Tenho que fazer uma confissão que hoje me envergonha: de pequena, cismava que não gostava de alguma coisa sem nunca ter experimentado. O mais absurdo é que isso já aconteceu com pudim. Quando comi pela primeira vez, me bateu um grande arrependimento. Como fiquei tanto tempo sem aquela cremosidade e aquele sabor caramelizado?
Pois bem, ambrosia é um doce que sempre falei que não gostava. Minha avó fazia e eu me recusava a provar – até porque tinha uma opção muito melhor, o inesquecível doce de leite com nata. Costumava almoçar em um restaurante que tinha uma ambrosia famosa e sempre olhava torto para ela. Sou do time que come com os olhos e, cá entre nós, essa não é das sobremesas mais bonitas. Não me apetecia nem um pouco comer ovos mexidos açucarados.
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Resisti por muito tempo, até um jantar no restaurante Trintaeum, em Belo Horizonte. Ana Gabi Costa recebeu Roberta Sudbrack e serviu o seu maravilhoso gelado de queijo de cabra com ambrosia. Era uma referência à história da chef convidada, que tem duas casas no Rio de Janeiro. Na pandemia, enquanto vendia a ambrosia da avó Iracema no delivery, Roberta escrevia cartas para ela, que foram publicadas no livro “Um tal cheiro de ambrosia”.
O doce chegou à mesa numa panelinha de ferro, pegando fogo. Era justamente para abrir a tampa e sentir o tal “cheiro de ambrosia”. Coloquei na boca a primeira colherada e senti um sabor caramelizado dos deuses. Comi, repeti e entendi: encontrei a ambrosia que me fez mudar de lado (com frequência, quebro a cara com as minhas convicções fajutas, ainda bem).
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Soube que a ambrosia era da Rapa do Tacho, que fica no Mercado Novo, Centro da cidade. Não era a primeira vez que me falavam dela, mas nunca dei ouvidos. Tinha chegado a hora de corrigir esse erro e ir lá conhecer quem faz o doce que me conquistou.
Segundo a mitologia grega, a ambrosia era o alimento que garantia imortalidade e felicidade irrestrita aos deuses do Monte Olimpo. Por isso, na Grécia, seu nome significa “comida dos deuses” – o que, provavelmente, originou o elogio que fazemos até hoje a um prato muito delicioso. Entre nós, pobres mortais, a receita com ovos, leite e açúcar está associada à doçaria conventual portuguesa, que deixou sua herança Brasil afora.
Em Martinho Campos, na Região Centro-Oeste de Minas, Laura da Costa aprendeu a fazer ambrosia com a mãe e nunca deixou faltar o doce em casa. Sempre foi o preferido do filho mais novo, Augusto César, que nasceu aquecido pelo calor da ambrosia no fogão. Na noite anterior ao parto, lá estava a grávida mexendo o tacho para garantir uma dose de felicidade ao filho mais velho. Augusto virou um devorador de ambrosia e, depois de 13 anos trabalhando como cozinheiro, teve a ideia de abrir uma loja de doces.
Dizer que a Rapa do Tacho é uma loja chega a ser injusto. Lá você faz uma viagem no tempo e no espaço – eu mesma fui parar na cozinha do quintal da minha avó. A decoração remete à infância do dono na roça e os fogões ficam acesos o tempo todo, com enormes tachos e colheres de pau em constante movimento. Aquele é o lugar onde se preserva o ofício de doceiros e doceiras. Augusto diz que não se preocupou em aprender com a mãe as receitas, o mais importante era entender o modo de fazer.
Lá também é um lugar que mexe com as emoções. Ouvi que muitas pessoas chegam a chorar e testemunhei uma turista de São Paulo que se revelou emocionada com aquela cena, levando a mão ao coração.
O nome Rapa do Tacho vem do apelido que Augusto ganhou do pai por ser o caçula da família, sete anos mais novo que o irmão mais velho. Não foi planejado, mas também virou o nome do seu doce mais falado. Além da versão tradicional (com mais leite e menos açúcar), ele teve a ideia de fazer tudo o que não se deve fazer na cozinha: deixar a mistura queimar e grudar no fundo do tacho, criando a rapa do tacho de ambrosia. Era o jeito de levar o prazer de raspar o fundo da panela da mãe para o pote e oferecer aos clientes. O resultado é aquele sabor caramelizado que me fez, enfim, gostar de ambrosia.
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Entendi ali porque a ambrosia é uma comida dos deuses, ela alimenta a alma.
