Carlos Starling
Carlos Starling
SAÚDE EM EVIDÊNCIA

A saúde e o voto

A viagem foi turbulenta desde que entramos em território brasileiro, como se o país já estivesse nervoso

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“Por que será que os homens lutam pela própria servidão como se lutassem pela própria salvação?”. A pergunta é de Spinoza, e Spinoza nunca pegou fila de imigração em Washington.

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Eu peguei. Uma fila quilométrica, dessas que se dobram sobre si mesmas como cobra ferida, cheia de gente de todo canto do mundo: mães com crianças chorando no colo, velhos arrastando os pés e as malas, todos exaustos de longas viagens. Não havia refresco. Não há refresco.

Há quase 40 anos vou e volto dos Estados Unidos, quase sempre para congressos e reuniões científicas, e nunca o país me pareceu tão mal-humorado à porta. O jeito Trump de receber é o do porteiro que, antes do ‘bom dia’, já avisa: “Vá se catar, você não é bem-vindo aqui”. E há quem goste. Há quem bata palmas para a porta fechada, do lado de fora.

Na entrada do centro de convenções, um segurança me barrou, quis saber aonde eu ia e pediu documentos com a delicadeza de quem revira a lata de lixo. Problema nenhum, se tivesse pedido também às centenas de pessoas que entravam atrás de mim para pegar o crachá. Não pediu. Talvez eu tenha cara de quem carrega infecções na mala. Em certa medida carrego, mas são os pacientes que me chamam, não o contrário. O cheiro de fascismo no ar é como o de um hospital antigo: a gente reconhece de longe, e enjoa.

Na sessão de abertura veio o desabafo. Colegas das universidades norte-americanas, gente da mais alta ciência, falavam do “tesouraço” do governo na saúde pública e na pesquisa como quem descreve uma enchente que levou a casa. O sarampo, que a gente julgava velho conhecido aposentado, voltou a dar aula de epidemiologia nos EUA. Negar a ciência e desprezar a vida humana não é invenção de ninguém: é marca registrada de todo governo que precisa mais de inimigos do que de vacinas.

E quanto mais eu ouvia a tragédia alheia, mais pensava na nossa, que ainda era apenas possível. A eleição se aproximava. O Brasil, com todos os seus defeitos, não merecia tamanho retrocesso.

No sábado, no foyer do hotel, com a mala já fechada, gravei um vídeo. Nele dizia o que estou dizendo aqui: que havia risco. Meu amigo Afonso Borges postou no Instagram e espalhou para os milhares de contatos que tem; fiz o mesmo com os meus poucos. Depois fui para o aeroporto. Pelo meu voto, Lula jamais poderia perder. O leitor dirá que um voto é pouco. É. Mas é o que cabe num homem.

A viagem foi turbulenta desde que entramos em território brasileiro, como se o país já estivesse nervoso. A Amazônia tremia lá embaixo e os rios voadores pareciam temer pela própria sorte; as motosserras e o homem do fogo aguardavam o resultado para estrangular o pulmão do mundo. 

Sobre Brasília, cinto travado até o pescoço — precaução que recomendo a quem sobrevoa Brasília em qualquer época. Em São Paulo, pouso sob tempestade de raios. Mas o cheiro de pão de queijo no aeroporto, ainda que de pão de queijo paulista, já era alento. Quase em casa.

Faltava beijar de novo aquelas nuvens pesadas para dedilhar o 13 na minha seção. Pousar em Belo Horizonte debaixo de uma tromba d’água foi uma agonia; pousamos, para alívio geral. Pelo número de camisas da Seleção dentro do avião, calculei que eu e Lula estávamos em desvantagem numérica. Mas futebol e eleição não se ganham só com a camisa.

Fui direto votar. Pelo caminho, o estrago da tempestade que eu vivera lá em cima: árvores caídas, placas retorcidas, pássaros mortos no chão denunciando o granizo. Rodrigo, o motorista, se embrenhou por caminhos que eu não conhecia — e olhe que sou ciclista — para desviar das pedras do caminho. Na ida, ele me dissera que votaria em Flávio. Argumentei; expliquei os riscos. Não sei se o convenci, mas, pelo empenho em me levar até a urna, acho que ao menos ficou em dúvida. Já é alguma coisa.

Eram 16h35 quando entrei naquela sala de aula de carteiras surradas da Escola Estadual Augusto de Lima, seção 181 — as mesmas carteiras públicas, juro, que me acompanharam a vida inteira desde os meus primeiros dias de escola. Os mesários me receberam com um misto de espanto e alívio. “Dr. Carlos, o senhor atrasou hoje! Furou o pneu da bicicleta?”. Quem perguntava era o chefe da seção, anestesista, meu ex-aluno. É que em todo dia de eleição, saio cedo, pedalo, voto e sigo meu caminho; acho que sou o único ciclista da seção. Expliquei a epopeia. Ele não aliviou: “Devia ter vindo de bicicleta. Bem mais seguro que avião em dia de tempestade”. Concordei integralmente. Anestesista sabe das coisas.

Votei e fui para casa esperar.

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O resultado, todos sabem. O Brasil derrotou, mais uma vez, o fascismo. Tomei um vinho, deitei e dormi como não dormia desde os tempos daquela escola. Acordei hoje sem ressaca nenhuma — o que, na minha idade, é quase um milagre da medicina.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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