A cantina do velório cheirava a café requentado e flores murchas. Pavão foi o primeiro a chegar, arrastando os pés pelo linóleo gasto, quando avistou Cássio Jaburu encostado no balcão, mexendo distraidamente um cafezinho já frio. Trocaram aquele olhar de quem se reconhece em território neutro — amigos de longa data, que a vida insiste em reunir nos lugares mais improváveis.
— Velório também, Cássio?
— Também. E você?
Antes que Pavão respondesse, Fernando Supimpa surgiu pela porta lateral, ajeitando a barriga dentro da camisa, com aquele ar de quem acabara de escapar de uma cerimônia particularmente enfadonha. Logo atrás, Edmundo, sempre atrasado, sempre ofegante.
— Não me digam que vocês todos...
— Pois é — confirmou Pavão. — Parece que hoje é dia de despedidas em atacado.
Sentaram-se à mesinha mais afastada, aquela que todo velório tem, estrategicamente posicionada entre o sagrado e o profano. Cássio pediu mais café. Fernando Supimpa, água (não ardente). Edmundo quis uma cerveja gelada, mas teve que se contentar com suco de caju aguado.
— E quem é o seu? — perguntou Fernando, quebrando o silêncio constrangido.
Pavão suspirou:
— Deputado Noronha. Conhecia da época em que clinicava no bairro dele. Homem ilustre, dizem. Roubou o que pôde, quando pôde. Morreu de infarto no motel, mas a família conseguiu transportá-lo a tempo para casa. No atestado de óbito, escreveram "morte natural". Natural para quem viveu artificialmente a vida inteira.
Cássio soltou uma risada curta.
— O meu é a Leninha. Prostituta do Beco das Flores. Pobre coitada, 52 anos parecendo 70. Fígado em frangalhos, coração cansado. Mas que mulher! Nos últimos dias, quando fui visitá-la no hospital, me contou histórias que fariam um cardeal arrepiar. Dizia que tinha mais moral que muito juiz que conheceu. E olha que conheceu muitos.
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Fernando abanou a cabeça, meio rindo, meio pensativo:
— Padre Augusto, o meu. Vigário da paróquia onde minha mãe rezava em Peçanha. Homem austero, daqueles que pregavam o desapego aos bens terrenos, enquanto acumulava primeiras edições de livros raros e garrafas de vinho francês na sacristia. Morreu dormindo, tranquilo. Dizem que sonhava com anjos. Eu apostaria que sonhava com o leilão da sua biblioteca e talvez com a Leninha do Cássio, ou com a Rita Boi.
Edmundo, que até então apenas escutava, pigarreou:
— Professor Meireles. Cientista. Frequentador do bar do Sabará. Passou a vida inteira estudando a decomposição da matéria, a entropia, o caos molecular. Ateu convicto. Dizia que depois da morte não há nada, apenas silêncio químico. Morreu de câncer, lúcido até o fim, recitando a tabela periódica como quem reza um terço.
Ficaram calados por um instante. O silêncio não era desconfortável; era daqueles que pedem passagem entre uma ideia e outra, entre o riso e a reflexão.
— E depois?, perguntou Pavão, olhando para o teto manchado de umidade. — O que acontece com cada um deles agora?
Cássio coçou o queixo:
— O deputado? Bem, se existe justiça divina, deve estar prestando contas. Imagino São Pedro com uma planilha do Excel, cruzando dados de propinas com obras inacabadas. "Senhor Noronha, aqui diz que o senhor desviou verbas da merenda escolar...conspirou contra a democracia..." E o Noronha, esperto como sempre, tentando negociar: "Mas, Excelência, eu doei uma ambulância para o Hospital da Baleia!". "Sim, mas a ambulância não tinha motor, deputado." “Quanto a conspirar contra a democracia, não, Excelência! Apenas votei pra quebrar o veto do presidente e abreviar a pena dos golpistas.” “Pois é, deputado, não é a mesma coisa?!”.
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Todos riram. Fernando acrescentou:
— E a Leninha? Coitada. Se houver um céu, ela merece entrar pela porta da frente. Quantas vezes não consolou homens desesperados? Quantas confidências não ouviu? Era psicóloga, enfermeira, confessora. Fazia o trabalho que muita gente diplomada não faz. Se São Pedro tiver bom senso, vai recebê-la com flores.
Pavão retomou:
— E o padre? Esse me intriga. Viveu entre dois mundos: o que pregava e o que praticava. Não era mau homem, apenas humano demais para o cargo. Talvez descubra, do outro lado, que Deus tem senso de humor. "Padre Augusto, bem-vindo! Aqui no céu não temos vinhos franceses, mas temos água fresca e verdade sem rótulo."
Edmundo, o mais cético do grupo, mexeu no suco:
— E o professor? Esse é fácil. Não há depois para ele. Virou adubo, carbono, nitrogênio. Voltou para o ciclo. Talvez vire uma árvore, talvez um cogumelo. Ele diria que isso é mais digno do que qualquer paraíso inventado. "Prefiro ser húmus a harpa", costumava dizer.
— Mas e se ele estiver errado? — desafiou Cássio. — E se acordar do outro lado e der de cara com tudo aquilo que negou?
Edmundo sorriu:
— Aí ele vai fazer o que todo cientista faz: revisar a hipótese. "Interessante. Precisarei de novos dados."
Fernando acendeu um cigarro imaginário — havia parado de fumar, mas o gesto permanecia:
— A questão, meus caros, não é o que acontece depois. É o que fizemos antes. O deputado roubou, a prostituta amou, o padre vacilou, o cientista duvidou. Cada um à sua maneira, viveu. E morreu. O depois é especulação. O antes é fato.
Pavão concordou:
— É verdade. Mas a gente precisa dessa especulação. Precisa acreditar que há um depois, nem que seja para suportar o agora. O deputado acreditava na impunidade eterna. A Leninha, na misericórdia. O padre, na redenção. O professor, no nada. Todos tinham fé em alguma coisa.
Cássio batucou na mesa, como de costume:
— Sabem o que eu acho? Que todos estão certos. E todos estão errados. Cada um vai encontrar exatamente aquilo que procurou. O deputado, o tribunal. A Leninha, o acolhimento. O padre, o perdão. O professor, o silêncio. Ou seja, o depois é sob medida.
— Alfaiataria divina — brincou Edmundo.
— Ou cósmica — emendou Fernando.
Terminaram o café. Lá fora, o sol começava a descer, tingindo o céu daquela cor alaranjada típica de maio, que parece suspender o tempo. Os quatro se levantaram quase simultaneamente, como se obedecessem a um comando invisível.
— E agora? — perguntou Edmundo.
Pavão ajeitou os poucos fios de cabelo que lhes restava:
— Agora vamos beber os defuntos no bar do Murilo (ex-Sabará). É o mínimo que podemos fazer por eles. E por nós.
— Beber os defuntos? — indagou Fernando Supimpa.
— Brindar, homenagear, lembrar — explicou Cássio. — Cada copo é uma memória, cada gole é um perdão. Bebemos para que eles não sejam esquecidos. E para que a gente não esqueça que também vai virar história na boca de outros.
Saíram da cantina em silêncio, mas não era um silêncio triste. Era daqueles carregados de cumplicidade, de quem sabe que a vida é curta demais para ser levada a sério o tempo todo, e séria demais para ser desperdiçada em frivolidades.
No bar, pediram quatro cervejas. Brindaram. Um pelo deputado corrupto. Outro pela prostituta generosa, que amou sem cobrar o preço da hipocrisia. Mais um pelo padre contraditório, que nos lembrou que santos são chatos. E o último pelo cientista cético, que duvidou até o fim e, talvez por isso, viveu com mais honestidade que muitos crentes.
— E o depois? — repetiu Pavão, já no terceiro copo.
— O depois, meu caro — respondeu Cássio, sorrindo —, depois a gente descobre. Ou não. Tanto faz. O importante é que agora estamos vivos. E isso, convenhamos, já é bastante extraordinário.
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Beberam até a noite engolir a cidade. E quando se despediram, na esquina iluminada pelo neon piscante de um supermercado, cada um levava consigo a certeza de que, um dia, também seria personagem numa conversa dessas. E torcia, secretamente, para que alguém se lembrasse de beber à sua saúde. Ou à sua morte. Dava no mesmo.
