Por Ana Flávia Sales

As eleições de 2026 chegaram ao fim e, independentemente de quem venceu ou perdeu, talvez seja este o momento de respirar. Respirar para compreender os resultados, refletir sobre os próximos anos e reconhecer que o Brasil precisa encontrar um caminho que não dependa da divisão permanente de sua população.

Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito presidente da República com 51,79% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro recebeu 48,21%. Uma vitória legítima, mas que revela um país dividido. Quase 60 milhões de brasileiros votaram em um projeto político diferente. Muitos desses eleitores buscavam mudanças, novos rumos e, sobretudo, uma nova esperança para o Brasil.

Não podemos ignorar esse sentimento. Quem perdeu a eleição também tem expectativas, necessidades e o direito de ser ouvido. E o governo reeleito precisará apresentar respostas concretas a essa parcela da população, demonstrando que é capaz de rever prioridades, corrigir caminhos e governar para todos.

A democracia exige respeito à vontade da maioria, mas também consideração por aqueles que fizeram outra escolha. Vencer uma eleição não significa receber aprovação irrestrita à forma de governar. Da mesma maneira, perder não retira de ninguém o direito de participar das decisões sobre o futuro do país.

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Como professora de Direito e advogada, sempre me preocupou a construção de figuras políticas tratadas como mitos, quase como se fossem um pai, um protetor ou um salvador da pátria. A idolatria política é perigosa porque transfere para uma pessoa a responsabilidade que pertence às instituições e à própria sociedade.

Nenhum presidente, seja ele quem for, salvará o Brasil sozinho. Não precisamos de mitos, de heróis ou de líderes colocados acima de qualquer crítica. Precisamos de governantes preparados, instituições fortes e cidadãos conscientes. A democracia não pode depender da devoção a uma pessoa, mas da confiança nas instituições e da capacidade de exigir resultados.

E o brasileiro está cansado. Cansado dos mesmos discursos, das promessas que se repetem a cada eleição, das disputas intermináveis e de uma política que, muitas vezes, parece mais preocupada em derrotar adversários do que em resolver problemas. O povo quer ser ouvido. Quer mudanças que ultrapassem os discursos eleitorais. Quer uma nova forma de governar.

A composição do novo Congresso Nacional reforça esse recado. O Partido Liberal conquistou a maior bancada da Câmara dos Deputados, com 121 parlamentares, e terá 28 representantes no Senado Federal. A federação formada por PT, PCdoB e PV elegeu 88 deputados, enquanto o PT contará com nove senadores.

O eleitor escolheu um presidente, mas também fortaleceu uma oposição expressiva. Isso exigirá diálogo, maturidade e respeito à independência dos Poderes. O governo não poderá confundir vitória eleitoral com autorização para governar sem ouvir. E a oposição precisará compreender que fiscalizar e discordar não significa impedir, sistematicamente, qualquer avanço.

O mercado financeiro também enviou um sinal que merece atenção. No primeiro pregão após as eleições, o dólar subiu 8,21%, encerrando o dia a R$ 5,403, enquanto o Ibovespa registrou queda de 13,88%. Embora uma reação imediata não determine o futuro da economia, ela revela expectativas e incertezas que não podem ser desprezadas.

O governo precisará demonstrar responsabilidade fiscal, previsibilidade e capacidade de recuperar a confiança dos investidores. Afinal, a instabilidade econômica não afeta apenas o mercado financeiro. Seus reflexos chegam ao crédito, ao emprego, aos preços e, principalmente, ao orçamento das famílias.

E é justamente na vida cotidiana que precisamos concentrar nossas atenções.

O brasileiro quer trabalhar, receber seu salário e conseguir pagar suas contas. Quer entrar no supermercado sem precisar escolher quais produtos deixar para trás. Quer empreender sem enfrentar uma burocracia interminável e uma carga tributária que compromete, muitas vezes, a sobrevivência do próprio negócio.

Por isso, precisamos discutir seriamente a reforma tributária. O Brasil já aprovou mudanças importantes na tributação do consumo, mas uma reforma não pode ser considerada bem-sucedida apenas porque simplificou normas ou reorganizou tributos.

Uma reforma tributária efetiva precisa produzir resultados concretos: maior justiça fiscal, estímulo à produção, redução de distorções e mais poder de compra para a população. Não basta mudar a legislação. É necessário que o cidadão perceba a diferença no seu dia a dia.

Outra discussão que não pode continuar sendo adiada diz respeito à reforma do Poder Judiciário, especialmente à composição dos tribunais superiores.

Como advogada e professora de Direito, reconheço a importância de um Judiciário independente, comprometido com a Constituição e com a proteção dos direitos fundamentais. Entretanto, independência não significa ausência de limites, nem afasta a necessidade de aperfeiçoamento institucional.

Precisamos discutir, sem paixões partidárias, a possibilidade de estabelecer mandatos determinados para os ministros do Supremo Tribunal Federal. Atualmente, a permanência no cargo está vinculada, em regra, à aposentadoria compulsória aos 75 anos. Mas será esse o modelo mais adequado para a realidade brasileira?

Também considero legítimo debater a possibilidade de reservar parte das vagas dos tribunais superiores à magistrados de carreira, valorizando a experiência jurisdicional e critérios objetivos de qualificação técnica, sem desconsiderar a contribuição de profissionais oriundos da advocacia, do Ministério Público e da academia.

São discussões necessárias, que precisam ser conduzidas com responsabilidade e respeito à Constituição. Uma reforma do Judiciário não pode servir aos interesses de um governo ou de uma oposição. Precisa fortalecer as instituições para as próximas gerações.

Aliás, talvez esse seja um dos nossos maiores problemas: pensamos o Brasil a partir de governos, quando deveríamos pensar o país a partir de suas necessidades permanentes.

Precisamos de políticas públicas que sobrevivam às alternâncias de poder, de instituições que cumpram suas funções e de representantes que compreendam que o mandato recebido nas urnas não lhes confere a propriedade do Estado.

O governo precisa repensar sua forma de governar. Precisa compreender que uma parcela expressiva da população deseja novos rumos, mais segurança, melhores condições econômicas, serviços públicos eficientes e instituições que mereçam sua confiança.

A oposição, por sua vez, tem a responsabilidade de apresentar propostas, fiscalizar e contribuir para o desenvolvimento do país. E nós, cidadãos, precisamos abandonar a ideia de que quem pensa diferente é, necessariamente, nosso inimigo.

O Brasil não pode permanecer dividido entre vencedores e vencidos durante os próximos quatro anos. A eleição acabou, mas os problemas continuam. E nenhum deles será resolvido com idolatria, discursos de ódio ou disputas políticas permanentes.

Quem venceu precisa governar para todos. Quem perdeu precisa exercer uma oposição responsável. E quem votou precisa continuar acompanhando, cobrando e participando.

O brasileiro não quer apenas um novo discurso. Quer uma nova postura, uma nova maneira de fazer política e a esperança de que o futuro possa ser diferente.

No fim, pouco importa quem reivindicará uma vitória política daqui a quatro anos se, até lá, não conseguirmos melhorar concretamente a vida da população.

O Brasil não precisa de um salvador da pátria. Precisa de responsabilidade, diálogo, instituições fortes e coragem para mudar.

E, acima de tudo, precisamos compreender que não é necessário pensar da mesma forma para desejar um Brasil melhor.

Esse deveria ser o compromisso de todos nós.

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Ana Flávia Sales é Advogada, Mestre e Professora de Direito Processual Civil
@advogadaanaflaviasales

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