"Onde posso conseguir um problema onde não há nenhum?"
Os demolidores de sonhos conseguiram tornar o atleticano persona non grata no querido Galo da Madrugada, que lástima, que gente inimiga da felicidade
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Não sei se acontece com o raro leitor, mas na minha patologia todo galo do mundo é Galo. Desde o frango da Sadia até a Missa do Galo, é tudo em honra e glória ao Clube Atlético Mineiro, incluindo o poema do João Cabral sobre o galo sozinho que não tece a manhã, claramente uma ode à melhor torcida do mundo. Se é Ano do Galo no calendário chinês, já escuto os sinais a reverberar no Brasileirão que nem começou. Por motivo de Galo, sempre gostei da França. Da Le Coq Sportif e do coq au vin. Na minha casa Andorinha nunca fez verão – só entra o azeite que todos sabemos, por óbvio.
Em razão desse aspecto da doença, este escriba, que jamais pisou no Recife, atesta e comprova aquilo que o Guinness Book já sabe: o Galo da Madrugada é o maior bloco de carnaval do mundo. Maior e melhor. Digo isso com a autoridade de quem amanheceu com o Sapo Seco em Diamantina, salvou a Tia Surica de ser pisoteada pelo Bola Preta no Rio de Janeiro, e viu fundar os Acadêmicos do Baixo Augusta em São Paulo. Nenhum desses, porém, chega aos pés de galinha do grande Galo da Madrugada.
Em meu sonho de folião, desfilaria no Galo da Madrugada vestido de Atlético e com minha portentosa crista. Que, aliada a uma máscara de cachorro, tem sido desde sempre minha fantasia predileta, conhecida entre meus familiares como Cachorralo. Nas últimas duas décadas, só abri mão do Cachorralo uma única vez, em favor do Porco Capitalista, com nariz de tomada e dólares saindo pelo bolso do terno, mais apropriado ao baile que se deu na avenida Paulista.
O Galo da Madrugada, pois, seria a consagração final do Cachorralo. Não fosse a safada da SAF. Não fosse a junta de asnos. Não podem ver uma vergonha e já querem passar. Motivo pelo qual meteram um processo no bloco reivindicando o direito exclusivo sobre a palavra Galo. O papa que vá rezar a Missa do Peru, muito mais adequada. O azeite que se vire e sem derramar porque custa uma córnea.
Imagine quando descobrirem que o tradutor do XVideos usa e abusa de “galos grandes”, “galos monstros” e outras variáveis para o dick vigarista? A SAF vai botar todo mundo no pau!
De modo que os demolidores de sonhos conseguiram tornar o atleticano persona non grata no querido Galo da Madrugada, que lástima, que gente inimiga da felicidade, que vergonha. Foram, viram e perderam, é claro, e ainda pagarão as custas do advogado do bloco. Ainda bem, imagina ganhar uma coisa dessa e os caras ficarem obrigados a mudar, sei lá, para Chester da Madrugada? Ou Gato da Madrugada? Onde enfiaríamos nossa crista?
Dá-se a impressão de que a SAF acorda de manhã e pensa: “Onde posso conseguir um problema onde não há nenhum?”. Assim fizeram da possível saída do Hulk uma novela que mistura ingratidão, mentiras e a burrice de sempre. E assim temos mais um caso do sujeito que entrou funcionário e saiu inimigo. O Hulk. O segundo maior da história. Parabéns às cavalgaduras.
E veja: se sair, fica ruim. Se ficar, pense no clima. É igual o Galo da Madrugada. A SAF tem na máxima de Dilma Rousseff seu grande lema: “Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder!”. Ou, como disse o grande pintor do Barroco, “perdemos mais uma”.
Fico a pensar se esse não é objetivo: perder. Começo sinceramente a achar que se tratam de cruzeirenses infiltrados. Assim como morrem as democracias, por dentro, estão a assassinar o Galo a partir de suas entranhas, os miúdos, a moela, o fígado e o coração. Sobretudo o coração. Quando a turma do Salsicha finalmente arrancar a máscara, digamos, do Rafael, lá estará o Itair. Não digam que não avisei.
Contudo, pessoal, o ano é 2026. Não sendo Ano do Galo, melhor seria se fosse do Burro, mas infelizmente é de seu primo distante, o Cavalo. Ainda assim, renovemos nossas esperanças, apesar da junta onde fomos amarrar nossa carroça. Deixemos que a boa onda venha a galope! Fé no Sampaoli, foco nas quatro linhas e força pra parte da Massa que decidiu protestar, em especial à combativa GDR. O Galo é grande, como diria o Kid Bengala, e o negócio é deixar o careca trabalhar.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
