Na manhã de hoje (17 de março), enquanto o país ainda bocejava café e timeline, Ana Paula Renault fez algo raro - mas não pra ela - em rede nacional: tensionou. Falou de magreza extrema não como estética neutra, mas como linguagem - uma linguagem atravessada por desejo, controle e violência. E quando uma mulher fala disso ao vivo, especialmente em um espaço como o BBB (Big Brother Brasil), ela não está apenas opinando. Ela está deslocando.
“A mulherada se sentindo bem com qualquer tipo de corpo, o que que fizeram? Vamos colocar elas na caixinha de novo, porque elas estão com poder demais. Estão se sentindo bem demais e aí, veio agora, em 2024, 2025, essa coisa da magreza de novo, porque a mulherada tá muito livre, a mulherada tá muito contente com quem elas são e aí, o que acontece? os feminicídios sobem na mesma escala, porque os homens começam a ficar muito desagradados porque a mulherada tá feliz, tá livre, tá falando não e matam a gente. As agressões vão escalando junto, então o número de agressões a mulher sobe, o feminicídio sobe (...) a partir do momento que a gente se sente mais livre. E aí tudo tem que voltar, controlar nosso peso, porque os homens sempre tiveram medo das mulheres, sejam elas bruxas, sejam elas livres, porque pra mim, queimavam as mulheres livres.”, declarou numa conversa no quarto Sonho de Eternidade, no reality.
Eu fico pensando em quantas vezes o corpo magro foi vendido como sinônimo de valor e não só de beleza. Valor moral. Valor de existência. Como se ocupar menos espaço fosse também ser menos ameaçadora. Menos “matável”.
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Porque quando a gente fala de feminicídio, não dá pra separar do que a cultura constrói como mulher desejável. E aqui não é sobre gosto pessoal. É sobre estrutura.
Pesquisadoras como Sabrina Strings demonstram como a valorização moderna da magreza está profundamente ligada a processos históricos de racialização, em que o corpo negro foi construído como excessivo e indisciplinado, enquanto o corpo magro se consolidava como símbolo de autocontrole e superioridade moral. Já Roxane Gay, ao narrar sua própria experiência, explicita como a gordofobia atua como mecanismo de desumanização, retirando de determinados corpos o estatuto de dignidade plena.
E quando um corpo deixa de ser plenamente humano aos olhos de uma sociedade, a violência contra ele encontra menos resistência.
Talvez por isso seja tão difícil - e tão urgente - fazer essa conexão: o feminicídio não começa no ato extremo, ele começa muito antes, no modo como aprendemos a olhar, julgar e regular corpos femininos. Começa na ideia de que mulheres devem caber em padrões, em expectativas, em relações. Começa na naturalização de que esse corpo pode (e deve) ser controlado, seja por ela mesma, seja por quem está ao seu redor.
Eu, Jéssica Balbino, já escrevi e disse muitas vezes: o ódio ao corpo gordo não é só sobre estética é sobre quem pode viver com dignidade. Sobre quem pode ser desejada, amada, protegida. Sobre quem é vista como sujeito.
E aí entra o que Ana Paula tocou e que precisa ser aprofundado: o desejo.
A mulher desejada, dentro dessa lógica, é aquela que cabe. Que não transborda. Que não confronta. Que não ocupa. A magreza extrema, muitas vezes celebrada, não é só sobre padrão: é sobre domesticação. Um corpo que não ameaça.
Quando esse controle falha, a violência aparece como correção. Mas e quando a gente cruza isso com o feminicídio?
A pergunta é incômoda, mas necessária: quais corpos são mais facilmente descartáveis? Quais mulheres a sociedade se mobiliza para salvar e quais ela já decidiu que não importam tanto?
Não existe resposta simples, mas existe um padrão. Corpos que fogem da norma - gordos, negros, trans, periféricos - historicamente recebem menos empatia, menos cobertura, menos justiça. Isso não é coincidência. Isso é projeto.
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Por isso, quando Ana Paula Renault traz esse debate para um espaço de altíssima visibilidade, ela rompe um silêncio que interessa a muita gente manter. E isso importa. Muito. Mas também exige continuidade.
Porque não basta tensionar: é preciso sustentar. A fala precisa virar conversa, a conversa precisa virar posicionamento, e o posicionamento precisa virar prática.
No sábado passado, Ana Paula Renault foi punida pela direção do programa ao se recusar a usar um vestido de uma festa de patrocinador que não a deixava confortável com o corpo à mostra e protagonizou um dos momentos mais emblemáticos do reality, não apenas aceitando a punição para não ficar desconfortável, mas se recusando a fazer concessões para caber onde não cabe. Bancando e sustentando o próprio desejo e quem se é. Tocando na pauta do etarismo - ela é uma mulher de 44 anos, que repete isso à exaustão, pontuando a fase da vida em que está e bancando que não vai servir de vitrine ao desejo alheio, tendo o corpo sexualizado em rede nacional sem querer que isso aconteça.
Mas, voltando ao tema de hoje, a gente precisa falar de magreza sem glamourizar adoecimento.Precisa falar de desejo sem reproduzir hierarquias de corpos.
E precisa, sobretudo, entender que a violência contra mulheres começa muito antes do ato extremo, ela começa no que a gente naturaliza como aceitável.
O corpo como projeto político
A gente foi ensinada a achar que dieta é saúde. Que magreza é autocuidado. Que disciplina corporal é virtude. Mas isso tem história. No Brasil do século XIX, figuras como Nina Rodrigues ajudaram a construir uma ciência, a eugenia, que hierarquizava corpos - quem era mais “civilizado”, quem era mais “controlado”, quem era mais “excessivo”.
Existe uma história longa - e nada inocente - por trás daquilo que hoje a gente chama de “padrão de beleza”. Era a ciência da época, diziam. Era também um projeto de poder, que articulava raça, gênero e classe para definir quem podia ocupar espaço e quem precisava ser contido.
Antes disso, a própria medicina racial comparava corpos de mulheres negras e brancas, atribuindo à mulher negra uma suposta resistência “animalizada” e à branca uma fragilidade “civilizada”
Traduzindo: controle corporal sempre foi ferramenta de poder. E mais: ferramenta de distinção.
O problema é que essa lógica não ficou no século XIX, ela só mudou de roupa, de linguagem e de estratégia.
Hoje, a gente não fala mais em degeneração racial, mas fala em “risco metabólico”. Não se mede mais crânio, mas se mede percentual de gordura, índice de massa corporal, circunferência abdominal. Não se fala em inferioridade, mas se produz, com a mesma convicção, o diagnóstico: corpo gordo como corpo doente, corpo a ser corrigido, reduzido, tratado.
E, curiosamente, isso vem sempre acompanhado de uma estética muito específica, a da magreza extrema, limpa, performática, quase asséptica, vendida como sinônimo de saúde e autocontrole.
As chamadas super dietas, os protocolos restritivos, as rotinas exaustivas e, mais recentemente, as canetas emagrecedoras transformadas em solução rápida e aspiracional não operam apenas no campo da medicina ou do bem-estar. Elas participam de um regime mais amplo de hipervigilância dos corpos, em que cada grama, cada caloria, cada centímetro vira dado, meta, fracasso ou sucesso.
É um corpo permanentemente monitorado, e, portanto, permanentemente disciplinado.
E aqui mora um ponto que a gente precisa ter coragem de nomear: quando a saúde vira performance, ela deixa de ser cuidado e passa a ser controle. E controle, quando sistemático, normativo e excludente, sempre flerta com lógicas autoritárias.
Não é à toa que a magreza contemporânea carrega, muitas vezes, uma estética de pureza, de eficiência, de superioridade silenciosa - um corpo que não transborda, não falha, não ocupa além do permitido. Um corpo que se encaixa.
A ciência, que deveria ampliar possibilidades de existência, muitas vezes é mobilizada para legitimar essa redução, transformando corpos gordos em problema público, em estatística alarmante, em urgência médica constante - como se existir em um corpo maior fosse, por si só, um erro a ser corrigido.
E é aqui que a gente precisa prestar atenção: não se trata de negar a saúde, mas de questionar quem define o que é saudável, para quem e a partir de quais interesses.
Porque quando um determinado tipo de corpo é sistematicamente associado à doença, à falta de controle, à falha moral, a gente não está apenas falando de medicina - a gente está falando de um projeto que continua decidindo, como lá atrás, quem pode ocupar espaço e quem precisa ser reduzido.
Se antes essa contenção passava por teorias raciais e medições absurdas de crânios, hoje ela aparece de forma muito mais palatável: na dieta da vez, no aplicativo que contabiliza calorias, no discurso da “melhor versão de si mesma”, no culto à chamada vida saudável. Mudou a embalagem, não mudou a lógica. Aliás, talvez tenha ficado mais eficiente.
Porque agora o controle não precisa mais ser imposto de fora para dentro, ele é internalizado, celebrado, performado. A mulher aprende a vigiar o próprio corpo, a negociar com a fome, a transformar restrição em virtude e sofrimento em mérito, tudo isso sob o selo da saúde. E é curioso como, nesse processo, saúde deixa de ser condição e vira moral: não basta estar bem, é preciso ser disciplinada, produtiva, enxuta, quase uma versão otimizada de si, como se o corpo fosse um projeto em constante correção.
A filósofa do corpo gordo Malu Jimenez e o campo de estudos conhecido como “Pesquisa Gorda” no Brasil já vêm dizendo isso há anos: a gordofobia não atua sozinha - ela cruza com raça, gênero e classe. E aqui entra uma chave importante: dietas funcionam como tecnologias de autocontrole, ou só de controle, já que ensinam a vigiar o próprio corpo, reduzir desejos, aceitar a fome como virtude, transformar sofrimento em mérito.
E é importante lembrar que, no confinamento do reality, Ana Paula Renault emagreceu a olhos visíveis desde que o programa estreou até hoje. Na “Xepa” em todas as semanas, com exceção de duas, em que foi convidada ao VIP e posteriormente retirada pelas dinâmicas do jogo, ela reclama constantemente de fome e enjoo - sim, sabemos que é o “preço” de se concorrer a 5,5 milhões, mas é também a fome como entretenimento na TV Brasileira, lida como “natural” e até mesmo “saudável” pela direção do programa.
Contudo, preciso reforçar: magreza não é só estética. Isso é adestramento.
A própria literatura feminista internacional já chamou isso de algo próximo a um “sedativo político”: quanto mais você está ocupada tentando diminuir seu corpo, menos você expande sua presença no mundo.
Quando Ana Paula Renault fala de magreza extrema, desejo e violência, ela toca num ponto que a academia já vem gritando há décadas: não existe padrão corporal neutro. Todo padrão carrega um projeto de sociedade. E o nosso projeto, historicamente, tem sido: mulheres menores, mulheres mais silenciosas, mulheres mais controláveis.
Portanto, ao citar Nina Rodrigues, não é por fetiche histórico. É porque ele representa uma lógica que nunca morreu: a tentativa de classificar corpos entre superiores e inferiores, controlados e descontrolados.
Recentemente, a influenciadora Krishna postou um vídeo que circula como inspiração nas redes, ajudando a entender isso com uma clareza desconfortável. Não se trata de uma pessoa específica, mas do que ela representa: um corpo convertido em vitrine de controle absoluto, onde cada escolha alimentar, cada rotina, cada detalhe estético comunica disciplina extrema como valor central. E disciplina extrema, quando aplicada historicamente aos corpos das mulheres, raramente significou liberdade - significou contenção, docilização, previsibilidade.
O controle dos corpos é fascismo. Um corpo que aprende a negar a própria fome aprende também a negar outras coisas: desejo, limite, incômodo, revolta.
E um corpo que não revolta… dificilmente ameaça.
Não por acaso, discursos contemporâneos aparentemente opostos acabam convergindo nesse ponto. De um lado, movimentos conhecidos como redpill defendem abertamente a submissão feminina e idealizam uma mulher jovem, magra, controlada, emocionalmente manejável; de outro, certos campos que se pretendem críticos ao patriarcado também, por vezes, recaem em novas formas de regulação, definindo quais corpos são aceitáveis, quais práticas são legítimas, quais expressões são toleráveis. No fim das contas, o campo de batalha segue sendo o mesmo: o corpo da mulher, permanentemente observado, corrigido, enquadrado.
O que antes era feito com régua e crânio, hoje é feito com: balança, percentual de gordura, rotina alimentar, estética de Instagram, ou seja, mudou a linguagem. Não mudou o projeto.
Corpos obedientes e feminicídio
Fico pensando muito nessa frase que não sai da cabeça: a gente não passa um dia sem um caso. E, pela primeira vez, isso não soa como exagero retórico. Os números sustentam esse incômodo.
Mas claro, a gente prefere não conectar as coisas. Fica mais fácil acreditar que feminicídio é um ponto fora da curva, um descontrole individual, uma tragédia isolada, do que admitir que ele é o desfecho de uma lógica muito bem organizada de controle dos corpos - especialmente dos corpos femininos.
E é aqui que a fala da Ana Paula deixa de ser “polêmica de reality” e passa a ser diagnóstico.
Segundo a Agência Brasil, em 2025, o Brasil registrou 1.470 mulheres assassinadas por feminicídio, o maior número da série histórica . Em outra leitura mais ampla - que inclui subnotificação e tentativas - o número chega a 6.904 vítimas, entre mortes e tentativas, um aumento de 34% em relação a 2024 . Isso significa que o país vive algo próximo de quase 6 mulheres mortas por dia, ou, a cada 4 horas, uma mulher é morta por ser mulher.
E não para aí. Os processos judiciais mostram que essa violência não só existe - ela está se acumulando: os casos praticamente triplicaram em cinco anos, chegando a mais de 12 mil novos processos em 2025. Em janeiro de 2026, já houve crescimento novamente .
Ou seja: não é um problema resolvido. Não é um problema estável. É um problema em expansão. E tem algo ainda mais brutal: mesmo esses números não dão conta de tudo.
Pesquisadoras apontam que há subnotificação, feminicídios que não são registrados como tal, mortes que não entram na estatística, violências que nunca viram boletim . A conta real, como quase sempre quando se trata de mulheres, é maior.
Quando a ministra Cármen Lúcia chama isso de “barbárie”, ela não está exagerando, ela está nomeando um projeto de sociedade em curso. E essa palavra importa. Porque “barbárie” quebra a ideia de caso isolado. Barbárie é sistema. É repetição. É padrão. E foi o que Ana Paula Renault tentou explicar hoje, didaticamente, no quarto Sonho de Eternidade, no reality.
E, talvez não por acaso, é exatamente esse o corpo que também aparece como ideal em outro lugar, menos “fitness”, mais explícito: a internet.
Fóruns como 4chan, comunidades incel, grupos redpill e uma infinidade de canais, podcasts e perfis dedicados a ensinar homens a “entender” e “dominar” mulheres vêm, há anos, construindo uma pedagogia do ódio. Nesses espaços, mulheres são avaliadas por “valor”, reduzidas a aparência e disponibilidade sexual, e constantemente atacadas especialmente quando fogem do padrão.
Corpos gordos, por exemplo, se tornaram alvo preferencial de campanhas coordenadas de humilhação: enxurradas de comentários ofensivos, ameaças de estupro, incentivo à violência. Isso não é espontâneo, é treinado, repetido, incentivado.
E não fica só no digital. Pesquisas já apontam que essas comunidades normalizam e, em alguns casos, incentivam violência real contra mulheres, sendo analisadas como formas contemporâneas de radicalização. A lógica é simples e brutal: se a mulher não cumpre o papel esperado, ela deve ser corrigida. Se não pode ser corrigida, pode ser punida.
Perda de controle. Essa é a chave.
Porque tudo isso, da dieta ao fórum, gira em torno da mesma ideia: o corpo feminino precisa ser controlado. E quando esse controle falha, a violência aparece.
Porque quando um corpo deixa de ser visto como plenamente humano, ele se torna mais vulnerável. E o feminicídio, esse número que cresce, que se repete, que se acumula, não nasce do nada.
Ele é o ponto final de uma pedagogia longa. Uma pedagogia que ensina mulheres a diminuir e homens a controlar.
E que se sustenta em estruturas antigas: colonização, capitalismo, patriarcado, sistemas que sempre dependeram da organização e da hierarquização dos corpos para funcionar.
Talvez por isso corpos livres incomodem tanto. Corpos gordos, corpos que ocupam, corpos que recusam a lógica da escassez não são apenas corpos são ruptura. São falha no sistema. São aquilo que não pode ser facilmente disciplinado, reduzido ou silenciado.
E, num cenário em que mulheres seguem sendo mortas em números crescentes, essa ruptura deixa de ser só estética ou política.
Agora volta comigo para o ponto que a Ana Paula tocou. Ela está confinada desde janeiro, antes da estreia do programa. Ou seja: enquanto ela falava hoje, já existia um acúmulo de mortes acontecendo aqui fora - sem filtro, sem edição, sem câmera cortando para o intervalo.
Enquanto o país assistia ao BBB, mulheres estavam sendo mortas. E isso muda completamente o peso da fala, porque não é uma análise distante, mas uma colisão entre discurso e realidade.
E aí a gente precisa ter coragem de dizer o que geralmente fica nas entrelinhas: o feminicídio não começa na faca, no tiro ou no estrangulamento. Ele começa muito antes.
Começa quando a gente define quais corpos importam. Quais corpos são desejáveis.
Quais corpos são protegidos. E, principalmente, quais não são.
Quando a pesquisadora Sabrina Strings fala sobre a construção histórica da magreza como norma civilizatória, ela está, também, falando de quem é considerado humano o suficiente para ser preservado.
Quando a escritora Roxane Gay traz sobre a violência simbólica contra corpos gordos, ela está falando de um processo contínuo de desumanização.E desumanização não é só xingamento. É terreno fértil para violência.
Então quando uma mulher magra, branca, midiática, como Ana Paula Renault, usa sua visibilidade para tensionar esse sistema, isso não é pequeno, isso é necessário. Já falei sobre isso nesta coluna, sobre quando pessoas magras se isentam do debate e da luta, justamente por não considerarem que o problema as afeta.
Mas também é insuficiente se parar ali, porque o que está em jogo não é só estética. É quem vive e quem morre.
Chamar isso de exagero talvez seja uma forma de autoproteção, mas a história mostra que projetos de padronização corporal sempre caminharam ao lado de projetos autoritários. O fascismo, em suas múltiplas expressões, nunca escondeu sua obsessão por corpos disciplinados, produtivos, previsíveis, alinhados a uma norma. Não é sobre dizer que toda dieta é fascista, mas é preciso ter coragem de reconhecer quando determinadas práticas coletivas começam a reproduzir, ainda que de forma diluída, a mesma lógica de controle e exclusão.
E é nesse ponto que a fala de Ana Paula Renault ganha densidade: ao aproximar magreza extrema, desejo e violência, ela expõe uma engrenagem que costuma operar de forma silenciosa, naturalizada, quase invisível.
Talvez o incômodo venha daí. Porque, uma vez visto, fica difícil desver.
E aí a pergunta deixa de ser sobre estética ou estilo de vida e passa a ser outra, bem menos confortável: quem se beneficia de mulheres ocupadas demais tentando diminuir seus corpos, suas vontades e suas presenças?
A gente está diante de um país onde o feminicídio virou cotidiano. Onde os números sobem mesmo com leis mais duras. Onde os casos se repetem mesmo com campanhas. Onde a indignação dura 24 horas ou até o próximo caso. Um país onde, estatisticamente, amanhã terá outra. Ou seis outras.
E talvez, justamente por isso, corpos que escapam - corpos gordos, corpos que ocupam, que não se submetem à lógica da redução - sejam tão atacados. Porque eles rompem com a pedagogia da obediência. Porque eles existem fora do script.
Então sim, importa que ela fale. Importa muito. Mas importa ainda mais que a gente sustente essa conversa fora da casa, fora da TV, fora do trending topic.
Porque enquanto isso for tratado como episódio, e não como estrutura,
a gente vai continuar contando. Uma por dia. Duas.
Quase seis. E achando que isso é normal.
E, em tempos como os nossos, existir fora do script pode ser não apenas um gesto político, mas uma forma de permanecer viva.
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