Tem um momento da vida em que a cidade deixa de ser endereço e vira cicatriz.

A gente aprende isso cedo quando nasce em territórios que o poder público só visita em época de eleição, tragédia ou operação policial. Crescer na periferia é desenvolver uma espécie de cartografia íntima do abandono: saber onde o ônibus não passa, onde o asfalto termina, onde a enchente chega primeiro, onde o CEP parece valer menos. 

Justamente por isso que assistir “REAL”, da artista Cristina Santos provoca uma sensação tão difícil de explicar. Não é simplesmente um espetáculo de dança contemporânea, mas  quase como assistir alguém reorganizar os escombros da própria existência diante dos nossos olhos. 

Inspirado nas vivências da artista no Real Parque, comunidade da zona sul de São Paulo marcada por processos violentos de urbanização e remoção, o espetáculo transforma a memória em linguagem física, política e emocional. E isso importa muito. Porque existe uma diferença brutal entre falar sobre a periferia e falar dela. O corpo da Cristina não interpreta um tema social para consumo cultural de classe média progressista; ele carrega marcas concretas de um território que historicamente foi tratado como algo a ser corrigido, escondido ou apagado.

Enquanto muita arte brasileira ainda insiste em olhar corpos dissidentes como objeto de análise, “REAL” desloca esse eixo e faz outra coisa: coloca uma mulher negra, periférica, criadora da própria narrativa, ocupando o centro da cena sem tradução, sem exotificação e sem pedir autorização estética para existir.

O espetáculo não trabalha a dissidência como identidade performática vazia, dessas que viram tendência acadêmica ou curadoria institucional. A dissidência em “REAL” aparece como condição de sobrevivência. Está no modo como o corpo tensiona o espaço. Na maneira como permanência e deslocamento convivem o tempo inteiro. Na relação entre peso e exaustão. Na repetição de movimentos que lembram trabalho, fuga, resistência, insistência. Existe algo profundamente brutal em perceber que determinados corpos passam a vida inteira negociando o direito básico de ocupar o chão. Cristina transforma essa negociação em coreografia.

Não uma coreografia “limpa”, virtuosa, distante, pensada para impressionar tecnicamente uma plateia acostumada com os códigos elitizados da dança contemporânea. O que ela constrói é outra coisa. É uma dança contaminada pela experiência urbana, pela precariedade, pela violência arquitetônica das cidades brasileiras e também pela inteligência coletiva produzida nas margens. Uma dança que parece dizer o tempo inteiro: vocês tentaram apagar esse território, mas ele continua vivendo em mim.

Existe uma cena no vídeo de divulgação em que o corpo dela parece atravessado por uma espécie de ruína emocional e urbana ao mesmo tempo. E talvez essa seja a imagem mais forte do trabalho: entender que remoção não é apenas derrubar casas. Remoção também é produzir desenraizamento subjetivo. É obrigar pessoas a desaprender seus afetos, suas vizinhanças, suas memórias, seus pertencimentos. 

O Brasil fala pouco sobre o impacto psicológico da urbanização violenta porque, no fundo, naturalizou a ideia de que algumas vidas são desmontáveis.

“REAL” enfrenta justamente esse ponto.Faz isso sem cair na armadilha da estetização da dor preta, algo que infelizmente virou linguagem recorrente em muitos espaços culturais. Cristina não transforma sofrimento em espetáculo confortável. O que ela oferece é presença radical. Um corpo negro ocupando a cena não para ensinar resiliência inspiradora, mas para afirmar complexidade. Isso muda completamente o lugar da plateia.

Assistir ao espetáculo exige disponibilidade para encarar aquilo que normalmente a cidade tenta esconder atrás dos muros: o fato de que o desenvolvimento urbano, no Brasil, quase sempre significou expulsão. E que existe uma violência sofisticada no discurso da modernização quando ele decide quais corpos podem permanecer visíveis e quais precisam desaparecer para que a paisagem pareça organizada.

Talvez por isso o trabalho reverbere tanto em escolas públicas, oficinas e espaços de formação. Porque jovens periféricos reconhecem imediatamente quando alguém está falando a partir de uma verdade vivida. Não é representação distante. Não é pesquisa antropológica transformada em produto cultural. É experiência convertida em linguagem artística.

E isso produz identificação de um jeito raro.

Num país onde corpos negros, periféricos, gordos, femininos e dissidentes quase sempre aparecem enquadrados pela falta: de recurso, de oportunidade, de “futuro” - há algo profundamente revolucionário em assistir uma artista ocupar a cena a partir da própria elaboração estética, intelectual e política da memória. “REAL” não pede pena. Pede escuta.

É isso que mais desorganiza quem assiste: perceber que aqueles corpos historicamente tratados como ruído estão produzindo algumas das narrativas mais sofisticadas, urgentes e honestas da arte brasileira contemporânea.

Sinopse

“REAL” é um corpo em estado de fratura e invenção. Entre afetos e violências, a dança expõe as marcas da urbanização e das exclusões, enquanto constrói caminhos poéticos a partir da memória. Em cena, gestos atualizam histórias e criam novas possibilidades de existência entre margem e centro, dentro e fora.

O espetáculo tem concepção e dança de Cristina Santos,  direção e dramaturgia de Djalma Moura, laboratório de Criação (fase inicial) de Renata Kabilaewatala, criação e operação de Luz com Juliana Jesus,  música com a dupla Graciela Soares e Denis Sartorato. Quem assina o figurino são Graciete Santos e Juliana Schmidt. A maquiagem é de Luzia Sena. A cenografia fica com Christopher Silva. A técnica de som é assinada por Denis Sartorato. O show conta com audiodescrição de Isadora Ifanger e Librasm de Josie Ananias e Juliana Ananias.

Na parte de social media quem assina é: End Silva. O design gráfico é de João Barros. Web Site ficou com Rangel Egídio | Agência Krioh. A fotografia e registro audiovisual é da Nina Pires Quem assina como assistente de produção é Ángeles Galván. A produção administrativa ficou com Adriana Oliveira. Ainda temos a produção geral de  Cristina Santos - Margeando à Cena Consultoria de Produção (2022 e 2023) e Daniele Sampaio | SIM! Cultura. 

Sobre Cristina Santos

Cristina Santos é artista da dança e pesquisadora. Licenciada em Ciências Sociais pela PUC-Campinas, é bacharela e licenciada em Dança, além de mestre em Artes da Cena pela Unicamp. Sua pesquisa investiga as relações entre memória, gestualidade e favela.

Participou da Incubadora de Projetos da SIM! Cultura (2022–2023) e desenvolve trabalhos que articulam criação artística e reflexão crítica. Atualmente, dedica-se à circulação nacional e internacional de “REAL”.

Novas apresentações

Em junho, Campinas recebe a nova temporada do espetáculo “REAL”, solo de dança contemporânea da artista e pesquisadora Cristina Santos, com direção e dramaturgia de Djalma Moura. A programação inclui apresentações gratuitas em diferentes territórios da cidade, além da oficina “Meu Corpo, Minha História”, voltada a estudantes da rede pública.

A obra parte da autobiografia da intérprete-criadora, que nasceu e cresceu na favela do Real Parque, em São Paulo, para construir uma dramaturgia que tensiona memória, território e corpo. Em cena, a dança torna-se linguagem de denúncia e reinvenção frente às violências estruturais, atravessadas por processos de urbanização, apagamento e exclusão.

“REAL” articula gestualidade, trilha sonora e dispositivos memorialísticos para refletir sobre temas como direito à moradia, pertencimento e reconhecimento de si. O trabalho também dialoga com a noção de necropolítica, propondo uma poética que emerge da experiência vivida e se inscreve no corpo como arquivo e território.

A dramaturgia tem como uma de suas referências o livro Becos da Memória, de Conceição Evaristo, incorporando à cena camadas de rememoração que atravessam o individual e o coletivo.

Apresentações:

02 e 03/06 – 16h
CEU Vila Esperança

09 e 10/06 – 20h
CEU Mestre Alceu

16 e 17/06 – 20h
Teatro Castro Mendes

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Classificação: 14 anos

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