O palito de dente nunca me fez falta. Aliás, palito e osso de galinha para entrar é fácil. Para sair, uma tragédia. Nesse mundo complexo, o que não pode passar batido é o essencial. Outro dia, fui ao jogo do Galo contra o Palmeiras. Essencial, não! Mas sempre a mesma lógica: VARmeiras e o VARmengo serão sempre os adversários a serem batidos.
O essencial, na realidade, é a percepção verdadeira de que, neste exato segundo, estamos vivendo o melhor de nossas vidas. O que foi, foi. O que está, está. O que será, não sei se será. A criança experimenta o mundo. Entra no mar onde não vê os próprios pés. Mas entra e sente o sabor do sal nos lábios. Inesquecível. Sempre voltará para abraçar as ondas. Essência eternizada.
Pois bem, caro (a) leitor (a), vou lhe confessar uma coisa: passei metade da vida procurando o essencial nas veredas erradas. Procurava-o nos livros de medicina, como se a essência da vida pudesse ser encontrada num tratado de patologia. Que ilusão magnífica! Que equívoco bem-intencionado!
O essencial, descobri tarde – e ainda bem que não foi tarde demais –, mora justamente onde menos se espera: no intervalo entre um suspiro e outro, na vírgula malandra que separa o sim do não, no espaço exíguo entre o que dizemos e o silêncio.
Meu consultório, ao longo dos anos, virou confessionário. Ali, entre o estetoscópio e a prancheta, ouvi mais sobre a alma humana do que sobre fígados, rins e bactérias. Descobri que as pessoas não adoecem apenas do corpo. Adoecem, principalmente, de falta de essência e ambição. De tanto perseguir o supérfluo, esqueceram-se do necessário. Acumulam coisas, compromissos, preocupações, como se a vida fosse um grande depósito onde é preciso guardar tudo, até o desprezível.
E aí vem o paradoxo: o essencial não se guarda. Ele acontece. É verbo, não substantivo. É movimento, não estátua. É o gol do Galo, que faz o coração disparar sem pedir licença ao cardiologista. É a cerveja no botequim da esquina, onde se resolve o Brasil inteiro entre um gole e outro de filosofia com jiló acebolado de tira-gosto.
Leia Mais
Voltemos ao palito de dente, se me permitem a digressão. Objeto humilde, multiuso, quase patético na sua simplicidade. Mas que drama quando ele se parte ao meio, deixando metade presa entre os molares, ou na porção terminal do reto! Ali, naquele instante de aflição, descobrimos uma verdade incômoda: o que entra fácil raramente sai sem deixar sequelas. Vale para palitos, relacionamentos, promessas feitas em noite de lua cheia e cachaça mineira.
A vida, amigos, é uma coleção de palitos atravessados. Uns tiramos com jeito, outros ficam lá, cutucando a gengiva, o colo descendente e as lembranças. E vai-se vivendo assim, entre o alívio e a irritação, entre o essencial e o acessório, sem saber muito bem onde termina um e começa o outro. Gengivite, peritonite e doença mental se encontram na ponta de um palito de dente.
Lembro-me de um paciente que veio ao consultório com uma lista de queixas quase bíblicas. Ele tinha sequelas de uma peritonite provocada por um palito que engolira, degustando uma “sacanagem”. Explico: sacanagem é um delicioso tira-gosto (enroladinho de mortadela com picles fixado com um palito) vendido numa padaria próxima a casa do Supimpa (Fernando Simões), do Bairro Funcionários, em BH. Ouvi tudo com paciência beneditina. Quando terminou, perguntei-lhe: "Seu Joaquim, me diga uma coisa: o senhor, apesar de todos os problemas, é feliz?". Ele me olhou como quem olha para um louco e respondeu: "Doutor, eu não tenho tempo para ser feliz. Tenho compromissos demais e saúde de menos por causa da porra do palito".
Pronto. Ali estava, resumida em duas frases, a tragédia humana contemporânea. Agendamos tudo, menos o fundamental. Planejamos o futuro, remoemos o passado, mas o presente – ah, o presente! – esse passa batido, como figurante de novela mexicana. A culpa é de quem?! Claro, da “sacanagem” e do palito.
O essencial, se é que posso arriscar uma definição sem ofender os filósofos de plantão, é justamente isso: a capacidade de estar presente no próprio presente. De sentir o gosto do café sem pensar na reunião das dez. De abraçar sem consultar o relógio.
E o futebol, dirão os puristas, o que tem de essencial o futebol? Tudo e nada, respondo. Nada, porque é apenas um jogo onde 22 homens correm atrás de uma bola. Tudo, porque naquelas duas horas suspensas no tempo, somos devolvidos à infância, quando torcer era a coisa mais importante do mundo. O essencial, naquele instante, é não ser essencial. É poder ser fútil, apaixonado, irracional.
Varmeiras, Varmengo – esses apelidos carinhosamente maldosos que inventamos para os adversários – são parte de um ritual que nos conecta com algo maior: a tribo, o clã, a identidade. Somos do Galo não por lógica, mas por essência. Nascemos assim, morremos assim. E nesse intervalo chamado vida, carregamos essa bandeira com orgulho inexplicável e maravilhosamente desnecessário.
O que foi, foi. O que está, está. O que será, não sei se será. Nessa frase aparentemente simples mora uma filosofia inteira. E é aqui, neste agora precário e esplêndido, que reside todo o essencial. O resto – palitos, compromissos, preocupações – é apenas cenário. Importante, talvez. Mas não essencial.
O mar continua lá, esperando. As ondas continuam chamando. O sal continua salgado. E a vida, essa coisa absurda e maravilhosa, continua pedindo que entremos, mesmo onde não vemos os próprios pés.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Que entremos. Que sintamos a dor da água viva. Que urinemos na própria ferida. Porque no fim – ou seria no começo? – o essencial é isso: estar vivo enquanto se está vivo.
O resto é palito de dente.
