Conservadores do Brasil, uni-vos. Poucas coisas são tão nocivas à família do que a escala 6x1.
Por esse motivo, é quase impossível – para não dizer contraditório – defender os valores familiares, fundamentais para o desenvolvimento de uma sociedade saudável, e ao mesmo tempo uma moral do trabalho constante.
Eu sei que, ao longo da história, o trabalho foi visto como uma espécie de antídoto contra os vícios, um remédio que curava a vagabundagem e garantia progresso à família. Mas essa foi uma ideia veiculada por sociólogos, pessoal com um pezinho na esquerda. Isso já levantaria muitas suspeitas.
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A moral do trabalho diário, extenuante e disciplinado — essa que manda você “trabalhar enquanto eles dormem” — é vendida como virtude cristã, quando na prática funciona mais como voto de celibato doméstico. Que família resiste a um pai e mãe que saem antes do café e voltam depois do Boa Noite? A escala 6x1 é tão amiga do lar quanto uma sogra com a chave da casa.
Conservadores, a história exige coerência: se a família é a célula-mãe da sociedade, por que insistir em um modelo que a coloca em regime de visitação? Seis dias servindo ao mercado e um dia para lembrar o nome dos filhos. É quase um “pai EAD”: presença híbrida e afeto por videoconferência.
Mas o trabalho dignifica o homem! – dizem. Dignifica tanto que ele mal consegue se sentar à mesa para jantar. Dignifica a ponto de transformar o domingo em UTI de exausto. Dignifica tanto que o sujeito passa mais tempo com o chefe do que com a esposa — e, se isso não é ameaça aos valores familiares, eu não sei o que é. Já imaginaram o perigo? O patriarca começa a saber mais sobre as metas trimestrais da empresa do que sobre as notas da escola do filho. Onde vamos parar?
E essa conversa de “carreira”, então? Sinônimo de corrida de longa distância. Trabalhe enquanto eles dormem, dizem os gurus do sucesso… e, quando eles acordarem, você já saiu. Trabalhe enquanto eles dormem… e, quando crescerem, você pergunta: “moço, você é primo de quem?”. É o sonho americano adaptado ao boleto brasileiro.
Não me entendam mal: não estou aqui defendendo a preguiça revolucionária, nem propondo que troquemos o despertador por uma rede na varanda. Estou apenas sugerindo que seis dias de labuta para um de descanso não seja exatamente o projeto de família tradicional que exige proteção. Porque tradição, que eu saiba, inclui almoço demorado, conversa no portão, culto, futebol com os filhos — e não apenas a adoração sagrada do cartão de ponto.
Aliás, que curioso: existe um combate fervoroso em relação a tudo o que supostamente ameaça a família — filmes, livros, ideologias, cores do arco-íris — mas aceitamos sem pestanejar um modelo de trabalho que espreme pais e mães até que a única coisa que sobre no fim do dia seja cansaço. Talvez o verdadeiro inimigo não esteja na estante da livraria, mas na escala afixada no mural da firma.
A escala 6x1 é quase um divórcio parcelado: você não sai oficialmente de casa, mas também não está lá. É a guarda compartilhada entre o lar e o CNPJ. Se isso é defender valores, estamos defendendo valores mobiliários — e olhe lá.
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Conservadores do Brasil, uni-vos — mas uni-vos em casa, na sala, ao redor da mesa. Se queremos preservar a autoridade dos pais, a convivência entre irmãos e a solidez do casamento, talvez devêssemos começar garantindo que essas pessoas se encontrem mais de um dia por semana. O fim da escala 6x1 não é uma revolução cultural; é, no máximo, um retorno ao básico: família exige tempo.
