando?
Quem está crescendo? Quem consegue tirar o negócio da sobrevivência? Quem consegue pagar uma funcionária? Quem consegue produzir mais? Quem consegue continuar existindo?
De tudo visto ali, fui me conectando com as histórias e fiquei absolutamente fascinada. Sai apaixonada pela Julia Maria, de Alagoas. Artista na Ser’Tão Encantado, nada ali é fora de propósito. Da embalagem à oração que acompanha o amuleto caminhante com a força do bando de Lampião & Maria Bonita, aos lenços, camisetas e todas as peças que já anunciam no nome o arrebatamento em quem se deixa seduzir.
Ela contou que, por meses, o couro do nordeste, que fabrica as sandálias, ficou esgotado. Que foi necessário pausar a marca, entender o novo momento e, então, voltar a atender. Os ferrolhos que acompanham as sandálias também ficaram esgotados. Por mim, posso dizer: foram meses de espera, mas um produto impecável: bonito e confortável, em couro que, já sei, dura uma vida toda. Se me verem por aí, já sabem: posso estar cheia de beleza e caos, usando o sapatinho da treta.
“Quando vejo essa mulher entrando, toda de branco, parecia um anjo, com o lenço feitiço (...)”, contou, antes de ser interrompida por Ana Paula, que pediu a ela que contasse o significado do lenço e sua estampa. “A Júlia produz tudo com muita alma e quando ela vende os produtos, tudo tem um conceito, você recebe o produto e um encarte, onde ela explica como concebeu o desenho”, pediu.
“O lenço carrega os quatro elementos: água, ar, fogo e terra. Que são os elementos da terra e eles têm, como toda feiticeira, de invocar o poder do elementos desses elementos e conseguir manejar as coisas como ela quiser e alcançar o que ela quiser alcançar, então o [lenço] feiriço carrega toda essa simbologia, tem em uma ânfora, uma cobra da transformação e três velas, que é a conexão com seu eu divino e foi um lenço muito especial. Quando eu vi você entrando com ele, eu falava: gente, que conexão é essa? Ela ficou sendo chamada de feiticeira na primeira semana e usando o lenço”, lembrou.
Nesse momento, Ana Paula se emocionou e contou que levou todos os lenços que tinham disponíveis. Mas este não foi o único momento de emoção durante o painel.
Durante muito tempo nos ensinaram que roupa tinha ocasião, corpo tinha regra e moda tinha um manual de instruções. Que determinadas peças pertenciam a determinados corpos e que determinados corpos deveriam, antes de tudo, aprender a desaparecer. Por isso me interessa quando uma mulher entra num reality vestindo pijama, roupa de academia, peças artesanais, marcas pequenas e diz, na prática, que não existe roupa certa para um momento certo. Existe corpo. Existe desejo. Existe vontade. E, sobretudo, existe o direito de vestir aquilo que a gente quiser. Há também uma história sobre corpo escondida nessa conversa. “É a gente que faz a nossa moda”, reafirmou Ana Paula, em diferentes momentos.
Cristiano Bronzatto, da Louloux Shoes, que ampliou a produção, vendeu xxxx em 3 meses e implantou a escala 5x2, churrasco às sextas-feiras (nessa hora, pulei da cadeira e quase corri ao palco com meu currículo, confesso) e defende direitos trabalhistas aos próprios trabalhadores (um sonho), além de ter conseguido recontratar uma antiga trabalhadora pagando mais - palmas pra ele, porque ele merece -, acredita no poder da boa influência e destacou isso com assertividade.
“Sempre acreditamos em você, Ana Paula e concordamos com seus posicionamentos. Precisamos de influencers assim e não de quem está deixando as pessoas milionárias a troco da pobreza dos outros”, destacou.
Durante a palestra, também foi emocionante ver como a fé entra no corpo. Estou falando daquilo que ainda algo que não cabe numa planilha de faturamento: a possibilidade de reconhecer a própria fé no corpo de alguém que milhões de pessoas estão vendo. Nega Lora conta, emocionada, sobre Ana Paula usar uma peça com referência a Xangô e fala do direito de vestir um orixá bonito, de fazer com que alguém olhe e pense “que lindo” antes mesmo de saber que aquilo também fala de uma religião que tantas vezes foi perseguida, demonizada e empurrada para o segredo. Quando um símbolo religioso aparece no corpo de uma mulher diante de milhões de pessoas, ele não está apenas sendo usado. Está ocupando espaço.
Marketing de influência, números e vidas mudadas
Além das histórias pessoais e que mexeram com a plateia presente, os empresários trouxeram os números de crescimento, não apenas durante o programa, mas no período de pós, que já chega a quase quatro meses.
Do palco, muitos deles saudaram os próprios trabalhadores e costureiros, presentes também na plateia, destacando que as vidas mudadas estão para além da superfície das redes socias.
Juliana Detilio, da Fitlegs, comentou que houve um crescimento de 222% nas vendas e que a empresa de roupas fit - mas também usadas em diferentes momentos - vendeu em três meses o que venderia em um ano. “No instagram, levamos 12 anos para alcan;car 67 mil seguidores e em 90 dias, chegamos a 112 mil”.
Já Daniela Lima, da marca Nega Lora, de Belo Horizonte (MG), cidade natal de Ana Paula, que tem uma loja e uma banca na feira hippie, contou que a marca tinha 70 mil seguidores e saltou para 163 mil e que ela faz questão de ter não um ponto de venda, mas um ponto de experiência, para que os clientes - que somam um aumento de 300% nas vendas - retornem. “É muito importante a gente acompanhar uma mulher quando ela resolver colocar em prática o que ela quer”, disse.
Ainda segundo ela, bastante emocionada, são constantes os pedidos dos artesãos da Feira Hippie da Avenida Afonso Pena em Belo Horizonte para agradecer Ana Paula. “São 2,5 mil famílias e barracas impactadas diretamente por você, Ana Paula, desde que você comentou e exaltou a feira”.
Cristiano contou que no dia seguinte à final do BBB, o site da marca de sapatos registrou 50 mil acessos, derrubando inclusive o servidor e afetando outros sites hospedados por ele. Neste dia, a marca registrou R$ 180 mil em vendas, feito inédito até então. “O impacto chegou além da própria marca, o sapato é produzido por artesãos do Nordeste e a visibilidade fez aumentar a procura pelo produto e pela matéria-prima”, contou.
Na Ser’Tão Encantado, Julia contou que foram 5 milhões visualizações nas redes e um ano de vendas em apenas três meses.
Talvez seja isso que me interesse tanto nessa história: não é apenas sobre quem veste quem. É sobre quem produz referência. Durante muito tempo, a moda disse aos nossos corpos como deveríamos existir. Agora, talvez estejamos começando a devolver a pergunta: e se formos nós que fizermos a moda? E se forem os nossos corpos - gordos, negros, periféricos, dissidentes, atravessados por histórias que não cabem nas campanhas tradicionais — que decidirem o que é bonito, desejável, confortável e possível?
A especialista em marketing, Michelle Corrêa, gravou um vídeo sobre o poder da influência, logo após a palestra e eu trago para concordar com ela. Na tela, ela diz: “a gente já sabia desse impacto, a gente vê e a gente assistir às empresas falando é surpreendente e aí, começamos a ver o poder da influência na prática. Uma das empreendedoras falou que, mesmo depois de cinco meses, as empresas seguem tendo uma demanda altíssima. Isso mostra a força da marca, que quando alcança um pico de visibilidade, ela se perpetua, sobretudo, quando se tem um propósito bem desenhado”, pontua.
Ainda de acordo com ela, a marca Ser’Tão Encantado já é um patrimônio nordestino, mas o movimento em torno da demanda de Ana Paula revela mais. “Não é apenas esta marca que vendia, todas as similares também venderam e vemos aí o poder da influência levando muita gente e isso é muito bonito, porque uma influência bem feita e consciente traz resultados maravilhosas. Eu terminei a palestra arrepiadíssima, como alguém que ama o marketing. Ana Paula Renault tem noção da própria influência e eu espero que mais influencers sigam esse exemplo: responsabilidade na hora de indicar um produto”, concluiu.
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Por fim, concluo que a palavra mais importante do painel não tenha sido influência, mas comunidade. Porque audiência é uma coisa. Comunidade é outra. Audiência assiste. Comunidade se envolve. Audiência passa. Comunidade procura. Audiência vê um produto. Comunidade quer saber quem fez, de onde veio, o que aquela peça carrega. E, quando essa relação existe, o dinheiro deixa de ser apenas uma transação e passa a circular por histórias, casas, famílias e territórios.
