Quem caminha pelo Centro de Belo Horizonte costuma andar com pressa, imerso, de forma automática. Quando se está dentro de um ônibus, a paisagem é apenas um pano de fundo barulhento na luta contra o relógio e o destino, muitas vezes imersos numa tela. Para o pedestre, o ruído dos carros e dos ônibus, o vaivém frenético nas calçadas sob o olhar do Pirulito da Praça Sete.
Mas experimente, por um instante, desacelerar o passo. Não muito, apenas um pouco. Mude o ritmo e pratique o que a psicologia ambiental chama de “mindful walking”, ou o caminhar consciente. Ao invés de andar freneticamente, apenas mirando o destino, experimente prestar atenção à paisagem, prestar atenção às pessoas com quem se cruza, e a observar as árvores, prédios, suas portas, as lojas, cafés e restaurantes. Experimente levantar os olhos para a nossa paisagem urbana.
O Hipercentro deixa de ser um mero labirinto de asfalto e se revela um poderoso tônico para a nossa saúde mental.
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Não se trata de romantismo bobo; é ciência pura. Estudos de neuroimagem de universidades como Stanford e artigos do Journal of Environmental Psychology comprovam que o ato de caminhar sem pressa por ambientes que misturam natureza urbana e arquitetura histórica reduz drasticamente a atividade na parte específica do cérebro responsável pela ansiedade. Ao contemplarmos a volumetria de uma fachada antiga ou o desenho de portas e grades elaborados, ativamos a "Teoria da Restauração da Atenção". É a chamada fascinação suave, que dá um descanso merecido à nossa mente saturada pelas telas digitais.
O Centro de BH é uma verdadeira geografia de memórias, um mapa vivo que ativa nossos centros de prazer e recompensa tanto pela evocação de um outro tempo, uma espécie de nostalgia, quanto pelos registros das experiências passadas de cada um de nós. Cruzar a amplitude da Praça da Estação, perder-se nos aromas e texturas do Mercado Central ou flanar pelos corredores da Galeria Ouvidor são rituais de pertencimento.
Cruzar a Praça Sete em frente ao Cine Theatro Brasil, passar pelo Café Nice, sentir o cheiro do Kaol do Café Palhares ou observar o anoitecer na varandas do Niê, no alto do P7 Criativo. Longe de ser um site-seen do Centro, é acionar âncoras emocionais em lugares que guardam a biografia coletiva da cidade e a nossa própria história. Essa conexão estética e afetiva funciona como um abraço urbanístico, devolvendo-nos o senso de identidade e continuidade que a vida moderna insiste em não dar importância.
A grande novidade é que esse ecossistema mental e urbano está prestes a ganhar um fôlego renovado. A nossa paisagem, por vezes castigada pelo esvaziamento, começa a desenhar sua própria renascença. A Lei do Retrofit (Lei nº 11.783/2024), que já trouxe incentivos cruciais para a reabilitação de prédios antigos e subutilizados, está em vias de ser ampliada e aprimorada pela Câmara Municipal. Um novo projeto de lei (574/2025) tornará a regeneração das áreas centrais ainda mais atrativa, e destravando novos projetos, não apenas trazendo moradores de volta, mas reativando as fachadas ativas — que já existem lá a 100 anos ou mais, amplificando o dinamismo, luz e os sagrados "olhos da rua" de que falava Jane Jacobs, tornando o caminhar muito mais seguro e convidativo.
Um importante símbolo dessa virada já pode ser contemplado durante suas caminhadas conscientes. A menos de um quarteirão da Praça Sete, as obras do Edifício Maranhão estão a pleno vapor. Primeiro gigante da década de 1940 a ser totalmente licenciado sob a nova lógica de incentivos, ele está deixando para trás 7 décadas como um dos epicentros comerciais da capital, para iniciar uma nova vida como endereço residencial. Assistir ao renascimento do Edifício Maranhão é assistir à materialização de que o patrimônio histórico não precisa ser uma peça de museu intocável, mas sim um organismo vivo capaz de acolher o futuro.
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Ao reconectar o passado arquitetônico com a vitalidade das calçadas, o Hipercentro desenha o seu destino mais nobre. À medida que os antigos gigantes de concreto se transformam e a legislação abre caminho para a vida urbana pulsar, o Centro de Belo Horizonte reassume sua maior vocação: consolidar-se como o endereço preferencial de moradia para uma nova geração, ocamente abraçado por quem escolhe viver imerso na história e na alma da cidade.
